CELSO PINHEIRO EM TRÊS DIMENSÕES

CELSO PINHEIRO EM TRÊS DIMENSÕES

Elmar Carvalho

I           Panorama teresinense e o poeta

Em 1902, aos 15 anos de idade, Celso Pinheiro já morava em Teresina, vindo de Barras, sua terra natal, para continuar seus estudos. Contudo, sequer veio a concluir o curso ginasial.

A capital piauiense era uma pequena cidade, ainda muito acanhada, situação que perduraria até a morte do poeta, em 1950. A pequena urbe se estendia do entorno do Cemitério São José até os arredores da Igreja de Nossa Senhora das Dores, no sentido Norte para Sul; no sentido Oeste para Leste ia da margem direita do rio Parnaíba até a margem esquerda do Poti.

O teatro, que fora uma das principais atividades culturais e de entretenimento, desde a fundação da cidade até o final do século XIX, já começava a perder espaço para o cinema, que se tornou uma das principais diversões teresinenses. É de se supor que o bardo tenha assistido a algumas representações teatrais e sessões cinematográficas, que até o final de sua vida foi se aperfeiçoando na tecnologia e na utilização de efeitos especiais nas filmagens.

Outras sociabilidades da capital eram os saraus, literários e/ou musicais, realizados em estabelecimentos públicos ou particulares, inclusive na casa de Clodoaldo Freitas (e suas rodas de conversa). Também não devem ser esquecidos os festejos de santos católicos, com suas quermesses e leilões, na parte profana; tampouco devem ser esquecidas as apresentações circenses, que costumavam ter no seu final uma peça de dramaturgia. Sem dúvida tomou conhecimento das polêmicas anticlericalistas dos maçons, que recebiam o revide das principais lideranças do catolicismo.

Chamado de o milionário do verso pela profusão de poemas que produziu, sobretudo sonetos, com certeza os publicou nos poucos jornais da cidade, quase sempre pertencentes a partidos políticos. Nesses periódicos a política tomava sua feição mais feroz, em que os inimigos e desafetos não tinham boas qualidades morais nas catilinárias desabridas, e em que os amigos e apaniguados não tinham defeitos nas matérias laudatórias ou apologéticas.   

Houve também a moda das conferências. Alguns conferencistas vinham de outros estados, mas também as proferiam intelectuais do Piauí. Nogueira Tapety, poeta oeirense, pronunciou uma bela palestra sobre a luz, que tive a oportunidade de ler. Acredito que Celso deva ter comparecido a algumas, e certamente foi o responsável por uma ou outra dessas conferências.

Em 30 de dezembro de 1917 foi fundada a Academia Piauiense de Letras. Celso, aos 30 anos, foi um de seus fundadores. Foi o primeiro ocupante da cadeira nº 10, de que tenho a honra de ser o atual titular. E é o patrono da cadeira nº 5 da Academia de Letras do Vale do Longá – ALVAL, da qual hoje tenho a posse. Muitos desses fundadores e primeiros acadêmicos eram intelectuais egressos da Faculdade de Direito do Recife, herdeiros do positivismo e das lições do professor, erudito e poeta Tobias Barreto. O nosso bardo não teve formação superior, numa época em que poucas pessoas conseguiam se formar, a maioria em Direito, Medicina, Engenharia, Odontologia ou Farmácia.

Na segunda década do século XX, aproximadamente, vários poetas piauienses louvaram em magoados versos elegíacos lindas e belas moças, que morreram precocemente, entre as quais Mocinha Araújo, Santa Martins e Iaiá Pearce. A última era filha do inglês Thomas Pearce e noiva do aluno do curso de Direito e poeta Pedro Borges da Silva, que depois se tornou vice-governador do Piauí, membro da APL, juiz federal e ministro do Tribunal de Segurança Nacional. Antônio Chaves, que a pranteou em lindos e melodiosos versos, impregnados de saudade e paixão, no eu lírico de soneto elegíaco que leva o seu nome, chegou a considerá-la noiva: “Eras a minha fé soberba, indefinida, / Eras a minha crença, ó lírio imaculado, / Tu, que trazias n’ alma inocente e querida / A ária do nosso amor e do nosso noivado.” Celso Pinheiro também escreveu algumas elegias, em que chorou essa formosa e alva flor de carne, tão cedo ceifada dessa vida descontente, para evocar aqui os imortais versos camonianos. 

