DOM PEDRO E SÃO FÉLIX DO ARAGUAIA

4177234

DOM PEDRO E SÃO FÉLIX DO ARAGUAIA

Elmar Carvalho

Retornando a Teresina, levo na bagagem vários livros, que o meu cunhado Beré trouxe de São Félix do Araguaia, enviados por Lozinha e Nilva, irmã e sobrinha de minha mulher respectivamente. A segunda é a atual vice-prefeita do município. Os livros são Cartas Marcadas, de D. Pedro Casaldáliga, Sertão de Fogo, de Adauta Luz Batista, e Meu Araguaia Querido, de Erotildes da Silva Milhomem.

Dom Pedro era admirado pelos componentes do grupo do jornal Inovação, de que fiz parte, pelas suas posições, por seus questionamentos políticos, por sua luta por uma sociedade mais justa e mais fraterna, e pela opção preferencial pelos pobres. Nasceu na Espanha e é bispo da diocese de São Félix desde 1971. É ainda poeta e escritor. De Cartas Marcadas disse Dom Demétrio Valentini, na apresentação: “Apresentam-se como ‘cartas marcadas’, pois decorrem de um claro compromisso de pastor, que extravasa em sua linguagem de poeta sua lúcida visão da realidade e sua decidida opção pela causa do povo”.

Esses jovens do Inovação sonhavam com a vinda para a diocese de Parnaíba de um bispo engajado nas lutas sociais e que promovesse o avanço das comunidades eclesiais de base, o que terminou não acontecendo durante o tempo em que o jornal circulou. Por isso mesmo, o jornal fez uma entrevista com um padre que aparentava ter ideias avançadas, e o religioso se mostrou firme e contundente na entrevista. Contudo, quando esta foi publicada, parece que o clérigo recebeu uma reprimenda do bispo parnaibano, porque tentou desdizer algumas frases da entrevista, quando na verdade tudo estava documentado na fita magnética, sem que tenha havido erro na transcrição. Dom Hélder Câmara era outro bispo que admirávamos, tanto por sua posição política, como por sua coerência e modo de vida.

É considerado um dos primeiros habitantes e um dos fundadores de São Félix do Araguaia Severiano Neves, irmão do pai de Fátima, minha mulher. Quando a cidade não existia, ele montou sua residência na localidade, e depois empreendeu uma viagem ao Piauí à procura de novos habitantes, dando início ao povoamento do lugar.

Colho na internet, na Wikipédia, a seguinte informação: “Em 23 de maio de 1941, desembarcava no rio Araguaia, em território mato-grossense, a família de Severiano Neves, acompanhada de outras famílias provenientes do estado do Pará, em busca de um futuro melhor. Iniciando-se assim um novo povoado, próximo a santa Izabel do Morro, antiga morada dos índios Carajás, habitantes milenares do rio Araguaia e da Ilha do Bananal. A denominação de São Félix foi dada pelo Bispo D. Sebastião Thomaz Câmara no dia 20 de novembro de 1942.”

Quando a localidade passou a município, foi Severiano Neves o seu primeiro prefeito. Segundo informação de minha mulher, ele nasceu em Buriti dos Lopes – PI, no povoado Várzea do Simão, filho de Simão Pedro e Firmina.

17 de fevereiro de 2010

Anúncios

Cambota e Fogoió, os dois meninos.

 

trump2

Por  *Pádua Marques. 

Eles foram o terror do bairro onde moravam quando crianças e já engrossando o talo da pinta continuaram dando trabalho a todo mundo e vergonha aos pais. Nessa época de São João, naquele tempo, eles se danavam a correr numa venda pra comprar toda sorte de fogos, desde os inocentes peidos de velha às terríveis e poderosas bombas de quinhentos, capazes de levantar por mais de vinte metros uma lata de querosene.

