SOBRE O ROMANCE “HISTÓRIAS DE ÉVORA”

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SOBRE O ROMANCE “HISTÓRIAS DE ÉVORA”

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Robertônio Pessoa

Robertônio Pessoa (*)

O livro Histórias de Évora, do conhecido escritor e dileto amigo Elmar Carvalho, despertou-me o interesse desde o primeiro momento, interesse este ainda mais aguçado quando ele, num tom quase confidencial, disse-me que me encontraria naquele romance, em particular nas peripécias do protagonista Marcos. E confesso que não demorei muito para perceber que o vaticínio do amigo logo se realizaria.

O romance gira em torno das aventuras e primeiras experiências sexuais do jovem Marcos numa hipotética cidade chamada Évora, e que bem poderia ser a nossa Teresina, ou talvez a vizinha Campo Maior, nos anos 60-70-80, e para qualquer outro leitor aquela cidadezinha querida onde ocorreram os primeiros passos da vida adulta, naquela mágica e turbulenta passagem da adolescência para os primeiros anos da juventude.

Folheando já os primeiros capítulos, senti-me misteriosamente transportado para aquela atmosfera infanto-juvenil do final dos anos 70 e começo dos anos 80, período em que profundas e estranhas transformações físicas e psíquicas marcaram o final da minha adolescência, época chancelada por incontornáveis ritos de passagem e pelas alegrias e transtornos na iniciação sexual, tema este, aliás, que toma boa parte do romance.

No livro não se encontram capítulos longos, sendo composto por pequenas e bem proporcionadas unidades, que mais lembram os “splins” baudelairianos, e que, sem muito esforço e fadiga vão nos introduzindo no tempo, na personalidade, no entorno, nas peripécias e aventuras sentimentais, amorosas e sexuais do protagonista. Concomitantemente, outros pitorescos casos de época são narrados, como tragédias familiares, sociais e mesmo eclesiásticas, como o curioso “crime do padre Amaro”.

O romance tem um tom de reminiscências, talvez do próprio Elmar, mas que bem poderiam ser minhas e suas. Evocando as lições de Marcel Proust, o autor declara: “Por muitos anos, quando quis recordar certos episódios de minha vida, no intuito de aproveitá-los em algum texto literário, mormente em poemas evocativos, contemplei vetustos sobrados, velhas casas solarengas; percorri algumas praças e ruas que não haviam sido desfiguradas, que ainda mantinham os traços que vi em minha infância e adolescência. E pude relembrar certos momentos de minha vida, que já se esfumaçavam em minha memória.”

A narrativa e a linguagem do romance são bem trabalhadas, com a escolha do tom adequado e das metáforas apropriadas ao tempo, com atenção aos detalhes, numa recomposição bastante verossímil que nos remete aos gostos, costumes, expressões, gírias e trejeitos de uma época já esquecida, principalmente em face da velocidade que a história assumiu em nossos dias. Faz-nos rememorar coisas, fatos, personagens, modos de falar e de agir aos quais alegremente assentimos em nosso íntimo: “Isso…isso… era assim mesmo…era assim que se dizia..”. E tudo isso numa tessitura bem costurada, numa trama simples, sem maiores pretensões, mas composta com desenvoltura e no estilo próprio, agradável e leve do autor.

As peripécias, venturas e desventuras da iniciação sexual de Marcos são deliciosamente eróticas, onde as pulsões transbordantes da juventude, quando a testosterona alcança seus picos máximos, são inteligentemente trabalhadas, com o suspense das primeiras trepadas, animadas pela circulação quase clandestina de revistas pornográficas e as primeiras descidas aos meretrícios, e tudo numa ambiência quase vitoriana. Quem não se lembra daquelas louras estonteantes das escassas revistas suecas em coitos mirabolantes e das performances da holandesa Silvia Cristal no filme Emanuelle Tropical que assistíamos no Cine Rex.

Ao final, eu bem que poderia responder como Gustave Flaubert quando lhe indagaram quem seria a Madame Bovary do seu consagrado romance. Parodiando-o, responderia sem titubear: “Marcos sou eu”.

(*) Membro da Academia Piauiense de Letras Jurídicas, Procurador da Fazenda Nacional e escritor.

A entrada de Pádua Marques na Academia Parnaibana de Letras.

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“Tornei-me acaso vosso inimigo, porque vos disse a verdade?”

Carta de São Paulo aos Gálatas (Gl 4,16).

A recente entrada de Antonio de Pádua Marques e Silva na Academia Parnaibana de Letras é um feito que, no campo literário de Parnaíba (quiçá do Piauí), merece ser lembrado e reverenciado.

Não por ser o ingresso de um legítimo artífice das letras criativas, mas por quebrar certo regime de ingressos não literários que grassa nas academias desde que Joaquim Nabuco, em 1907, querendo justificar a eleição do almirante Artur Jaceguai, abrira as portas da Academia Brasileira de Letras a homens que não se notabilizaram na literatura, mas, tão somente, em atividades extraliterárias e não culturais, como foram também os abusivos casos de Santos Dumont e de Lauro Müller, então ministro do governo de Wenceslau Braz.