Quando o poeta faleceu, já existia o Clube dos Novos, a nossa geração de 45. Os poetas e escritores dessa agremiação literária fundaram a revista Caderno de Letras Meridiano e discutiam literatura, mormente na Praça Pedro II, onde costumavam se encontrar. Não sei se esses rapazes tomaram conhecimento do grande e velho poeta, e se este chegou a conhecê-los ou porventura tenha lido algum texto literário desses moços.

II         Alguns dados biográficos e cronológicos

Dois paralelos quero traçar entre Celso Pinheiro e Antônio Francisco da Costa e Silva, no referente às datas de nascimento e de morte deles. O primeiro nasceu em Barras, em 24 de novembro de 1887 e o segundo, em Amarante, em 23 de novembro de 1885. Por conseguinte, Celso era dois anos e um dia mais moço que o Poeta da Saudade e do Velho Monge. E faleceram no mesmo dia, ou seja, em 29 de junho de 1950; Celso na capital do Piauí e Da Costa e Silva na capital federal, a cidade do Rio de Janeiro. Tiveram elogio póstumo na Academia Brasileira de Letras, em discursos pronunciados respectivamente por Múcio Leão e Olegário Mariano.

Era filho do capitão-mor João José Pinheiro, que veio morar em Teresina em 1857, quando esta capital tinha apenas cinco anos de fundada, e de sua mulher Raimunda Lina Pinheiro. O capitão viera da Vila do Rosário – MA para assumir a administração dos Correios. Era irmão dos escritores e contistas João Pinheiro e Breno Pinheiro, ambos pertencentes à Academia Piauiense de Letras.

Cedo o poeta Celso Pinheiro se tornou órfão e teve que trabalhar ainda jovem para se manter em Teresina. Como dito, em 1902 já ele morava em Teresina, de onde nunca se ausentou, a não ser por curto período. Ganhando pouco, em determinada época teve três empregos (professor de Literatura da Escola Normal, escriturário da Chefatura de Polícia e revisor do jornal O Piauhy). De um deles, o de professor, foi demitido pelo governador Eurípides de Aguiar, pelo simples fato de ter sido nomeado pelo governador Miguel Rosa, seu adversário.

Sofrendo uma crise de insônia, cansaço e doença nervosa, em 1917 viajou para o sul do estado, em busca da saúde psicológica e física. Nessas andanças pela hinterlândia piauiense escreveu alguns poemas sobre essas paragens. Perambulou pelas longínquas cidades do sul piauiense, Santa Filomena e Gilbués. Nesta última passou cerca de dois meses. O certo é que essa viagem, a maior parte feita em lombo de cavalo, concorreu para a recuperação de sua saúde.

Um tanto boêmio quando jovem, alto, magro e nervoso, julgou haver contraído a tuberculose, então uma doença quase sempre fatal. Uma pessoa minha amiga, de alta respeitabilidade, me informou que uma neta dele lhe fizera a revelação de que essa tísica foi apenas uma doença imaginária do poeta, que na realidade nunca fora inoculado por bacilos de Koch. A mesma fonte me revelou que ele chamava a sua suposta tuberculose de Dindinha, que era o nome da velha babá de sua infância. E também, carinhosamente, apelidava a morte de Dona Branca.

O milionário do verso cometeu inúmeros poemas, entre os quais mais de quatro mil sonetos, forma fixa de sua predileção, que ficaram dispersos em jornais e revistas. Alguns foram reunidos no livro Poesias, cuja publicação foi feita em 1939, sob a chancela da APL. Recentemente, através da Coleção Centenário, publicada por ocasião das festividades alusivas ao centenário da Academia Piauiense de Letras, foi dada à estampa a segunda edição desse seu livro.

Casou-se com Liduína Mendes Frazão em 1914, que veio a falecer em 1932. Portanto, o poeta foi casado durante 18 anos e permaneceu em viuvez durante outros 18 anos.

