TRIBUTO A DOIS AMIGOS

 

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TRIBUTO A DOIS AMIGOS

Elmar Carvalho

Estive hoje no escritório de contabilidade de meu amigo Carlos Cardoso. Conheço-o desde a nossa adolescência. Quando o conheci, no início da década de 70, ele era vizinho de seu primo, o Otaviano, meu amigo e colega de turma no velho Colégio Estadual, quando fazíamos o terceiro ano do antigo ginásio. Moravam perto do Centro Operário de Campo Maior.

O Otaviano era nosso líder no futebol. Foi ele quem nos iniciou na prática do esporte de arremesso de copo, por outros chamado de libações etílicas. Passados tantos anos, lembro vagamente que foi numa noite, por ocasião dos festejos de Santo Antônio do Surubim, numa mercearia, salvo engano, da chamada rua da pista. Foram umas largas talagadas de Ron Montilla.

O Carlos engasgou-se com uma dose, e o Otaviano passou-lhe umas duras reprimendas. Mais adiante, já no centro da cidade, ri não sei por que motivo ou mesmo talvez sem motivo; ele aborreceu-se, naturalmente achando que aquilo era uma “mancada”, o que denotaria a ingestão de álcool. Pouco tempo depois, o Carlos, seus irmãos e seus pais foram embora para Fortaleza, e o perdi de vista por algumas décadas.

Quando vim assumir meu cargo de fiscal da extinta SUNAB, em agosto de 1982, voltei a encontrá-lo. Amigo fraterno, convidou-me para morar em sua república, na avenida Jockey Club, em Teresina. Não era uma república de estudantes, onde imperasse a bagunça e a baderna; ao contrário, ali havia ordem e organização, com divisão de responsabilidades administrativas, financeiras e de tarefas. Moravam com ele dois administradores postais da ECT, o Humberto Nadal, paranaense, e o Robério, cearense, hoje juiz do Trabalho. Depois o Carlos deixou a república, em virtude do casamento, e eu nela continuei por mais alguns anos, até perto de meu casamento em  meado de 1985.

Ingressei na maçonaria a convite do Carlos e de seu irmão sanguíneo, Zé Ataíde, que também conhecia há muitos anos. Posteriormente, nós três e mais um punhado de irmãos valorosos fundamos a Loja Hiram Abib nº 3069, filiada ao Grande Oriente do Brasil – PI, da qual o Carlos foi o primeiro venerável. Meses atrás o Carlos nos pregou um grande susto, quando, perto de um infarto, foi submetido a intervenção cirúrgica, e teve que receber três pontes de safena e uma mamária, em virtude de herança genética, segundo o histórico familiar.

O Otaviano não deixou por menos, e, ao telefone, passou-lhe outra dura repreensão, e disse-lhe que não admitia que, na qualidade de primo e amigo mais velho, o Carlos lhe tomasse a dianteira, e construísse três pontes de safena e uma mamária antes dele; aquilo não estava certo e era uma tremenda injustiça que o primo mais moço lhe fazia.

Nesse ponto, devo esclarecer que a alegada diferença de idade é de apenas um ano. Contudo, dias depois voltou a ligar, e disse que já estava reconciliado com ele, pois adquirira uma hipertensão arterial, e pelo menos nisso o Carlos não lhe levara a palma e nem os louros da vitória.

Claro, tudo isso era uma brincadeira do imperador Otaviano, e uma maneira peculiar, toda sua, de animar e alegrar o primo e amigo. O certo é que, benza-o Deus, o Carlos está muito bem, e a “indesejada das gentes”, no dizer do poeta Manuel Bandeira, terá que bater em outra porta.

31 de março de 2010

(*) Por coincidência, se é que existe coincidência e acaso, encontrei ontem (17/10/19), na loja J. Monte, o José Francisco Pinto, que procurava reencontrar há alguns meses, sem êxito. Conversamos sobre o Otaviano Furtado do Vale, nosso amigo comum. Quando fui republicar hoje a sequência de meu Diário Incontínuo, o texto da vez era este, em que evoco o saudoso amigo Otaviano e o seu primo Carlos Cardoso. Ao conversar agora com sua irmã Cristina do Vale e Silva, soube que ontem era o dia do seu aniversário, posto que ele nasceu em 17 de outubro de 1956, mesmo ano em que nasci. E no próximo mês de novembro, no dia 19, será o sexto ano de seu falecimento, uma vez que sua morte precoce aconteceu em 2013, no mesmo ano em que tive várias perdas, inclusive a de minha inesquecível mãe, Rosália Maria de Mélo Carvalho.