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Autor de importantes peças literárias que aguardam ocasião adequada para caírem nas graças da publicidade, Pádua Marques é, sem o prejuízo da comparação, o típico homem de letras que, ao se comportar como cronista, lembra-nos, de alguma maneira, o Graciliano Ramos de Linhas tortas (1962), e só não o é mais porque encerra em sua produção traços de uma identidade muito bem formada e definida – o que faz do mestre alagoano apenas um norte e não esteio.

Além disso, a sua escolha pelo gênero da prosa é outra marca, principalmente em um meio acostumado com poetas e, vez por outra, com cronistas. Contra essa corrente, Pádua é, antes de tudo, romancista fecundo, cujo tempero, em leves pitadas de humor e de ironia, ajuda a formatar textos simples e ao mesmo tempo ricos em imagem e crítica; é o que ocorre, por exemplo, em O libertador de Cuba, romance ainda inédito.

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As academias de letras, a bem da verdade, deixaram de ser no Brasil, ironicamente, reduto dos homens de letras. Um leve olhar, o mais superficial e sem apuro de pesquisa, constataria que as suas cadeiras são ocupadas, antes, por homens de poucas letras, embora de muitas influências (amigos, parentes…), advindos de outros campos: veem-se médicos, advogados, engenheiros, políticos, militares etc. com colaborações ao monte Hélicon ainda por vir, se é que um dia virão.

É claro que na América Latina, por questões socioeconômicas, raríssimos foram os escritores que se dedicaram unicamente à literatura, daí que esta não passasse – e ainda passe – de uma segunda ocupação, quando não para as horas livres. Quase todos os intelectuais brasileiros, a propósito, desde fins do século XIX e início do XX, eram profissionais liberais ou funcionários públicos, isso, porém, não impedia que legassem às letras pátrias obras que de alguma forma entraram para a história do país. E é dessas colaborações que falo.

No Brasil, ainda hoje, repete-se o triste e inolvidável episódio da eleição armada, para a ABL, de Mário de Alencar, então aspirante a escritor, que vencera Domingos Olímpio, prestigiado autor de Luzia-Homem (1903), justamente porque o estreante era tutelado por nada mais nada menos que Machado de Assis.

Quantos “meninos de letras” – quase ou totalmente desconhecidos! – são, ainda, tutelados e empossados por vínculos de parentesco? De reduto, de espaço sadio ao gozo das letras, as academias, assim, transmutam-se em verdadeiros feudos regidos por homens cordiais que hipertrofiam a esfera privada em detrimento da pública, para aqui lembrar a lúcida análise de Sérgio Buarque de Holanda acerca desse jeito malandro e tão brasileiro de ser.

É por razões congêneres que a vigência-instituição1 no Brasil, fortemente representada pela ABL, aos poucos tem mudado o seu centro de gravidade para as academias científicas, onde residem pesquisadores, estudiosos e mesmo escritores, cujas forças intelectivas muito têm contribuído para a literatura brasileira.

Aliás, a Academia Brasileira de Letras, há alguns anos, sabendo da importância de sua coirmã, tem se aproximado das principais universidades do Brasil, a começar as do Rio de Janeiro, e patrocinado ciclos de conferências em sua sede, um exemplo, sem dúvida, a ser seguido pelas demais, porque no seio científico é que residem, hoje, as verdadeiras pesquisas, os mais inusitados estudos e as fortuitas contribuições ao campo.

Pádua Marques, portanto, é uma injeção de ânimo para quem hoje assiste com certa desconfiança aos sodalícios de letras do país. Sem dúvidas o seu voto, em nome da literatura, como os de outros merecidos nomes que lá residem e fazem valer suas eleições, vale mais para a estrutura social das letras do que quaisquer outras vozes que reverberam uma existência amorfa e improdutiva.

Sua voz, reforço, é a voz de um romancista com histórias que localizam Parnaíba, sua terra, como espaço de excelência. Eis, por isso, a grande contribuição de Pádua Marques para as letras de Parnaíba: como escritor ajuda a formar o capital simbólico da cidade, assim também fizera século passado Assis Brasil, criando sobre e para ela histórias, mitos, universos e toda uma poesia, como os romancistas franceses de antanho acerca de Paris, a exemplo de Balzac, que dedicou uma vida a cantar e a louvar aquela que não tardou a ser considerada a própria República Mundial das Letras.

Vida longa ao imortal!

Daniel C. B. Ciarlini

1 Tomo emprestada aqui esta expressão tão cara a Luís Antonio Machado Neto, em sua referenciada pesquisa Estrutura social da república das letras (1973).

 

Apresentação do livro “palavra SERtão”

Apresentação do livro “palavra SERtão”

Elmar Carvalho

Leandro Cardoso Fernandes é piauiense de Teresina. Médico pela Universidade de Pernambuco (UPE), cardiologista e ecocardiografista pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP).

Poeta, cordelista e pesquisador de cultura popular, com foco na temática “Cangaço”. Tem participação em documentários, capítulos de livro e artigos sobre este tema.

É coautor (em parceria com Antônio Amaury Correa de Araújo) do livro “Lampião: A Medicina e o Cangaço”.

É membro titular da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC); ocupa a cadeira nº 5 da Academia de Medicina do Piauí, membro da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), da Sociedade Piauiense de História da Medicina e Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (SOBRAMES-PI), dentre outras. (Orelha do livro “palavra SERtão”)

Cineas Santos fez a apresentação da obra na solenidade de lançamento, ocorrida na noite do dia 10, no Auditório Prof. Paulo Nunes, na Oficina da Palavra.

      Leandro Cardoso, que além do mais é um dos maiores e melhores escritores e pesquisadores do tema cangaço, não apenas do Piauí, mas do Brasil, com importantes trabalhos publicados, inclusive em livro, é um poeta de muitos e variados recursos na arte de versejar, pois é versátil e versado.

            Transita do poema de cordel ao poema moderno e erudito com singular facilidade, pelo menos facilidade aparente, pois certa fluidez e espontaneidade que quase sempre lhe percebemos pode ser fruto de estressante luta com as palavras, como no dizer drummondiano.

            Os temas que aborda são os mais diferentes possíveis, e vão das agruras sertanejas, com toda o seu cortejo de misérias e percalços, a temas líricos, amenos e, em alguns momentos, do cotidiano e circunstanciais. E nisto não vai nenhum reparo ou senão, uma vez que sou conhecedor de que o menestrel Manuel Bandeira foi um mestre de belos poemas ditos de circunstância, como muito bem pode ser aferido em Mafuá do Malungo. Nesses versos, Leandro louva o sorriso de uma filha, a saudade da mulher amada e o afeto paterno por toda a prole.

            O nosso bardo não cai nas armadilhas das aparentes facilidades da poesia contemporânea, e por isso, talvez para demonstrar que tem talento e técnica, comete primorosos poemas metrificados e rimados. Para isso, decerto, hauriu as lições dos grandes mestres da poesia, digamos erudita, e dos célebres cordelistas brasileiros, sem preconceitos e sem pruridos elitistas.

            Em alguns de seus poemas, se revela como um consumado artífice de descrições paisagísticas. Torna-se, então, um hábil pintor, e nos seus versos perpassam belas paisagens, mas também asperezas da paisagem nordestina. Por vezes podemos nos deparar com um belo pôr de sol, mas também sermos surpreendidos com uma esquálida e espinhenta caatinga nordestina. Também canta os rios, os mares, as serras e os belos carnaubais verdejantes, como se a natureza estivesse entranhada em sua alma.

            Nem só de cenários trata o seu versejar, mas ainda de cenas, que, se não são épicas nem homéricas, são também relevantes, mesmo quando falam do cotidiano nordestino, porque mostram as mazelas e tragicidade do nosso caboclo, que enfrenta a seca, a miséria e a fome, até culminar na epopeia cinzenta dos retirantes.

Portanto, é um poeta solidário com o sofrimento do bravo sertanejo, que nas palavras de Euclides da Cunha é antes de tudo um forte, a que acrescentarei o adjetivo espartano. Assim, não vive encastelado em etéreas torres ebúrneas, enevoadas, e distanciadas da realidade da terra e do homem que nela vive, sofre e moureja.

            Leandro Cardoso tem um verdadeiro arsenal poético, e, por conseguinte, utiliza os mais variados recursos estilísticos, e figuras e tropos. Não segue o modismo dos poeminhas pequenininhos, geralmente contendo apenas pretensos trocadilhos engraçadinhos. Seus poemas têm “sustância”, com conteúdo vertido em bela forma.

            Contudo, quando os perpetra, nota-se que eles contêm denso conteúdo, senso de humor, e não mero malabarismo rímico, como pode servir de exemplo o sintético poema Namoro, de sabor epigramático:

 – Com licença?

Posso entrar na sua vida?

                        – Desculpe…

Mas detesto despedida!

            É um poeta que veio para ficar e ficou… Ficou e ficará como um de nossos bons poetas.

Corujas, tetéus, casacas e outros bichos

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Corujas, tetéus, casacas e outros bichos

Elmar Carvalho

No local onde nos últimos meses me hospedo em Parnaíba, tenho ainda uma bela visão, de paisagens próximas e de outras que vejo ao longe. Assim, vejo os grandes cata-ventos das usinas eólicas, que me fazem recordar os belos e quase bucólicos cata-ventos de minha meninice, e as dunas que outrora ornaram a Lagoa do Portinho… Disse “outrora ornaram” porque a lagoa já não existe, ou pelo menos já não existe em todo seu esplendor e glória.

Bem distante, como um debrum do céu, vejo uma nesga azulada do que deve ser uma serra. Pensei fosse a Serra Grande, a Serra da Ibiapaba, o que me faz lembrar os romances indígenas de Alencar, a viçosa e antiga Viçosa imperial, e as graciosas Tianguá e Ubajara, que conheci em minha adolescência, quando desejei morar nelas, para melhor lhes sentir as névoas e o frio, e dessa forma escrever friorentos e nevoentos poemas, cheios de distância e de brumas. Todavia, alguns dizem ser uma outra serra, menos imponente e mais perto, pertencente ao município de Luís Correia.

O local a que me refiro se presta a umas boas pedaladas. Por isso, resolvi adquirir uma bicicleta. Nesses passeios ciclísticos, vejo as ervas e as flores silvestres da terra ainda sem construções. E isso me faz recordar a minha adolescência, em que, algumas vezes, eu empreendia longos passeios pela periferia e arrabaldes de Campo Maior, tendo numa das vezes ido até a pequenina Serra Grande de Campo Maior ou Serra Azul, ou mais propriamente morros isolados de Santo Antônio do Surubim.

Fico contente de ainda saber manejar, com certo vigor e perícia, a “magrela” de várias marchas, tão diferente da minha velha e despojada Bristol ou Gulliver. A indefinição se deve ao fato de que o nome da marca já não era visto na época ou de que já se esvaiu na fragilidade da memória.

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Quando estou a passear, vejo várias aves e algumas vezes desfruto do prazer de lhes ouvir o canto, quando paro de pedalar para melhor lhes apreciar o gorjeio. Vejo e ouço o bem-te-vi com a sua emblemática admoestação ou advertência: bem te vi!; os pernaltas e ariscos tetéus, que logo se afastam ou alçam voo, enquanto alardeiam o suposto perigo com as suas metálicas trombetas de alarme.

Os casacas também marcam sua presença, como aladas notas musicais vivas, pousadas sobre as paralelas da partitura dos fios elétricos, para retomar uma metáfora de um meu antigo poema. Há os casacas-de-couro, de sóbria plumagem amarronzada e uniforme, como se vestissem um gibão de couro dos nossos indômitos vaqueiros, de que, creio, lhes adveio o nome. E há os casacas-de-peito-vermelho, elegantes e belos, como se trajassem um colete vermelho por baixo do paletó negro das asas. Não há negar, são flamenguistas ostensivos e aguerridos.

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Nessas andanças vejo ao longe, em revoada, a magnífica coreografia dos urubus, que circulando se vão afastando, em sincronizado movimento de rotação e translação. E numa das vezes flagrei, de maneira para mim inusitada, dois exemplares dessas aves de rapina a fazerem amor, no cocuruto do telhado de uma das casas. Disse “fazer amor” porque o casal não se bicava e nem se espezinhava, antes se cheiravam e se acolhiam e se agasalhavam. Pensei que os urubus faziam isso entre as gazas das nuvens do poeta, em verdadeiras pulutricas e acrobacias aéreas, como autênticos e literais nefelibatas.

Mas principalmente encontro, nesses périplos de boas pedaladas, as circunspectas corujas, encarapitadas em postes ou em montes de pedras, ou simplesmente postadas no descampado. Olham-me com desconfiança, com seus olhos argutos, de pupilas arregaladas. Às vezes fogem. Outras vezes permanecem no mesmo lugar, mas ariscas, em estado de vigília e defesa.

Elas me fazem recordar os caburés dos áridos tabuleiros de minha terra, e o caburé com frio do poema dacostiano, piando, piando, contudo sem folhas lívidas cantando… Também recordo as corujas esculpidas da coleção que aos poucos estou formando, de diferentes tamanhos e materiais. Muitos as consideram aves de mau presságio, mormente as rasga-mortalha, de dilacerante canto, que dizem antecipar acontecimentos funestos.

Em minha negra bicicleta, como um esdrúxulo centauro, tento lhes imitar o piado. Mas parece que o meu crocitar é muito canhestro, porque elas, do alto do poste em que se empoleiram, me olham com certo desdém, talvez por me acharem desafinado. Ou por entenderem que eu seja uma grande, desengonçada e feia coruja.

Porém, em certa ocasião, uma pousou tão perto de mim, que fiquei com a impressão de que ela me reconheceu ao menos como um primo pobre e distante, a quem ela não poderia dar muita confiança, a não ser em rápida e fugaz eventualidade.

Padre Tomé de Carvalho e Silva, primeiro vigário do Piauí

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Padre Tomé de Carvalho e Silva, primeiro vigário do Piauí

Reginaldo Miranda
Da Academia Piauiense de Letras

O padre Tomé de Carvalho e Silva foi o primeiro vigário do Piauí, fundador da freguesia de Nossa Senhora da Vitória do Brejo do Mocha do Sertão Piauí, onde tomou posse em 2 de março de 1697, com o beneplácito de seu primo, o também vigário Miguel de Carvalho e Almeida, da freguesia do Rodelas, de onde foi aquela desmembrada e que lhe deu posse.

Nasceu esse pioneiro vigário em Bragadas, minúscula povoação da freguesia de Santo Aleixo de Além Tâmega, do concelho de Ribeira de Pena, comarca de Guimarães, Arcebispado de Braga, no norte de Portugal. Era filho legítimo de José da Silva e de sua mulher Catarina de Almeida(2ª), do lugar de Bragadas, freguesia de Santo Aleixo, do concelho de Ribeira de Pena, comarca de Guimarães, Arcebispado de Braga, esta irmão do capitão Miguel Carvalho de Almeida (pai do Pe. Miguel de Carvalho), ambos filhos de Domingos Carvalho e Catarina de Almeida, primeira do nome, todos naturais e moradores em Ribeira de Pena.

Foi batizado o nosso biografado em 23 de janeiro de 1673, na freguesia de Santo Aleixo, pelo padre Antonio Pacheco, sendo padrinho seu parente homônimo Thomé Carvalho e madrinha sua irmã Domingas Carvalho.

Pouco sabemos de sua vida escolar, sendo plausível que tenha seguido os passos do primo Miguel de Carvalho, que cursou os estudos iniciais na terra natal e os superiores com os jesuítas no Seminário de Braga, onde se ordenaria.

Logo depois da ordenação, com 24 anos de idade, o jovem padre Tomé de Carvalho, por via de seu indicado primo, foi chamado a assumir uma missão de alta importância, instalar uma paróquia no sertão íngreme e desenvolver atividade missionária desde a margem ocidental do médio curso do rio São Francisco até os desconhecidos limites das terras de Espanha. Era a freguesia de Nossa Senhora da Vitória do Brejo do Mocha do Sertão do Piauí. Com ele também viera do reino outro primo, o padre Inocêncio Carvalho de Almeida, irmão daquele, sendo, assim, os três parentes, todos da mesma localidade, a pequena aldeia de Bragadas, dois irmãos e um primo, fundadores de paróquias e missionários no Sertão de Dentro.

Digno de nota é o dignificante trabalho apostolar do padre Tomé de Carvalho e Silva, cujos sermões, onde pregava a palavra de Cristo e difundia o Evangelho, ecoaram em nossos sertões por trinta e oito anos, no  tempo de fundação e consolidação da freguesia da Mocha, hoje cidade de Oeiras, por ele fundada. Fez de seu púlpito, nas margens do riacho do Mocha, uma trincheira civilizatória e um farol de irradiação da cristandade. Foi marcante a sua ação evangelizadora, sendo merecedor de todos os encômios de nossa sociedade e da Igreja Católica, porque era vocacionado para a fé e realizou obra notável.

Foi co-fundador da freguesia de Nossa Senhora da Vitória, enfrentou a prepotência de sesmeiros a exemplo de Domingos Afonso Serra, que o desacatou em princípio de 1698, expulsando-o da localidade e queimando sua casa, capela e demais instalações preparadas para receber os romeiros. Porém, as reconstruiu com determinação e coragem, primeiro todas de taipa e palha, depois de pedras e saibros, cuja conclusão da igreja matriz deu-se em 1733, quando pediu a El-Rei um sino, uma lâmpada, paramentos, alvas e vestimentas para celebrar com maior grandeza.

O Pe. Tomé de Carvalho, foi também responsável pela criação de diversos curatos pelas ribeiras mais populosas, conforme testemunhou o governador João da Maia da Gama, em 1728.

Paralelamente a essa ação missionária, nesses trinta e oito anos em que mourejara no Piauí, que elegera como sua nova pátria, também fez-se rico fazendeiro, construindo sólido patrimônio em terra e gado. Nas vizinhanças da morte, quando sentiu que os anos lhe pesavam e era chegada a hora da despedida, chamou o Tabelião da Mocha e ditou seu testamento, onde declara possuir os seguintes bens: três fazendas de gado chamadas Victória, Tranqueira e Caraíba, assim com o Sítio Novo, nos Alongases de Baixo, freguesia de N. Sra. do Carmo da Piracuruca, com os gados delas de seu ferro e sinal, escravos, cavalos de suas fábricas, selas e ferramentas, e o mais que nelas se achasse e por seu fosse conhecido; declarou possuir também uma partida de éguas com seu ferro na fazenda Ilha, de José de Abreu Bacelar, além de alguns outros escravos nominados no indicado testamento e bens móveis existentes em sua casa. Era, assim, um abastado fazendeiro.

E para auxiliá-lo na atividade sacerdotal trouxe inúmeros parentes que fixaram residência no Piauí, entre esses o irmão mais moço padre Miguel de Carvalho e Silva e o sobrinho pela parte paterna padre André da Silva, este último sendo coadjutor em Oeiras.

Também, assumindo o encargo de arrimo de família, ajudou a muitos parentes, trazendo para sua companhia os sobrinhos Manoel de Carvalho da Silva e Almeida e Antônio Carvalho de Almeida, ambos filhos do casamento de sua irmã Izabel de Almeida com Domingos Dias, da freguesia de São João de Cabés; ao primeiro mandou, às suas expensas, estudar em Salvador e depois em Coimbra, onde se formou em Leis; ao segundo, entregou a administração de suas fazendas, onde se fez rico fazendeiro, capitão-mor do Piauí e genearca de numerosa e ilustrada descendência; no testamento também consta que trouxera o sobrinho Antonio Sanches, nascido em 5 de outubro de 1709, na freguesia de São João de Cabés, filho do casamento de sua irmã Ângela de Almeida com Manoel Sanches. Esses três sobrinhos foram instituídos como herdeiros universais, dividindo o patrimônio depois de pagas as dívidas e os legados.

Depois de desenvolver esse notável trabalho apostolar falece o padre Tomé de Carvalho e Silva, aos 62 anos de idade, em 18 de setembro de 1735, na fazenda Corrente, com todos os sacramentos e deixando testamento, sendo o corpo sepultado na capela mor da igreja matriz de Nossa Senhora da Vitória, por ele construída e onde, de seu púlpito, por tantos anos dissera a missa e exortara os fiéis aos bons exemplos do cristianismo. É um dos construtores de nosso Estado, cuja história de vida deve ser preservada para a perpétua memória dos tempos.

Exposição ” Recortes” mostra belezas de Parnaíba.

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O Parnaíba Shopping recebe entre hoje 01 e 15 de agosto, a Exposição “Recortes”, do fotógrafo Helder Fontenele, no espaço de eventos. A mostra fotográfica faz parte das comemorações pelo aniversário de 173 anos da cidade. Helder faz registros desde 2009 e decidiu expor suas impressões para todos os parnaibanos.

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São 40 fotos mostrando detalhes de pontos históricos de Parnaíba, como o Centro Cívico, a Igreja Matriz e do Rosário, Estação do Floriópolis, Praça da Graça e os casarões históricos espalhados pela cidade.