Cambota foi criado cheio de vontades pelo pai porque nem a mãe aguentou as peraltices dele. Filho único de um quitandeiro, se esteve algum dia à escola foi somente pra bater nos outros e no segundo dia de aula ser expulso. O pai achava de dizer que ninguém precisava estudar pra ganhar dinheiro. Ele mesmo tinha tudo e nunca passou um dia sequer sentado em banco de escola. Tinha dinheiro na burra e muitos burros lhe obedecendo.

O menino se criou sozinho feito bicho bruto, batendo e apanhando na rua e quando era contrariado se armava de um caco de vidro e corria a rua pra tomar satisfações com o desafeto. Nesse período de festas juninas ia ele direto na gaveta da quitanda, tirava o apurado e ia até a esquina comprar traques e bombas. Negócio dele era bomba, daquelas mais potentes e que incomodavam a vizinhança. Noite toda.

trump3

Era um menino feio, baixo, gordo, cambota, cabelo raspado, calção imundo, fedendo a pena de galinha molhada. Mesmo tendo todos esses defeitos não era desrespeitoso com os mais velhos. Algum adulto ralhasse com ele, metia o rabo entre as pernas e procurava o caminho de casa.

Agora Fogoió não. Fogoió Azedo como outros e muitos o chamavam pelas costas. Também foi um menino criado por uma mãe e um pai que faziam tudo aquilo que ele queria. Os vizinhos, quando ele era ainda criança, passaram poucas e boas com as travessuras dele. Assim como Cambota, nessa época de São João, transformava a vida do bairro onde morava num inferno.

Toda a cidade temia pelo que poderia acontecer quando aqueles dois maus elementos um dia se encontrassem. Aí o diabo iria sair da garrafa por cima ou por baixo. E este dia aconteceu num dia de junho. Colocaram o mundo de cabeça pra baixo e tocaram fogo. Amarraram traques em rabo de cachorros, soltaram bombas debaixo de latas e dentro de garrafas e explodiram até o muro da igreja. Coisa pouca pra eles.

Este Fogoió Azedo, nunca foi cria de gente. Criado sim à imagem e semelhança do cão. Quando adulto se transformou num grande negociante, cheio de enrolada, venda de tudo em quanto achasse pela frente. Vendia e trocava de tudo, desde geladeira velha, bateria de carros, pneus, móveis antigos, moedas, terrenos, material de construção, vergalhão, madeira e se bestasse, até arma de fogo, tudo. Esta semana passada eu vi dois sujeitos parecidos se cumprimentando na televisão, Trump e Kin-Jong Un. Meteu medo. * Pádua Marques, ocupa a cadeira 24 da Academia Parnaibana de Letras.

Escritores organizam coletânea Piauí em Letras para lançamento em julho.

adrião

 

Marcado para o dia 13 de julho na Livraria Anchieta, zona leste de Teresina, o lançamento da coletânea poética Piauí em Letras, trabalho organizado por um grupo de dezoito escritores de várias regiões do estado e coordenado pelo professor Luís Romero. Eles tiveram como ponto de partida o site Recanto das Letras.

No inicio deste mês sete autores estiveram reunidos no Espaço Cultural Rosa dos Ventos, da UFPI, para uma conversa cultural. Carvalho Neto, Lena Lustosa, Adrião Neto, Samuel Nascimento, Eva Graça, Christian Messias e Amanda Gomes, traçaram as perspectivas para o futuro do grupo de escritores. Fonte: APM Notícias. Foto:chavalzada. Edição: APM Notícias.

Comissão da APAL discute nova edição do Almanaque da Parnaíba.

 

ama2

 

Reunida no final da tarde desta terça-feira na Casa de Simplício Dias, a comissão editorial da Academia Parnaibana de Letras tratou sobre a data, colaborações e custos da próxima edição do Almanaque da Parnaíba. A edição deste ano de 2018 é a septuagésima primeira e tem como coordenadora a escritora e acadêmica Dilma Ponte de Brito.

Vários assuntos como a capa da revista, contribuições de acadêmicos e colaboradores, data de lançamento, ente outros, foram tratados entre os acadêmicos José Luiz de Carvalho, Dilma Ponte de Brito, Wilton de Magalhães Porto, Antonio Gallas Pimentel e Antonio de Pádua Marques Silva.