Outro fato que muito magoou o poeta foi a prisão de Celso Pinheiro Filho, aos 24 anos de idade, quando era 3° sargento do Exército, pelo Tribunal de Segurança Nacional, sob a acusação de ser comunista, em virtude de haver tomado parte do levante da Praia Vermelha (3° R. I.), em novembro de 1935. Em 1946 Celso Filho foi nomeado prefeito de Teresina pelo interventor federal Vitorino Correia. Segundo Herculano Moraes esse filho primogênito do poeta sofreu “uma das mais acirradas campanhas de difamação da época”, o que teria levado Celso Pinheiro, em defesa do filho, “a publicar versos ofensivos e insultuosos contra Eurípides Clementino de Aguiar, que liderava os opositores ao filho do poeta”.

Além de Celso Filho o poeta teve as seguintes filhas: Edméa, Maria, Wanda e Diva.

III        Comentário crítico

Como epígrafe do excelente livro Os Literatos e a República: Clodoaldo Freitas, Higino Cunha e as Tiranias do Tempo, de Teresinha Queiroz, encontramos um lapidar e paradigmático trecho de um poema incluído na parte do livro Poesias titulada Poema das Noites, de cuja epígrafe transcreverei apenas os quatorze versos iniciais:

Na idade,

Em que se é todo um hino à Mocidade

E a vida sabe a trínulo perfeito

Contraí dentre todas as doenças,

Aquela cujas chagas são imensas…

Ai, doença das Letras no meu peito!…

Eram febres de luz de muitos graus,

Entrecortadas de lampejos maus…

Às vezes, nos ásperos reveses da Febre,

Do Martírio, Satanás dirigia o meu delírio:

E eu morto, de pés juntos,

Escutava risadas de Voltaire

E via,

Assomos de magia!  

Lendo-se o poema acima referido na íntegra, pode-se constatar que nele estão todos os principais ingredientes e condimentos da poética simbolista. Nele se nota certa vagueza, feita mais de sugestões, que de afirmações peremptórias; certo clima de nívea frialdade, de penumbra nevoenta, de brancura lirial; uma métrica, que lhe dá musicalidade e certa variação rítmica; uma quase profissão de fé, quando ele cita suas admirações literárias; e uma espécie de devoção ao sofrimento e à morte.

Aliás, todo o poema é referto de metáforas, palavras e símbolos caros à Escola Simbolista, entre os quais, em rápida enumeração, apenas exemplificativa, citaria: lívida, unge-me, turíbulo, sonhador nevoento, cidade dos pés juntos, Corujões, pântano, Tísicos, Luz, Sinos, Coveiro, demônio do Tédio etc. Atente-se ainda para as personificações tipicamente simbolistas, com muitas palavras iniciadas por maiúsculas.

A crítica, em seu entendimento predominante, tem considerado que Celso Pinheiro era um simbolista. Eu diria que ele foi sobretudo um adepto do simbolismo, e que viveu num período em que o Modernismo praticamente não chegara ao Piauí; em que os poetas praticavam um sincretismo, um amálgama do romantismo, do parnasianismo e do simbolismo, com predominância, talvez, da Escola mais velha.

Como disse, o nosso bardo foi essencialmente um simbolista, mas pelo apuro de seu estilo e forma, de sua linguagem esmerada, de sua métrica e ritmo melodiosos, considero que ele recebeu um saudável influxo do melhor parnasianismo, despido de exageros e de certos rebuscamentos e preciosismos.

Sobre ele disse com muita propriedade o saudoso amigo e notável poeta Hardi Filho: “Não há negar que Da Costa e Silva foi um grande poeta, o mais culto do Piauí. Celso Pinheiro foi o mais autêntico, o de inspiração mais constante, o mais humano (…) À poesia de Celso Pinheiro faltaram as oportunidades de divulgação que teve a de Da Costa e Silva.”

Acredito que se ele tivesse nascido no Rio de Janeiro ou em São Paulo, talvez o seu nome formasse uma trindade simbolista, ao lado de Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens. Quando tomei posse da cadeira n° 5 da Academia de Letras do Vale do Longá, da qual o poeta é patrono, em solenidade ocorrida no dia 23.05.97, no IATE CLUBE de Campo Maior, tive a oportunidade de dizer sobre ele e sua poesia:  

A  exemplo  do  Parnasianismo   Brasileiro, a  Escola  Simbolista  deveria  também  ter   a   sua   trindade, em  que  a   estrela  de  primeira  grandeza  e  de  fulgor   extraordinário – Celso  Pinheiro – brilharia  ao  lado  de Cruz  e  Sousa  e  Alphonsus  de Guimaraens. O  poeta, ironicamente, em  sua  pobreza  de  metais, era  chamado de milionário  do  verso, pela   facilidade  com  que  urdia  os  mais  belos  poemas  e  sonetos, nos  quais  eram  vazados  o  seu  delicado  pessimismo  e  o   seu  suave  lirismo, através  de  melodiosas  palavras  e  de  inusitadas  e  por  vezes  extravagantes   imagens  e  metáforas. Simbolista   sim, mas  também  um  cultor  da  forma, percebendo-se  em  sua  poesia  uns  leves  laivos  de  saudável  parnasianismo. A  crítica   o  tem, merecidamente, em  elevada  conta. Bugyja  Britto  o  alinha  entre  os  maiores   poetas  do  Brasil. Hardi  Filho, que  escreveu  um  livro  sobre  ele, considera-o  entre  os  três  principais  aedos  de sua  predileção. Herculano  Moraes, poeta, crítico  e  membro  desta  Academia  e  da  Academia  Piauiense  de  Letras, assim  se  referiu  a  esse   excelso   poeta: “A  poesia  de  Celso  Pinheiro  pode  ser  incluída  entre  os  melhores   momentos  do  simbolismo   brasileiro, ao  mesmo  nível  de  Augusto  dos  Anjos  e  Cruz e  Sousa. São  poucos   os  poetas   que  conseguem   ser   tão   sublimes  e   torturados   ao   mesmo   tempo.” Sua  portentosa   poesia  aí   está  para  ser  fruída  e  degustada  e  para   comprovar  o  que   dissemos  a  seu   respeito.

Não bastasse ter sido o admirável poeta que foi, também foi um exímio prosador, tendo escrito notáveis crônicas, discursos, artigos e conferências, que se coligidos formariam um excelente livro. Soube que Celso Filho ainda teria organizado essas peças literárias. Todavia, lhes desconheço o paradeiro.

Portanto, faço questão de repetir como um corolário de tudo o que disse: o excelso poeta Celso Pinheiro bem poderia compor uma trindade simbolista brasileira, ao lado de Alphonsus de Guimaraens e Cruz e Sousa.

Obras consultadas:

Poesias (2ª edição – 2015) – Celso Pinheiro

Três Artífices do Verso (1991) – Bugyja Britto

Nebulosas (2ª edição – 2013) – Antônio Chaves

Os Literatos e a República: Clodoaldo Freitas, Higino Cunha e as Tiranias do Tempo (3ª edição – 2011) – Teresinha Queiroz

Visão Histórica da Literatura Piauiense (6ª edição – 2019) – Herculano Moraes

Dicionário Enciclopédico Piauiense Ilustrado (2003) – Wilson Carvalho Gonçalves

Meus Poéticos e Desafiadores anos 2010

De frente para o palco… O coração a mil e uma badaladas, enquanto um sonho que já durava 17 anos finalmente se tornava real… Bon Jovi! Num show pra lá de espetacular abriu os trabalhos de uma década que traria a realização de outros sonhos da juventude, como por exemplo, o de mexer com Cinema, mesmo que amador, mas na escola que eu já chamava de segundo lar: Cândido Oliveira! E de quebra, o início de meu período como professor do Ensino Superior, que acabaria por me render, além da experiência, vários reconhecimentos por parte das turmas.

            Os ventos pareciam soprar apenas a favor, porém o velho ciclo matrix da vida fez agravar, e até mesmo surgir, enfermidades. A Tourette, companheira constante desde os seis de idade (que até então nem mesmo sabia o nome), se tornou novamente um grande desafio… No que tive que encará-la de frente para virar o jogo e obter o controle. A Diabetes também me alcançou, provocando susto e consequências, uma delas, a piora de outro problema antigo, seguido de cirurgia, preocupação, gastos e muitas etceteras…  

            Em meio a tudo isso, o psicológico seguia numa luta incessante para não sucumbir, enquanto aulas eram ministradas, jornais rodados, filmes gravados, projetos executados, aulas da saudade produzidas, coletâneas literárias lançadas, lições aprendidas ao mesmo tempo em fui assistindo manifestações, protestos, prisões, delações, golpes e uma nova ascensão do autoritarismo no Brasil e no resto do Mundo. A internet se tornou arena de lutas regadas a Fake News que ajudaram a eleger, tanto nos EUA, como no Brasil, representantes do ódio e das armas. Até a intervenção militar foi pedida, numa demonstração de total esquecimento (ou desconhecimento) da História.

            Munido dos clássicos fones e escutando no celular as canções de Avenged Sevenfold, Green Day, My Chemical Romance e The Struts (as duas últimas apresentadas por minhas filhas já roqueiras), eu fui atravessando esse período, ao mesmo tempo sombrio, mas de gratas realizações, grandes amizades e parcerias poéticas… Irmãos e filhos de batalhas contra pretensos/ impiedosos reis, na busca por mais humanidade e contra um grande mal que se estabeleceu, já no fim desta contagem: O Covid 19, que assustou o mundo, levando mais cedo, e de forma trágica, muita gente que não merecia. E nesse momento, ainda envoltos no medo, seguimos… Enclausurados e angustiados, abraçando forte as nossas famílias e torcendo para não nos tornamos triste estatística…

…Nos momentos de maior cansaço, busco na escrita e na arte uma forma de me reerguer (quase sempre dá certo)… No que também me lembro das palavras de Balboa: “… não é sobre quantas vezes se vence, mas quantas se perde e continua lutando…”. Sigo torcendo para que as próximas páginas desta existência só tragam alegrias e recompensas… E um mundo de mais paz… Ou seria pedir demais?

Claucio Ciarlini (2021)

Meus Incríveis e Angustiantes anos 2000

Estava a assistir uma aula no curso de História. O assunto da disciplina de História do Brasil naquela noite era Ditadura Militar Brasileira. Enquanto minha mente era conduzida ao passado, me jogando mais uma vez na nostálgica teia dos anos 80 e 90 de minha vida, fui despertado por gritos que vinham do corredor da faculdade. Eram exaltações de um professor, que aos berros exclamava de porta em porta nas salas:

            – Venham ver, os Estados Unidos estão retaliando!

            Era 08 de outubro de 2001, e o Jornal Nacional divulgava um ataque das forças armadas dos Estados Unidos e do Reino Unido contra o Afeganistão, ocorrido no dia anterior, ataque esse empreendido com o intuito de rechaçar as forças do Taliban e Al-Qaeda, respondendo dessa forma, aos atentados do dia 11 de setembro.

            Ao mesmo tempo em que os cursos de História e Ciências Sociais do CCH da Universidade Estadual Vale do Acaraú paravam para assistir o festival de bombas lançadas sobre o Oriente, eu me indagava e refletia (com certo teor de ironia) se havia sobrevivido aos desafios das décadas anteriores, apenas para cair nos braços de uma Terceira Guerra Mundial. Algum tempo depois, antes de concluirmos o curso, acabamos por ver que a única guerra que começou foi a dos EUA contra o Iraque, aproveitando-se do choro de milhões de civis, a fim de garantir o tão almejado “Ouro- Liquido- Negro”.

            Na medida em que o mundo amadurecia perante aos acontecimentos da primeira década do novo milênio, me vi tendo que aprender perante os primeiros empregos, seguidos de um casamento, uma formatura e posteriormente, o nascimento de minhas duas filhas. Porém quando pensava que a vida finalmente me traria apenas felicidade, recebi em 2006 um duro golpe: A morte de minha avó (Vomãe).

            Por mais que eu tentasse, e olhe que tentei, não consegui evitar que a melancolia me abatesse. Escutando meu MP3 Player por horas seguidas, buscava canções que me deixassem mais relaxado (porém sem muito sucesso), na tentativa de escapar da cruel angústia que me consumia, me vi tendo que ser mais forte do que as adversidades… Tive que ultrapassar os meus limites, o que era complicado na época, pois já vinha de dias e noites sem dormir devido ao nascimento das minhas gêmeas, somado a uma longa rotina de trabalho e sérios problemas de dívidas.

            Porém nos dois últimos anos as coisas foram melhorando, e às vezes, a tal ponto que fui me permitindo sorrir, baixar a guarda e até mesmo deixar, de vez em quando, meu lado sonhador aparecer… Comecei de fato a lecionar (e o melhor, vi que conseguia!)… Fui lançando os meus livros (mais emoção)… Ainda veio um jornal de cultura (a alegria foi se restabelecendo)… O amor de minha esposa, o carinho das minhas pequenas… Então pensei no Lula, no Obama… lembrei do Papai Noel, pois afinal:

            – O que seria de nós sem um pouco de esperança?

…O futuro é algo incerto, e sempre foi… Porém depois de três décadas, de mortes, nascimentos e renascimentos, vitórias, derrotas e desilusões, o que carregamos em nossas mentes, além de visíveis cicatrizes, são aprendizados… Lições que nos ajudam a entender um pouco do que somos… E que nos ajudam a não ceder nos momentos de maior agonia… E depois de toda a jornada até aqui, paro para pensar o que virá na sequência… É quando a sirene da escola toca, avisando sobre o fim do recreio… Hora de mais um pouco de história!

Claucio Ciarlini (2009/2021)

Meus Inesquecíveis e Conturbados anos 90, por Claucio Ciarlini

No inicio da década de 90, o movimento grunge nem bem havia chegado à Parnaíba. O que era comum de se escutar pelas ruas da cidade, eram canções e estilos oriundos da década anterior, como Legião Urbana e Cia, somados aos ritmos de Madonna e Michael Jackson que ainda ecoavam  pelos “ouvidos e mentes” de uma geração que herdou o fim do período ditatorial militar.

Foi nessa ocasião que comecei a perceber os sons que os carros faziam, ao rodar a noite pela cidade, transformando o que antes era a apatia de uma rua deserta, numa euforia de se admirar. Era chegada a adolescência, tempo de sair, de espiar, beijar na boca, suspirar, época de viver, de sofrer e principalmente de desejar. Tempo que os brinquedos seriam deixados de lado, em razão de outras coisas, como por exemplo roupas, perfumes e garotas…

Uma época de promessas e ilusões, que se misturaram com toda uma nova forma de vida, pois afinal um mundo complexo surgia diante dos meus olhos e a sensação de “formigamento” percorria a alma à procura da noite, das ruas e das festas… Enquanto escutava no meu Disckman o rock norte- americano de bandas como Guns n´ Roses, Aerosmith e Bon Jovi,  milhares de sensações percorriam o meu ser, que inundado por essa nova maneira de enxergar a vida, me impulsionava a lugares físicos e psicológicos nunca antes desejados (alguns nem ao menos imaginados).

Nos primeiros anos, tudo era novidade! Na procura de me encaixar melhor nesse meio chamado sociedade, que de tão complexo e exigente, não costumava medir esforços para punir quem não estivesse de acordo, confesso que no principio, até tentei me manter no “nível”, porém com o passar do tempo fui me desligando desse tipo de “prisão social”. A música de Alanis Morissette percorria meu corpo e me elevava a outros níveis, me mostrando que eu podia ser quem eu quisesse, e não o que me ditassem…

Então vieram as primeiras lágrimas, entre erros e tropeços, eu buscava me equilibrar num copo de “cuba libre”, no intuito de sobreviver às pancadas que recebia, tentando me esquivar das armadilhas impostas pela vida, na busca de não ceder à pressão de quem me rodeava… Porém por mais que eu resistisse às inúmeras dificuldades que encontrava pelo caminho, acabava  muitas vezes, por abrir janelas para um sentimento que bem se assemelhava a uma depressão. Com o tempo, me encontrei numa situação em que calmante algum aliviaria, e enquanto ouvia Radiohead no volume mais alto, para que eu não pudesse escutar o grito desesperado que meu coração emitia, ideias iam fluindo, emoções afloravam, pensamentos sobre morte eram comuns, quando as ilusões se tornavam desilusões, no instante em que  promessas eram descumpridas, fazendo com que  a insatisfação enfim alcançasse sua presa, e esta, com que um vampiro sugando cada gota de otimismo, me deixava como um zumbi, um morto–vivo que vagava por entre a neblina, com um desânimo de morrer, num quadro assustador de mediocridade e desolação…

 Porém, nem tudo estava perdido, pois se aproximava o novo milênio, momento que perceberia, que a adolescência iria me abandonar, para ceder a vez a maturidade, hora de enxergar os sonhos não concretizados e também perceber os novos que surgiriam. Era o momento de fazer uma promessa, de que as lágrimas nunca mais cairiam, de que a inocência não seria mais vivenciada, mas sim lembrada em algum dia chuvoso ou calmo demais… Seria preciso ser forte, pra não ceder, num futuro onde nem todos os desejos foram realizados, mas que momentos felizes chegariam, e com estes, o sorriso, a satisfação e a entrega…  E dessa forma passaria viver o dia com maior intensidade, e deixaria a noite, apenas para ficar guardada na memória…

… Nos piores momentos de dor, eu costumava me esconder na noite, no intuito que o dia não me alcançasse, e assim me fizesse lembrar do que não tinha… E ao chegar em casa, trancava a porta da ilusão, sabendo que o futuro não poderia ser pior, me perguntava apenas se seria menos angustiante, era quando fechava os olhos, e levantando, caminhava em direção ao aparelho de som, para então desligar a música.

Claucio Ciarlini (2009)

Meus Nostálgicos e Complexos anos 80, por Claucio Ciarlini

Entre os anos de 1984 e 1985, diversos acontecimentos “povoaram” este País, dentre eles, surgia o movimento das Diretas Já, um conjunto de reivindicações que impulsionariam o fim do regime (já moribundo) militar brasileiro. Enquanto o Brasil comemorava a abertura democrática tão almejada por anos, os amantes da música brindavam e dançavam assistindo a primeira edição do Rock in Rio. No mesmo intervalo de tempo, dois fatos marcaram minha existência, me empurrando para um brusco amadurecimento. Foram eles: A separação de meus pais e o inicio da trajetória escolar.

                Tinha meus quatro anos de idade e pouco eu sabia sobre a vida e suas complexidades. Entregue a um ambiente estudantil, em alguns momentos acolhedor (por partes de algumas professoras), mas que também poderia ser bastante hostil (por parte de alguns colegas), fui levado a conviver diariamente com outros da minha idade, aprendendo cantigas infantis,  ao mesmo tempo, que me indagava sobre a ausência da figura paterna nas reuniões de pais ou no mês de agosto…

                Com o decorrer do tempo, fui me acostumando com as novas mudanças e responsabilidades, porém do alto da minha timidez, tentava a cada “final de dia” na escola, escapar dos brigões que me perseguiam, sempre me escolhendo para ser seu saco de pancadas. Costumavam mandar bilhetes horas antes, com o aviso: – Te pego lá fora! Correndo desesperado para casa, tentava ao mesmo tempo escapar de uma “boa surra”, e de quebra, chegar antes que começasse meus desenhos preferidos: Thundercats, He-Man e Caverna do Dragão.

                Porém as coisas foram evoluindo, e enquanto sonhava em chegar às férias para que pudesse passar o dia jogando Atari ou assistindo filmes da locadora, nem percebia que tudo o que estava vivendo e sentindo naqueles anos, passaria e se tornaria apenas “poeira nostálgica”. Poeira essa, que no futuro sujaria meus olhos, vez por outra, me causando lágrimas, ao me lembrar de quando tinha a proteção e os carinhos de minha avó, e a alegria de ser criança, ocasião em que o universo é um pouco mais colorido, e que embora avistasse e percebesse diversas rachaduras no formato da realidade, ainda tinha a opção de me esconder atrás dos brinquedos e dos mundos imaginários criados para esse fim.