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“A intenção é mostrar o quanto Parnaíba é bonita, tanto para os parnaibanos quanto para os turistas”, afirmou Fontenele.

 

Edição: APM Notícias Fotos: Helder Fontenele.

 

Os agostos do Brasil. Alegrias e tristezas.*

 

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O oitavo mês do ano, agosto, sempre foi motivo de grande preocupação levada por acontecimentos bons ou ruins e que acabaram alimentando a superstição como de mau agouro. Coincidência ou não, os grandes fatos ocorreram nesta época do ano no Brasil e já em 1902 o gaúcho Plácido de Castro deu início a uma revolta de brasileiros no distante Acre contra o domínio boliviano. Em 1903, poucos anos depois de proclamada a República, rebentava no Rio de Janeiro a primeira greve geral de trabalhadores reivindicando jornada de oito horas diárias e melhores condições de trabalho.

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No ano seguinte o Banco da República passava a se chamar definitivamente Banco do Brasil. Mais adiante em 1908 nascia no Rio Grande do Sul Ernesto Geisel, que viria a ser presidente da República e em 1908 era aberta no Rio de Janeiro a Exposição Nacional.

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Em 1909 um crime abalaria a história, o assassinato de Euclides da Cunha pelo aspirante Dilermano de Assis, amante de sua mulher. Naquele mesmo ano rebentava uma greve na Fábrica São Bento, em Jundiaí, interior de São Paulo, que empregava meninos de sete anos de idade. Nos dois anos seguintes, 1910 e 1911, nasciam Sílvio Frota e Golbery do Couto e Silva, dois generais em que se sustentou a ditadura militar de 1964.

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Em 1912 nasceram em agosto dois intelectuais, Jorge Amado e Nelson Rodrigues. Em 1914 quando se avizinhava a Primeira Guerra Mundial, ocorreram no Rio de Janeiro comícios e saques contra a carestia e em São Paulo era fundado o Clube Palestra Itália, o Palmeiras. Em 1917 rebenta uma greve geral em Porto Alegre no Rio Grande do Sul.

Em 1918 era fundada a Casa dos Artistas no Rio de Janeiro e coincidentemente nascia o cantor e compositor Jackson do Pandeiro. No esporte em 1920 o Brasil conquistava medalhas de prata e bronze nas Olimpíadas de Antuérpia e dois anos depois Berta Lutz fundava a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. No ano seguinte era inaugurado no Rio de Janeiro, o Copacabana Palace, um dos mais luxuosos hotéis do mundo. Foi também naquele ano que nasceram a atriz Tonia Carrero e a cantora Emilinha Borba. No futebol o Vasco empatava com o Bangu em 2 a 2 e se tornava campeão carioca.

Vargas entre o crime e o castigo. Em 1924 era sufocada a Comuna de Manaus, parte da Revolta Tenentista chefiada por Alfredo Augusto Ribeiro Júnior. Três anos depois a Lei Celerada punha fim à legalidade do Partido Comunista Brasileiro, o PCB, enquanto no ano seguinte era inaugurada a rodovia Rio-Petrópolis. Em 1929 a Aliança Liberal lançava a candidatura de João Pessoa como vice na chapa presidencial de Getúlio Vargas.

 

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Um salto e estamos agora em 1942. Nasce em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo, Caetano Emanuel Viana Teles Veloso, cantor e compositor. Estudantes ocupam o Clube Germânia e o transformam na sede da União Nacional dos Estudantes. Na política, o general Góis Monteiro deixa a pasta do Estado Maior do Exército e abre uma crise no governo de Getúlio Vargas. 

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Naquele ano é criada a LBA, Legião Brasileira de Assistência e o Brasil declara guerra aos países do Eixo, Alemanha, Japão e Itália. No ano seguinte o PCB ainda na ilegalidade realiza a Conferência da Mantiqueira. O governo Vargas começa a enfraquecer com a saída do ministro Osvaldo Aranha, da pasta das Relações Exteriores e no ano seguinte o general Góis Monteiro assume o Ministério da Guerra enquanto a UDN, apóia o brigadeiro Eduardo Gomes para a sucessão de Vargas.

É também em agosto do ano seguinte que a Constituinte começa a votação em plenário e presidente dos Estados Unidos, Eisenhower visita o Brasil. Por outro lado o ministro da Justiça, Carlos Luz proíbe a realização de comícios em todo o Brasil.

Naquele ano estréia o filme “O Ébrio”, com o cantor Vicente Celestino. No ano seguinte é fundado o PSB, Partido Socialista Brasileiro. Em 1948 a seleção brasileira de basquete conquista medalha de bronze nas Olimpíadas de Londres, a primeira do país em esporte coletivo. Em agosto de 1949 é fundada a ESG, Escola Superior de Guerra e no ano seguinte o PCB publica o famoso Manifesto de Agosto enquanto o governador de São Paulo, Ademar de Barros, lança Café Filho como vice na chapa de Getúlio Vargas. Naquele mês tem início a campanha presidencial. Já em 1951 Vargas tendo sido eleito, propõe o Plano Nacional do Carvão.