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Segredos que se transformam em cinzas.

 

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 *Pádua Marques

Elias tomou primeiro a lamparina e foi direto ao canto da casa. Entre a parede dos fundos da igreja, dando pra o quintal, mandou Mata Pombo cavar um buraco de boa fundura pra depois ir buscar lá dentro, enrolada num pano velho, a pequena caixa de madeira escura com os documentos mais valiosos que seus olhos tiveram de ver e sua única mão já de um dia pegar.

Além de peças pequenas, objetos e sem importância, algumas cartas trocadas com políticos e com o imperador dom Pedro I, recibos de compras de escravos vindos da Bahia e do Maranhão e de mercadorias de seu senhor Simplício Dias da Silva com outros comerciantes.

Quando ainda estava bom do juízo e podendo falar, um dia de 1827, o coronel e governador da vila da Parnaíba chamou Elias e depois de reler todos os documentos ordenou que desse fim naqueles papéis. Simplício Dias deu a entender ao escravo de confiança que, se vistos por alguém de fora de casa depois que ele fechasse os olhos, em muito haveria de dar confusão e desgraça no meio de sua família e nos políticos que se tornaram seus inimigos. Que tocasse fogo nos papéis. E nos objetos, enterrasse em lugar que ninguém pudesse nunca encontrar.

E à medida que mostrava este ou aquele documento pra Elias, Simplício Dias da Silva ia dizendo do que se tratava. Este, uma carta ao imperador dom Pedro I em que ousava pedir ressarcimento por ter fornecido cento e cinquenta arrobas de algodão em fardos, dez arrobas de carne de charque e dez escravos tirados da propriedade da Barra do Longá pra os serviços das tropas brasileiras na Guerra da Cisplatina.

Noutro documento, de novembro de 1802, um recibo de compra de trinta escravos, trazidos da praça de Salvador, na Bahia. Carta ao visconde da Parnaíba, Manuel de Souza Martins, em que se sentia incomodado com os insultos recebidos por parte de gente do juiz de paz João Cândido de Deus e Silva, por não ter aceitado ser governador da província do Piauí. Mais um recibo de compra de terras na região do Pirangi e dentro da carta um curioso caroço de amendoim.

Logo em seguida mostrou pra o escravo e confidente aquela carta que seria o mais importante dos documentos e ao mesmo tempo aquele que lhe trouxe mais contrariedade na vila da Parnaíba e na província do Piauí. Carta em que dom Pedro numa caligrafia bem cuidada lhe agradece pelo apoio à causa da independência e oferece o cargo de governador.

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Simplício Dias lia e relia acentuando trechos da carta imperial de 25 de novembro de 1823 onde constava a consideração aos distintos merecimentos, patriotismo e adesão à sagrada causa do império e mais qualidades recomendáveis. O resto da conversa até Elias havia de lembrar de có e salteado no que deu.

Num papel já amarelado mais que todos os outros, datado de 1814, o pedido pra que o governador da capitania do Piauí, Baltazar de Sousa Botelho de Vasconcelos se empenhasse em transferir a capital pra vila da Parnaíba, mas receoso de que o povo e as câmaras fizessem oposição. Elias estava atento a tudo que dizia Simplício Dias da Silva e vez por outra dava sinal com a cabeça de que estava entendendo tudo. Outra carta em que manda ao chefe de milícia, uma apuração mais rigorosa sobre o assassinato de seu irmão Raimundo em 1812, inclusive recomendando caso fosse necessário, usar de pulso forte. Esse pulso forte significava violência.

Simplício Dias mandou que Elias providenciasse a destruição daqueles documentos e se necessário fosse com a ajuda de outras pessoas, não deixasse testemunhas. E essa outra pessoa apareceu. Mata Pombo, um negro sem dono, de uns vinte e cinco anos de idade, meio maluco e que vivia perambulando entre a rua Grande, o porto e o largo da igreja dos pretos. Este seria fácil de, terminado o serviço, dar fim nele. Mas os documentos continuavam a serem mostrados. Agora eram alguns sobre a posse por ele e os de sua família, da Ilha Grande de Santa Isabel.

Quando ia mostrando estes documentos, o coronel pouco falava. Este silêncio de vez em quando era de propósito. Alguns ele passava por cima. Elias pela condição de inferior, de servo, não ousaria perguntar e ele não tinha interesse em dar maiores explicações sobre certas passagens e decisões. Dentro da caixa ainda estavam, uma pequena imagem de madeira de Nossa Senhora do Carmo, cinco contas de vidro de um terço, provavelmente de sua mulher Isabel Tomásia, duas penas de periquito ou papagaio, um botão de camisa, um bico de pena de escrever.

Documentos datados de janeiro de 1824 em que o coronel Antonio José Henriques dava como recebidas, peças, petrechos e munições de guerra, tirados de Parnaíba por Fidié e as peças de prata e alfaias da igreja de Nossa Senhora da Graça. Simplício estava perdendo o gosto pela luta.

Estava presente em sua voz agora mais baixa e nos gestos. Elias via o senhor indo embora pra morte e procurava tirar da cabeça este lado ruim da realidade. Seus negócios iam dando sinal de queda e outros comerciantes estavam roendo as unhas e somente esperando a sua morte pra avançarem nas suas terras.

Elias fez trato com Mata Pombo pra que numa hora qualquer da noite viesse com ele fazer um serviço na casa do coronel Simplício Dias da Silva e pelo que iria ganhar uns tostões. O negro veio e entrou sem ser visto por um portão de madeira, do lado entre a igreja e a esquina e foi ao encontro do outro e os dois juntos pegaram a caixa e a lamparina.

Iriam testemunhar o sepultamento e a destruição de muitos documentos que o coronel ficaria devendo à história da Parnaíba. Com o buraco cavado nos fundos do quintal os objetos seriam enterrados. Era ordem de Simplício Dias. Mata Pombo depois fez o pelo sinal da cruz umas três vezes. Nem adivinhava que iria morrer.

Agora era a vez de queimar os documentos. Mata Pombo jogou um pouco de azeite em cima dos papéis e chegou a chama da lamparina na ponta de uma das cartas. Elias assoprou e assoprou até que tudo foi pegando fogo. Veio na direção dos dois escravos um cheiro forte de papel velho queimado. Lá de cima do andar do meio da casa de Simplício, uma pessoa pigarreou dando sinal de que alguém estava acordado. Decerto que não era dona Isabel Tomásia, mas o marido e mandante do serviço.

O fogo demorou a tomar conta de tudo. Foi preciso que os dois negros ficassem assoprando pra que finalmente dado um tempo, as labaredas baixas consumissem os documentos. Mas sobraram algumas pontas de papel e essas pontas foram se juntar à areia do quintal. Agora eram os poucos objetos sem importância que ganhavam destino.

A imagem da santa, que Mata Pombo quis ficar pra ele, mas Elias não permitiu. Depois as contas de terço, a pena de escrever, as duas penas da ave. Sem qualquer cuidado foram um a um sendo jogados dentro do buraco. Tudo terminado, Elias e Mata Pombo estavam cansados e suados pelo serviço.

Foram depois pra os lados do cais do Porto Salgado atrás de alguma venda onde pudessem beber alguma coisa. Eram altas horas, mas o propósito de Elias de não deixar testemunhas estava prestes a ser cumprido. Acharam mais lá embaixo, já dentro de umas casas no Cheira Mijo, uma venda aberta. Elias ficou atrás e deu dinheiro pra Mata Pombo comprar aguardente.

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Mandou o outro porque não poderia ser visto por qualquer um na rua e fora dos domínios de Simplício Dias numa hora daquelas e na companhia daquele que estava marcado pra morrer. De madrugada Elias voltou pra casa de Simplício Dias da Silva. E na ponta do pé foi entrando pelo mesmo portão dos fundos. No quintal, foi até o poço, tomou um banho demorado e depois foi até o quarto onde dormia, trocou a roupa suja de sangue por uma mais limpa.

Naquele sábado quando era baixo o movimento da rua Grande pra baixo no Porto Salgado, todo mundo ficou sabendo que um negro vadio, sem dono e apenas conhecido pelo nome Mata Pombo havia sido encontrado morto a facadas. Decerto que pelas características do crime, um golpe certeiro na garganta, foi briga entre ele e algum marinheiro disputando a rede de mulher da vida ou disputa de jogo de azar. Mesmo sem ter dormido muito e ainda cansado pelo serviço da noite passada, Elias estava aliviado. Tudo aquilo que lhe fora ordenado por Simplício Dias da Silva havia sido cumprido, queimado e enterrado.

*Pádua Marques, cadeira 24 da Academia Parnaibana de Letras.

 

 

O sumiço das galinhas.

 

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*Pádua Marques.

Foi ficar sabendo que seu compadre e amigo de lutas políticas no Piauí, Simplício Dias da Silva, governador da vila da Parnaíba, estava muito doente, sem força nas pernas, tísico e até já com dificuldade de falar alguma coisa, que Benevides do Prado, negociante de Chaval, no Ceará, mandou selar um cavalo e sem piscar os olhos ordenou que Romeu, seu escravo de confiança, corresse no terreiro da fazenda e trouxesse na sua presença umas cabeças de galinhas. Era pra o coronel tomar uns caldos e quem sabe recuperar as forças.

A viagem de Romeu foi sofrida por aqueles matos secos do início de setembro e saindo de madrugada na direção da vila da Parnaíba. Em cima do cavalo levava umas dez cabeças de frangas de primeira pena, ainda não cobertas por galo, canelas limpas, de crista miúda. Aves de dar gosto até de vender num mercado. As melhores que pode tirar da imensa criação de Benevides do Prado no distante Chaval. No romper da manhã Romeu chegou ao largo da casa de morada de Simplício Dias da Silva e, com medo de causar perturbação, achou de esperar de longe.

Romeu, negro de seus quarenta anos, trazia no alforje uma carta de Benevides do Prado em que o cearense desejava ao coronel no Piauí pronto restabelecimento da saúde e falava da carga de galinhas pra o compadre se alimentar. Recomendava que as franguinhas servissem pra canjas nos finais de tarde e até que se assim desejasse, antes de dormir, pra não darem empanzinamento. Era presente seu e se assim desejasse mais, era só ordenar. E foi o escravo ficar esperando um tempo longo alguém sair da casa de Simplício Dias da Silva que fez com que tomasse uma decisão.

Tomou o rumo do porto Salgado lá embaixo e por lá foi visto com o cavalo e as franguinhas por uns marinheiros do navio Princesa de Belém. Viram as aves e acharam de perguntar ao negro de quem eram e se estavam à venda. Se vendesse as galinhas eram pra servirem de refeição a bordo ainda naquela manhã de quarta-feira! Romeu ficou coçando a cabeça por uns instantes e esfregando as mãos e metendo no alforje se lembrou da carta de Benevides do Prado. De baixo onde estava respondeu que a carga era presente de seu dono pra o coronel Simplício Dias da Silva.

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Os marinheiros não perderam tempo de dizer que do jeito que Simplício Dias estava, mais morto do que vivo, não iria sentir falta e nem ninguém iria dar conhecimento de que umas dez galinhas novas, vindas do terreiro de Benevides do Prado, em Chaval, iriam fazer falta. Que vendesse, pegasse aquele bom dinheiro e fizesse uso nas lojas e armazéns da Parnaíba. Seria dinheiro suficiente até pra que fosse gastar com mulheres e bebidas nos Tucuns ou na Coroa. Romeu alegou que havia uma carta do seu senhor pra o coronel dando ciência da carga e desejando pronto restabelecimento.

De novo os marinheiros acharam de meter na cabeça do negro Romeu que desse um fim na carta. Simplício nem iria fazer questão de saber. Ficaram jogando preços nas galinhas como se estivessem num leilão. A aposta já alcançava uma boa soma e sempre coberta por um marinheiro mais afoito. E naquela disputa foram indo, foram indo, foram indo e o negro fazendo bossa e criando e encompridando conversa por conta de sua condição e fidelidade. Vai que alguém reconhece e depois fica sabendo do que veio fazer na vila da Parnaíba? O sol já estava alto quando finalmente Romeu aceitou vender as dez franguinhas, presente de Benevides do Prado, do Chaval, pra Simplício Dias da Silva, na vila da Parnaíba.

Romeu aceitou uns dez tostões pelas dez franguinhas. O marinheiro desceu da embarcação e veio fechar o negócio. Uma a uma as dez moedas foram caindo na mão grosseira. O negro, que nunca havia pegado em dinheiro, estava satisfeito. E não é que tinha jeito pra negociante? Pegou as moedas e enfiou no bolso da calça. Ainda meio afobado e incentivado pelo comprador das galinhas, abriu o alforje, retirou a carta e dando mais uns passos rasgou e jogou os pedaços dentro do rio Igaraçu.

Depois, puxando o cavalo pelo cabresto tomou o rumo da ribanceira e se perdeu no meio de toda aquela gente do porto Salgado entre os armazéns, as lojas, as negras vendedoras de frutas e verduras e os negros carregadores de água pra beber e tomar banho, nas primeiras horas da manhã. Quando voltasse pra Chaval, daqui a mais um dia, se voltasse, iria dizer que Simplício Dias da Silva, dado o estado em que se encontrava, nem fizera mais questão de receber presentes. E sua mulher, dona Isabel Tomásia, que não sabia ler e nem escrever, apenas recomendou agradecimentos. Aqueles tostões ele não tinha!

*Pádua Marques, cadeira 24 da Academia Parnaibana de Letras.

 

Visita ao Lar das Flores de Maria

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Visita ao Lar das Flores de Maria

Elmar Carvalho

Meses atrás, quando meu filho João Miguel veio de férias a Teresina, fez uma visita, sem o nosso conhecimento prévio, ao Lar das Flores de Maria, que abriga várias anciãs, oportunidade em que lhes levou donativos. Desde então fiquei com desejo de visitá-lo, mas, por fracos motivos, quase injustificáveis, fui adiando essa promessa que fiz a mim mesmo.

Contudo, nesta segunda-feira (23/09/19), de manhã, em companhia de Fátima, fui visitar esse abrigo de mulheres idosas, cujas idades variam de 70 a 108 anos. Curiosamente, a mais do que centenária goza de boa saúde, e se mantém ativa e lúcida. Entretanto, outras sofrem de doenças graves, que não irei nomear, inclusive o mal de Alzheimer.

Fomos acolhidos pela irmã Aline, que nos revelou ser parnaibana, terra a que somos ligados por laços afetivos e sentimentais, e onde moramos por muitos anos. As velhinhas estavam num espaçoso e arejado alpendre, como se estivessem numa espécie de mitigado banho de sol e recreio, em que faziam uma leve refeição matinal.

Após os cumprimentos de praxe, uma das senhoras perguntou o meu nome. Em seguida, indagou sobre a origem de meu sobrenome Carvalho, tendo eu lhe respondido que foi legado pelos meus antepassados barrenses, por parte de meu pai. Ela passou a falar das agradáveis recordações que tinha de Barras, quando em sua mocidade ali passara algumas de suas férias, a convite de uma amiga. Acrescentou que na época ali se realizavam muitas festas. Eu, então, lhe respondi que Barras dera ao Piauí grandes poetas e músicos, e que lá, décadas atrás, existira a banda musical de sopro e percussão mais afamada da região.

A Irmã Aline nos convidou a conhecer o interior da casa. Vimos várias de suas dependências, entre as quais a sala principal e alguns dormitórios. Acho relevante dizer que eram limpos, arejados, higiênicos e bem cuidados. Contígua ao edifício principal existe uma pequena e simpática capela, na qual são celebradas três missas semanais.

Perguntei se o Lar era vinculado à Arquidiocese, e se recebia ajuda da ASA – Ação Social Arquidiocesana, criada por Dom Avelar Brandão Vilela, tendo ela me respondido que não. Assim, depreendi que o abrigo depende do auxílio que as irmãs da ordem das Virgens Consagradas recebem.

Eu havia levado uma pequena oferta, que entreguei logo ao chegar. Considerando a importância do Lar das Flores de Maria para aquele grupo de mulheres idosas, prometi que passaria a enviar, mensalmente, uma pequena ajuda financeira, pelo que pedi o número da agência e da conta do abrigo.

Na esperança de que meus parcos e eventuais leitores queiram ajudar essa instituição de amor ao próximo, deixo aqui o número de suas duas contas: Caixa Econômica Federal – CC-00000350-6 / Agência 3829 / Operação 003 e Banco do Brasil – CC-24746-4 / Agência 4708-2. Caso necessário, eis o CNPJ: 16.702.199/0001-30. Seu endereço é rua Dr. Francisco Almeida, 995 – Ininga, nesta capital.

Como o poeta Carlos Drummond de Andrade, “Não amei bastante meu semelhante, / não catei o verme nem curei a sarna. / Só proferi algumas palavras, / melodiosas, tarde, ao voltar da festa.” Por isso mesmo, esbocei esse pequeno gesto, que não estou contando para me exaltar, mas apenas para induzir outros a fazerem mais e melhor.

Tendo sido eu, basicamente, a vida toda um literato, perguntei se algumas das irmãs e velhinhas gostavam de ler. Recebendo resposta afirmativa, resolvi “castigá-las”, lhes deixando dois exemplares de livros de minha autoria, que talvez venham a ser o embrião de uma pequena biblioteca.

Coronel Queixada, governador da Barra do Longá e herdeiro de Simplício Dias.

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*Pádua Marques

 

Simplício Dias da Silva havia tempo estava no leito esperando a morte. Mas suas roupas e alguns pertences já haviam ganhado a rua pela porta dos fundos e dados pra gente ordinária, mendigos, vagabundos, loucos de toda sorte e escravos sem senhor na vila de São João da Parnaíba. Queixada, um desses, acabou ficando com o uniforme e as dragonas douradas, o mesmo uniforme que o coronel em festas de gala anos antes ostentava durante as missas com a família, nas paradas da milícia ou quando recebia políticos, visitantes e cientistas estrangeiros.

Queixada agora andava pra cima e pra baixo com o uniforme do coronel Simplício Dias, que de certa forma conseguiu enganando Elias, depois deste ter mentido pra dona Isabel Tomásia. Queixada era um negro fosco, o cabelo pixaim de tão sujo era cor de cobre, de baixa estatura e muito feio. Tinha os caroços dos olhos amarelos e era chegado a uma aguardente e um cigarro barato. Se gabava pra todo mundo, desde a Coroa até os Tucuns, que era filho de uma escrava de dentro da casa do governador da vila da Parnaíba, quando o coronel ainda tinha alguma moeda na burra e os soldados de Fidié ainda não haviam saqueado as joias e as pratarias da igreja de Nossa Senhora da Graça.

O apelido de Queixada ele ganhou de gente na rua por ter os queixos largos e a cara quadrada. Dona Isabel Tomásia imaginando que o pedido de Elias era uma lembrança, deu o uniforme, mas não as medalhas e outras condecorações. E muito menos o punhal e a pistola. Vai que por qualquer descuido de Elias estas armas acabassem nas mãos de algum malfazejo, trocadas por miudezas e dando motivo pra confusão e até algum crime?! Do jeito que Simplício Dias estava não dava mais pra defender ninguém.

O certo é que o uniforme com as dragonas douradas acabaram nas mãos de Queixada. Como dona Isabel Tomásia não deu as medalhas, ele achou de colocar no presente valioso toda sorte de objetos. Botões dourados ganhos de uniformes de comandantes de navios, medalhas de santos, cacos de vidros e até chaves de algum armazém abandonado lá pros lados do antigo estaleiro. Era tudo o que achasse servia pra encher o peito. E assim ia cumprindo a sina de doido. E que por ter fama de doido recebeu o apelido de Miolo Mole. Mas não se caísse na besteira de falar esse apelido.

Corria atrás com pedra e paus ou o que achasse pela frente. Era o terror de meninos, mulheres da vida, outros vagabundos que passavam o dia inteiro caturando um serviço no porto Salgado. E foi assim que recebeu de um comandante de navio a patente de coronel, coronel Queixada, governador da Barra do Longá. Gostou tanto do posto que agora andava sempre com um cacete curto entre o cinto velho e a calça como se fosse uma espada. Ora, deu que virou! De manhã cedo, mal o movimento dos armazéns, lojas, repartições do governo e embarcações no porto davam início, lá estava o coronel Queixada fazendo inspeções. Era atracar um navio vindo o Maranhão e lá ia ele mandando abrir bagagem e mercadoria, se fazendo de autoridade. Os mais medrosos até que obedeciam. Obedeciam pra não criar confusão. Outros achavam graça, zombavam.

E pelo serviço ia ganhando um vintém aqui e outro ali. Queixada perdeu o juízo quando ainda novo um pedaço de madeira caiu em sua cabeça no estaleiro onde trabalhava no outro lado da Ilha Grande de Santa Isabel. Foi o bastante pra que tão logo se recuperou dos ferimentos fosse apelidado de Miolo Mole. Era de entrar na igreja do Rosário dos Pretos e de altar em altar, de olhos fechados e batendo os beiços ir fazendo o pelo sinal da cruz uma porção de vezes. Depois, sem ver nem pra quê, saía correndo desembestado pelo meio do largo e ganhava a rua entre a igreja da Graça e a rua Grande.

E os vendedores de frutas, negras vendedoras de coco, cocada, temperos pra panela, manga e caju vindos da Ilha de Santa Isabel, gente fazendo compras pras cozinhas de seus senhores, ficavam gritando, Coronel Queixada! Coronel Queixada! Viva o Coronel Queixada! Miolo Mole, fela da puta, filho de uma égua! Miolo Mole! Depois quando passava a doidice instantânea ele ia se proteger dos insultos e das pedradas na sombra dos armazéns. Dona Isabel Tomásia, dado o cuidado com o marido quase morto, pouco se interessava pelo que vinha da rua. Se sabia de algum alvoroço, brigas entre embarcadiços e mulheres da vida, entre os Tucuns e a Coroa, era de ficar calada.

Em casa o coronel Simplício Dias ia de mal a pior. Vinham os vizinhos, gente importante e até antigos desafetos ver de perto como estava o sofrimento lento daquele que dentro de mais alguns dias iria fechar pra sempre as capelas dos olhos. Vinham, ouviam da dona da casa como ele estava e saiam de cabeça baixa. Mas na rua e no agora pouco movimento da outrora vila rica da Parnaíba e nos lugares mais distantes, o que se sabia era que Simplício Dias da Silva já era morto e enterrado dentro da igreja. Havia até quem dissesse que havia morrido e jogado no mar ou estava enterrado entre os cajueiros no distante Testa Branca.

No porto Salgado as conversas entre os comandantes de navios vindos de Tutoia no Maranhão eram de quem iria ser a maior autoridade da vila da Parnaíba depois da morte de Simplício Dias da Silva. E nesse fulano disse isso ou disse aquilo as mercadorias iam se acumulando no porto, as lojas tendo prejuízos, as encomendas rareando. O coronel Queixada ia de porta em porta ouvindo, espalhando conversa e aumentando por sua conta. Um dia encontrou um negro da sua igualha e lá pelas tantas se danaram a brigar por causa do uniforme. Brigavam agora por causa da patente. Quintiliano, o outro negro sem ocupação, disse que Queixada era coronel porque sua mãe era curica da cozinha de Simplício Dias.

Se atracaram numa rua dos Tucuns e Quintiliano rasgou e arrancou a manga do uniforme do coronel Queixada. Botou força e as medalhas todas caíram e se espalharam na areia imunda do Cheira Mijo. Queixada deu de garra na espada de cacete e meteu na cabeça de Quintiliano. Foi sangue pra danar. As mulheres e os meninos gritando e os marujos dando vaias e até apostando ver quem haveria de ganhar aquela queda de corpo. Chamada a milícia, os dois foram presos. O chefe de milícia, Lucas Patriotino Ferreira, homem de dentro da casa de Simplício Dias, mandou dar logo de entrada uma dúzia de bolo de palmatória em cada um, tomou e ateou fogo no uniforme causador da briga.

Qual o motivo desta briga, negro? Negro não, coronel Queixada, governador da Barra do Longá! E quem te deu patente, negro? Onde já se viu negro coronel e ainda mais da Barra do Longá?! Foi comandante de navio do Maranhão quem me deu patente! E desde quando comandante de navio vindo de Tutoia do Maranhão dá patente na vila da Parnaíba? Negro, vê se te cala senão dou cobro de ti!

A dúzia de bolos foi mesmo que dar mingau de milho em boca de menino! Dentro da cela os dois negros ainda com as mãos em fogo se pegaram de novo. Sopapos, gritos, mordidas e tudo o mais. Ainda não havera de acabar aquela arrumação? O jeito foi levar pro tronco e dar uma dúzia de chibatadas em cada um, nu do jeito que veio ao mundo, enquanto todo mundo ficou dando gaitada.

*Pádua Marques, cadeira 24 da Academia Parnaibana  de Letras.

As mãos de Elias.

 

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*Pádua Marques.

 

Simplício Dias da Silva estava, como se dizia entre o cais do porto e os confins dos Tucuns, com o pé na cova da igreja da Graça. A cada dia ficava pior, já não se levantava mais sozinho da cadeira preguiçosa que o negro Elias, mesmo manco e com apenas um braço, todas as manhãs colocava no andar do meio da casa de morada entre a rua Grande e a igreja, dando vistas pra o movimento do porto Salgado e o estaleiro, fazia tempos desativado.