Entre as sugestões de homenagens foi lembrado o centenário de nascimento de Alberto Silva, nascido em 10 de novembro de 1918 em Parnaíba. Na Academia Parnaibana de Letras foi o primeiro ocupante da cadeira 09 que tem como patrono R. Petit. Seu sucessor é o advogado, jornalista e professor José de Nicodemos Alves Ramos. Foto: APL.

Parceria Cultura e Academia de Letras pode reativar SALIPA e Salão de Humor.

albert1

 

O presidente da Academia Parnaibana de Letras, José Luiz de Carvalho, anunciou nesta segunda-feira (11) encontro que teve com o superintendente de Cultura de Parnaíba, Albert Piauí, quando foi tratada a possibilidade de um convênio entre as duas entidades para a realização de vários eventos.

Carvalho destacou que o superintendente demonstrou que tem interesse de que a Academia Parnaibana de Letras assuma a coordenação do Salão do Livro de Parnaíba, o SALIPA, evento idealizado para dar destaque aos escritores da região, vender livros e criar uma interação com a classe estudantil, mas que não teve continuidade.

Nesta segunda-feira o presidente esteve reunido com Kenard Kruel, assessor do superintendente de Cultura, quando foram tratados esses e outros assuntos como a reativação do Salão Internacional do Humor. Este evento também ficaria sob a coordenação da Academia Parnaibana de Letras. Fonte: APAL. Fotos: Supcom. APAL/SupCom.

 

MOÇA APAIXONADA

   Benedito Lima (*)

                         Adoro chocolate! No aeroporto de Brasília, antes da reforma, havia na praça de alimentação uma loja de chocolate maravilhosa. Todas as vezes que passava por Brasília, ia lá tomar chocolate quente e comprar chocolate com menta, com pimenta e com hortelãs.

                        Era figurinha carimbada. A atendente já me conhecia e sabia de cor as qualidades e as quantidades que eu queria. A loja tinha uma característica que a diferenciava das demais: não possuía cadeiras, talvez por que os fregueses ficavam pouco tempo.

                        Certa vez vindo de Marabá, fiz conexão em Brasília, quase sem tempo de pegar o outro voo. Apesar disso e das dificuldades de deslocamento no aeroporto, apressei o passo e fui até a loja.

                        Ao chegar, verifiquei que a atendente não era a mesma. A nova era linda, tinha dentes brancos que realçavam seu sorriso. Os olhos verdes, a pele morena e o nariz pequeno combinando com o seu rosto oval.

                        Pedi um chocolate quente e que pesasse 200 gramas de chocolate com menta e 150 com pimenta. Nesse momento vi que haviam adquirido uma cadeira de inox. Puxei-a de lado e me sentei.

                        Em poucos segundos, percebi que a moça me observava. A princípio não dei muita importância, mas o tempo passava e ela não tirava os olhos de mim. Eu não entendia como uma moça tão jovem e bonita pudesse estar interessada em um velho. O ego inflou e passei a olhá-la. Senti sua indecisão e para incentivá-la dei um sorriso.

                        De repente a inércia foi rompida, ela parou de pesar o chocolate, caminhou em minha direção, chegou bem próximo de mim e sem tirar os olhos dos meus, falou com voz delicada: o Sr. poderia fazer a gentileza de se levantar da lixeira?

                        Ao me levantar, verifiquei que a lixeira estava toda amassada. Pedi desculpas, paguei a conta e passei um tempão sem tomar chocolate quente e sem levar pra casa chocolate com menta, com pimenta e com hortelãs.

                        (*) Benedito Lima é poeta, escritor, graduado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal de Minas Gerais e bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Piauí com especialização em Engenharia de Segurança do Trabalho pela Universidade Federal Fluminense e com mestrado em Ergonomia pela Universidade Federal de Santa Catarina. É auditor Fiscal do Ministério do Trabalho e exerce aa função de coordenador de um dos Grupos Especiais  de Fiscalização Móvel do MT que busca erradicar o trabalho escravo ainda existente em nosso país.