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Em 1952 o atleta José Teles da Conceição ganha medalha de bronze no salto em altura nos Jogos Olímpicos de Helsinque. No ano seguinte o deputado Tenório Cavalcante, o Homem da Capa Preta, sofre atentado no Rio de Janeiro, quando uma bala chega a atravessar o seu chapéu. O ano de 1954 marca o início da derrocada de Getúlio Vargas, quando o jornal Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, publica manchete onde diz, “somos um povo honrado governado por ladrões”.

Lacerda sofre um atentado na rua Toneleros em Copacabana e diante da crise que se aproxima o deputado Afonso Arinos, da UDN, pede a renúncia de Vargas. O brigadeiro Neuro Moura deixa o Ministério da Aeronáutica, as investigações sobre o atentado a Lacerda chegam ao autor, Gregório Fortunato, guarda-costas de Vargas. O Clube da Aeronáutica agora exige a renúncia do presidente enquanto uma reunião realizada de madrugada aconselha que ele peça uma licença do cargo. Getúlio acaba se suicidando no Palácio do Catete.

O vice Café Filho assume enquanto ocorrem protestos culpando a UDN e os Estados Unidos pela morte de Vargas. No ano seguinte é inaugurada a linha aérea entre o Rio de Janeiro e Nova York e mais uma vez o luto cobre o Brasil com a morte de Carmem Miranda, a Pequena Notável. Nos próximos três anos agosto dá uma trégua e em 1960 é inaugurado no Rio de Janeiro o monumento em homenagem aos Pracinhas, os soldados brasileiros mortos na Itália durante a Segunda Guerra. Naquele ano o Brasil ganha a medalha de bronze na natação, modalidade 100 metros, por Manuel dos Santos Júnior nos Jogos Olímpicos de Roma.

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O homem da vassoura. Em 1961, o novo presidente Jânio Quadros condecora duas personalidades estrangeiras, o astronauta russo Yuri Gagarin e o líder guerrilheiro Ernesto Che Guevara enquanto é acusado por Carlos Lacerda de estar tramando um golpe. O presidente renuncia e seu vice, João Goulart se encontra na China em visita oficial. Ocorre uma greve dos ferroviários pela Campanha da Legalidade. Brizola, cunhado de Jango, diz que garante a posse do vice mesmo que seja pelas armas. Jânio vai para Londres. Ministros militares se manifestam contra a posse de Jango.

Em 1965 a Câmara dos Deputados rejeita o Estatuto da Terra, que garante direitos aos trabalhadores rurais. Dois anos depois é realizado de forma clandestina o 29º Congresso da UNE em Vinhedo, interior de São Paulo, tendo como presidente Luiz Travassos.

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A música popular brasileira toma novo rumo no ano de 1968, com a gravação do disco “Tropicália”, movimento do mesmo nome e tendo à frente Caetano Veloso. Naquele ano as polícias militar e federal reprimem uma manifestação invadindo a Universidade de Brasília quando é preso o líder estudantil Honestino Guimarães.

Em agosto de 1969 o presidente Costa e Silva é considerado incapaz de continuar no poder e assume uma junta militar. No ano seguinte, em agosto, morre um dos maiores artistas brasileiros, Oscarito, enquanto na área econômica o governo assina acordo com o Paraguai para a construção da hidrelétrica de Itaipu. Em 1971 é promulgada a Lei 5.692, da Reforma do Ensino Médio. Yara Yavelberg, companheira do líder guerrilheiro Carlos Lamarca, é morta pelas forças de repressão na Bahia.

No ano seguinte o teatro e a televisão brasileira ficam sem Sérgio Cardoso, que interpretou o português Antonio Maria, na novela do mesmo nome, da TV Tupi. Ainda naquele ano o IBGE calcula e anuncia que a população brasileira ultrapassa os 100 milhões de habitantes.

Em 1973, o jogador Tostão, anuncia que abandona os gramados, o Fluminense derrota o Flamengo por 4 a 2, sendo o campeão carioca. O cantor Geraldo Vandré, autor da música “Pra não Dizer que não Falei de Flores” e considerado o hino de resistência ao regime militar, volta o Brasil depois de vários anos no exílio. Em 1974 o Vasco vence o Cruzeiro por 2 a 1 e se consagra como o primeiro time carioca campeão brasileiro. O governo brasileiro estabelece relações diplomáticas com a China enquanto na música, morre o compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues. Já em 1975 o presidente Ernesto Geisel indica o piauiense Francelino Pereira como presidente da ARENA. O Fluminense perde para o Botafogo por 1 a 0, mas é o campeão carioca.

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Esquenta o clima da ditadura. O clima político esquenta em 1976 com vários atentados entre eles o ocorrido na Associação Brasileira de Imprensa e o da Ordem dos Advogados do Brasil, assumidos pela Aliança Anticomunista Brasileira, a AAB. Ainda em agosto morre em acidente automobilístico entre na Rodovia Presidente Dutra, o ex-presidente Juscelino Kubitschek. Na cultura, em 1977, a escritora cearense Raquel de Queirós é empossada como a primeira mulher na Academia Brasileira de Letras. No ano seguinte morre o “cantor das multidões”, Orlando Silva e o Guarani vence o Palmeiras por 1 a 0 sendo o campeão brasileiro. Em São Paulo ocorrem manifestações contra a carestia.