A língua de Simplício Dias da Silva pesava dentro da boca desdentada e os olhos cinzentos e frios havia tempo, perdido o brilho de quando antes mandava executar qualquer serviço entre suas propriedades, dava ordens pra milícia ou ia pessoalmente ver a arrumação de tudo que estava sendo feito, até na cozinha. Agora mal reconhecia a mulher dona Isabel Tomásia, que não descansava um rasgo de tempo cuidando dele. Todos os dias as senhoras dos principais da Parnaíba vinham ver como o doente estava.

Vinham, rezavam em voz baixa e iam saindo na direção da antes faustosa sala cheia de móveis pesados e escuros. Dona Isabel Tomásia ficava de cabeça baixa e a voz mais ainda, mandava servir um café, um refresco de caju ou de outra fruta, vinda dos Morros. Ela sabia que o marido não haveria de demorar mais muito tempo em cima da terra. Depois as visitas iam embora. Elias estava sempre por perto, mas mantinha a reserva da distância quando começavam as rezas. De onde estava acompanhando ia se benzendo e sempre de olhos fitos no coronel.

Na rua e lá embaixo o movimento no porto Salgado e de tudo que dependia dele era o mesmo de todos os dias. Negros bem cedo carregando barris com água pra encher quartinhas, potes e tanques pra banho de seus senhores, lavadeiras descendo o barranco até os Tucuns em busca de um lugar bom pra lavagem de roupas, carroças de aluguel já ocupadas com gente importante ou de dinheiro na burra que não queria caminhar pelas ruas esburacadas ou cheias de pedras irregulares.

Lá adiante alguém era de se cruzar e se afastar tapando o nariz com quatro negros nus da cintura pra cima transportando um barril cheio de fezes e urina tirado da casa de gente importante, algum doutor, juiz, capitão, comerciante de posses. Um dos negros trazia no pescoço um sinete pra advertir sobre como se afastar daquela carga incômoda e repulsiva. Iriam despejar lá embaixo, depois das lavadeiras, após a curva e já dentro dos Tucuns, que por isso passou a ser chamado de Cheira Mijo.

As conversas na vila da Parnaíba naquele meio de setembro de 1829 entre quem descia ou subia nas embarcações vindas do Maranhão, entre as lavadeiras, os embarcadiços, donos de oficinas, comerciantes e seus fregueses, era de que o comandante e governador Simplício Dias da Silva, que era tido e havido como um dos mais ricos da província do Piauí, não haveria de durar até o final do mês. Pouco se sabia sobre a doença dele e aquilo era ainda mais motivo pra que gente de toda classe lhe desejasse a morte lenta e sofrida, pra pagar em cima da terra todo o mal que havia feito. Mas havia também gente, aqueles que se compadeciam.

Elias estava sempre onde deveria por obrigação e ofício estar. Era agora o de um tudo na casa de morada. Não reclamava, não rogava praga nem mesmo quando sozinho ou entre o pessoal da cozinha, gente da sua condição. Era ele Elias quem tirava o velho Simplício Dias da Silva da rede tão logo este abria os olhos e mostrava pra ele ou dona Isabel jeito de querer ficar na sala, perto da janela de treliça e pegando a fresca vinda do rumo do Testa Branca. Depois levava mesmo sem um braço e manco da perna, pra rede, dava água de beber, banho, trocava as roupas de baixo e de cima, perguntava que dia era aquele ou quem era esta ou aquela criada. Tentava em vão lhe refrescar a memória.

Elias dava comida na boca, limpava as migalhas de arroz ou uma gota do caldo de carne de boi, de peixe ou de uma franguinha de primeira pena, mandada dos Morros decretadinho pra Simplício Dias tomar uma sopa. Limpava o penico ao lado antes que chegassem visitas. Elias estava ali feito uma bengala. Fazia tudo. Tentava a todo custo dar ânimo a um homem que estava querendo morrer. De vez em quando o criado saía e ia até o fundo da casa ou do quintal. De longe era visto esfregando os olhos. Chorava e chorava muito. Olhava pra única mão encardida e calosa, pronta pra servir e fazer qualquer coisa.

*Pádua Marques, cadeira 24 da Academia Parnaibana de Letras.