                          Publicou dois livros técnicos: Erva mate: erva que escraviza e  Degradância Decodificada – e o papel do Estado na sua gênese (em parceria com Renato de Mello). Brevemente estará lançando em Parnaíba um livro de poesias de sua autoria intitulado POESIAS REFLETIDAS.  

Postado em 10/06/2018 no Blog do professor gallas

 

Vida de cão.

 

operacao muralha em parnaiba

* Pádua Marques.

 

Nessa semana que está acabando houve uma operação policial em dois bairros de Parnaíba. Operação pesada da Polícia Federal e da militar para desarticular bocas de fumo. Estes dois bairros tem histórico de violentos e de acoitar entre os bons moradores alguns traficantes de drogas, ladrões de celular, motocicletas, supermercados, velhinhos aposentados e outras coisas mais.

Acompanhei pelos blogs e portais o desdobramento da operação. Me chamou a atenção nas fotos ilustrativas, no meio daquele furdunço todo e correria pra tudo quanto era lado, a figura de um cachorro negro. Nas duas fotos ele está ali deitado, na dele, perto de uma viatura assim como quem não tem nada a ver com a história e está ali apenas pra depois entre os vizinhos assustados ficar abanando o rabo e ouvindo conversa.

Agora imagine a vida dessas pessoas, trabalhadores, donas de casa, crianças e velhos convivendo todo dia, semana após semana, meses e anos com esta escalada de violência em que se transformou viver na periferia. O cão estava ali quieto perto da viatura sem a menor vontade de latir ou de se admirar com a operação que já se tornou rotina entre aquela gente.

Talvez fosse ele até um olheiro dos traficantes, um cão de guarda que, ao menor sinal de perigo pra seus patrões, agora estivesse silencioso pra não levantar suspeitas das atividades de seus donos. Certamente deve ser um cão fiel, assim como são outros cães de porta de rua e de fundo de quintal. Desses que apenas e ao menor sinal de perigo se danam a latir e alarmar com a presença de estranhos.

Estava ali na dele, deitado na areia fofa da rua sem calçamento, longe de tudo o que é movimento mais urbano. Certamente que, pela condição de guarda de alguma boca de fumo ganha, quando muito, algum osso carnudo, um resto de comida da mesa ou na pior das hipóteses, quando cria confusão com seus pariceiros, leva uma pedrada certeira de alguém incomodado com sua insolência.

operacaomuralha1

Vida de cão de boca de fumo não deve ser nada fácil. Vive sob a constante inquietação. Ao menor sinal da sirene de uma viatura ou mesmo de um carro estranho cheio de policiais armados até os dentes, se põe a latir feito doido. É o momento dos patrões fugirem pela porta dos fundos e, saltando os quintais com o produto do roubo ou do tráfico de drogas vão se esconder mais lá na frente.

Agora a gente se põe a imaginar o que seja a vida de milhares de pessoas convivendo com vizinhos tão importantes pra polícia. Qual a expectativa de sociedade, de paz e de trabalho honesto dessas pessoas? Vivem sob uma constante inquietação, um inferno. Não deve ser nada tranquilo viver num bairro desses. Não é apenas aqui na Parnaíba não. É em tudo em quanto é cidade grande.

Aquele cão negro nunca vai levantar suspeitas pra policia. Nunca vai sair da rua algemado e dentro de um camburão pra depor e ser preso na Central de Flagrantes, julgado e condenado dormir fazendo companhia a seus patrões na penitenciária. Aquele cão nunca vai ser incomodado. Sua fidelidade está comprovada e tão logo aquela confusão toda acabe, volta pro canto da cerca e vai tirar um sono, que ele não é besta.

pensador1* Pádua Marques, jornalista e escritor, membro da Academia Parnaibana de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba.