Meus Nostálgicos e Complexos anos 80, por Claucio Ciarlini

Entre os anos de 1984 e 1985, diversos acontecimentos “povoaram” este País, dentre eles, surgia o movimento das Diretas Já, um conjunto de reivindicações que impulsionariam o fim do regime (já moribundo) militar brasileiro. Enquanto o Brasil comemorava a abertura democrática tão almejada por anos, os amantes da música brindavam e dançavam assistindo a primeira edição do Rock in Rio. No mesmo intervalo de tempo, dois fatos marcaram minha existência, me empurrando para um brusco amadurecimento. Foram eles: A separação de meus pais e o inicio da trajetória escolar.

                Tinha meus quatro anos de idade e pouco eu sabia sobre a vida e suas complexidades. Entregue a um ambiente estudantil, em alguns momentos acolhedor (por partes de algumas professoras), mas que também poderia ser bastante hostil (por parte de alguns colegas), fui levado a conviver diariamente com outros da minha idade, aprendendo cantigas infantis,  ao mesmo tempo, que me indagava sobre a ausência da figura paterna nas reuniões de pais ou no mês de agosto…

                Com o decorrer do tempo, fui me acostumando com as novas mudanças e responsabilidades, porém do alto da minha timidez, tentava a cada “final de dia” na escola, escapar dos brigões que me perseguiam, sempre me escolhendo para ser seu saco de pancadas. Costumavam mandar bilhetes horas antes, com o aviso: – Te pego lá fora! Correndo desesperado para casa, tentava ao mesmo tempo escapar de uma “boa surra”, e de quebra, chegar antes que começasse meus desenhos preferidos: Thundercats, He-Man e Caverna do Dragão.

                Porém as coisas foram evoluindo, e enquanto sonhava em chegar às férias para que pudesse passar o dia jogando Atari ou assistindo filmes da locadora, nem percebia que tudo o que estava vivendo e sentindo naqueles anos, passaria e se tornaria apenas “poeira nostálgica”. Poeira essa, que no futuro sujaria meus olhos, vez por outra, me causando lágrimas, ao me lembrar de quando tinha a proteção e os carinhos de minha avó, e a alegria de ser criança, ocasião em que o universo é um pouco mais colorido, e que embora avistasse e percebesse diversas rachaduras no formato da realidade, ainda tinha a opção de me esconder atrás dos brinquedos e dos mundos imaginários criados para esse fim.

                Ouvindo no meu walkman, Air Supply, A-ha e Roxette, fui conduzido ao fim dos anos 80, para algo inesperado e que afetaria toda a minha percepção de sonho e realidade: seriam as paixões, que no principio me acertaram como um meteoro de encontro ao solo, e que me mergulharam em águas profundas de sensações mais amplificadas e de difícil fuga… Era a adolescência chegando, e com ela, os desafios, os medos, as vitórias, as incertezas, as ilusões e as desilusões…

                …Quando os pesadelos me despertavam em meio a madrugada, eu buscava o refúgio dos braços de minha avó, entregue a um mundo de sonhos, eu nem percebia o tamanho da importância desta figura para minha vida… Anos depois eu perceberia a real dimensão, ao perdê-la para a morte, assim como perderia também minha inocência, ambas, tragadas pelo frio e inevitável tempo…

Claucio Ciarlini (2009)

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