Em 1979 Mario Henrique Simonsen renuncia da pasta do Ministério do Planejamento sendo substituído pelo paulista Delfim Neto. O presidente Figueiredo sanciona a Lei de Anistia. Em 1980 Belo em Horizonte ocorrem manifestações contra o espancamento de mulheres pelos maridos. Novamente a OAB é alvo de bombas. Neste atentado morre a secretária da entidade, Lyda |Monteiro da Silva.

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Outra bomba explodiu no gabinete do vereador carioca Carlos de Carvalho. No ano seguinte diante da crise do regime, o general Golbery do Couto e Silva deixa a Casa Civil enquanto no ABC Paulista ocorreram manifestações violentas por causa das demissões na indústria automobilística. O vôlei brasileiro ganha a medalha de ouro no Sul Americano e morre o cineasta Glauber Rocha, criador do Cinema Novo.

Em 1983 o Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do grupo Coroa Brastel composto por dez empresas. Em São Paulo se realiza o congresso de fundação da Central Única dos Trabalhadores, CUT. No ano seguinte o presidente Figueiredo é internado para tratamento da coluna cerebral enquanto Joaquim Cruz conquista para o Brasil a medalha de ouro nas Olimpíadas de Los Angeles. Na política, Paulo Maluf anuncia sua candidatura à presidência concorrendo com Tancredo Neves. Em 1986 o Flamengo vence o Vasco por 2 a 0 e se torna campeão carioca. A Volks anuncia o fim da produção do Fusca, o carro mais popular do Brasil de todos os tempos.

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No dia 2 de agosto de 1987 o Partido dos Trabalhadores lança seu candidato à presidência, Luiz Inácio Lula da Silva e quinze dias depois morre o poeta Carlos Drummond de Andrade. O basquete brasileiro vence no dia 23 a seleção dos Estados Unidos por 120 a 115 no Pan-Americano de Indianápolis.

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Morre em confronto com a polícia o ator Fernando Ramos da Silva, que interpretou no cinema o bandido Pixote. Em 1988 o Brasil ficava chocado com a morte da nadadora Renata Agondi, quando tentava atravessar o Canal da Mancha. No ano seguinte e fechando a década morrem os cantores e compositores Luiz Gonzaga, o rei do Baião e Raul Seixas.

Abrindo a década de 1990 em agosto o Brasil fica sem a inteligência de Victor Civita, fundador da Editora Abril e do jurista Afonso Arinos. Minado por sucessivos escândalos o governo de Collor de Melo sofria mais um baque: a primeira dama Rosane Collor deixa a presidência da LBA após uma série de denúncias de irregularidades. O Brasil andava bem no esporte em 1992.

Rogério Sampaio conquista a medalha de ouro no judô, categoria meio-leve nas Olimpíadas de Barcelona, o vôlei conquista medalha de ouro, mas dentro de casa a situação política se agrava. Milhares de manifestantes vestidos de preto saem às ruas contra Collor, o presidente da ABI, Associação Brasileira de Imprensa, Barbosa Lima Sobrinho é escolhido para pedir seu impeachment, um relatório da CPI incrimina o presidente da República e as fábricas liberam seus trabalhadores para aderir ao protesto nacional.

Estão matando os índios. O agosto de 1993 foi dramático. Os ianomâmis denunciam chacina de 17 índios em Roraima e no dia 30 ocorre um massacre no centro do Rio de Janeiro. Depois da morte de quatro policiais militares numa emboscada, homens encapuzados invadem a favela de Vigário Geral e matam vinte trabalhadores e uma estudante, ferindo outras três pessoas. A imagem dos corpos causou comoção e revolta em todo o mundo. No ano seguinte o Brasil perde dois artistas geniais, o pintor Iberê Camargo e o cantor e compositor Tonico, da dupla Tonico e Tinoco. Em 1995 morre o sociólogo Florestan Fernandes.

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Agosto de 1996 mostrou bons resultados no esporte. Encerrados os Jogos Olímpicos de Atlanta o Brasil aparecia com as mãos cheias de medalhas. São três de ouro, três de prata e nove de bronze. Mas na política ocorre um incidente: as FARC, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia seqüestram os Demétrio Duarte e Eduardo Resende. Em 1997 morre o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que defendia um grande movimento de combate à fome. O Cruzeiro vence o Sporting Cristal, do Peru por 1 a 0 e é campeão da Taça Libertadores da América.

Em 1998 a morte de nove mulheres em São Paulo deixa a polícia intrigada. As investigações acabam chegando ao motoboy Francisco de Assis Pereira, que confessa os crimes, ficando conhecido como “o maníaco do parque”. O Tribunal Superior eleitoral nega pedido de registro de candidatura de Fernando Collor à presidência. O poeta e compositor Vinícius de Moraes tem seus direitos políticos recuperados depois de ser afastado da carreira diplomática em 1969 pelo AI-5.

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O ator Gerson Brenner leva um tiro na cabeça durante assalto na Via Dutra e fica tetraplégico. Em 1999 agosto reserva mais tristezas que alegrias. Morrem o cantor e compositor Carlos Cachaça e o arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Câmara, idealizador da CNBB. O vôlei feminino derrota Cuba depois de quase trinta anos. Em 16 de agosto de 2000 ladrões seqüestram um avião da Vasp.

Antonio de Pádua Marques Silva, cadeira 24 da APAL. 

 * Matéria da revista Histórica, do IHGGP para a edição de 2010 e que não chegou a ser publicada.