                Ouvindo no meu walkman, Air Supply, A-ha e Roxette, fui conduzido ao fim dos anos 80, para algo inesperado e que afetaria toda a minha percepção de sonho e realidade: seriam as paixões, que no principio me acertaram como um meteoro de encontro ao solo, e que me mergulharam em águas profundas de sensações mais amplificadas e de difícil fuga… Era a adolescência chegando, e com ela, os desafios, os medos, as vitórias, as incertezas, as ilusões e as desilusões…

                …Quando os pesadelos me despertavam em meio a madrugada, eu buscava o refúgio dos braços de minha avó, entregue a um mundo de sonhos, eu nem percebia o tamanho da importância desta figura para minha vida… Anos depois eu perceberia a real dimensão, ao perdê-la para a morte, assim como perderia também minha inocência, ambas, tragadas pelo frio e inevitável tempo…

Claucio Ciarlini (2009)

SESC – JUBILEU DE DIAMANTE

PARABENS!

Sesc comemora 75 anos

No último 13 de setembro, o Sesc completou 75 anos de criação.
As várias unidades do Sesc, espalhadas em todo o país, comemoraram a data.
Em Teresina, a comemoração aconteceu no Centro Cultural do Sesc, sob o comando do presidente da Fecomércio Sesc Senac no Piauí, Denis Cavalcante com o apoio do vice-presidente da Confederação Nacional do Comércio, dr. Valdeci Cavalcante
O Sesc tem como missão principal oferecer o que há de melhor em saúde, lazer, educação, cultura, assistência, alimentação, esporte e tantas outras atividades essenciais para os trabalhadores do comércio e seus dependentes.
Nós da Academia Parnaibana de Letras, APAL, somos gratos pelo apoio que temos recebido, através dos convênios firmados (parcerias). Assim também nos sentimos parte dessa bela história. Aproveitamos a data para parabenizar toda a Diretoria da entidade na pessoa de seus dignos representantes, Denis e Valdeci Cavalcante.

Parabéns SESC por seu Jubileu de Diamantes – 75 anos de atividades em prol da família comerciária brasileira.
A DIRETORIA DA APAL

Academia Viva

Do Piaguí às Coletâneas: O Diálogo entre Gerações, por Claucio Ciarlini

            Quando O Piaguí nasceu, em cinco de novembro de 2007, além de logo se mostrar um espaço democrático e gratuito, que valorizava a história, a literatura e a cultura de nosso estado, ainda proporcionou algo nunca antes visto em publicações na cidade ou até em muitas outras do estado e afora. Trata-se do dialogo entre Gerações! Desde o primeiro número, escritores, artistas e pesquisadores de várias idades/tempos, desde aqueles que ainda estavam iniciando até os mais experientes e reconhecidos, dividiram espaço em pé de igualdade. E embora a maioria não se conhecesse pessoalmente (ou via internet), acabavam por ler, admirar e aplaudir as criações uns dos outros, fosse poemas, contos, caricaturas, crônicas e muito mais… Reunidos que estavam neste veículo de cultura que certamente marcou os últimos 14 anos de Parnaíba e ainda continua atuante, hoje não apenas limitado às páginas mensais que os seus leitores e apreciadores degustam e colecionam, mas tendo espaços virtuais nas plataformas Youtube, Facebook, WordPress e Instagram.

            Os anos foram avançando e os mesmos trouxeram o reconhecimento da atuação do Piaguí por parte de jornalistas, literatos e historiadores, a citar alguns prêmios que o jornal conquistou e também textos dedicados ao impresso como o do poeta Elmar Carvalho, quando em sua publicação O Piaguí – Um jornal Culuralista, mencionou: “Admiro a sua linha editorial. Noto que é desprovida de interesses menores, alheia a ciúmes de grupo, e, sobretudo tenho observado que os seus diretores não são obsessivamente ciosos de suas próprias produções; ao contrário, sabem reconhecer o valor dos outros, sem importar a que gerações pertençam. Até mesmo escritores já falecidos e um tanto esquecidos tem sido lembrados em suas páginas. Tenho visto o esforço desse órgão de comunicação em preservar a memória histórica do Piauí, através de matérias que sintetizam a história de vários municípios, assim como outras que tem divulgado os sítios arqueológicos e espaços culturais de nosso estado. Em suas folhas tem sido estampados contos, crônicas e poemas, além de pequenos ensaios e entrevistas (…), no que complementa: Considero os que fazem O Piagüí, tanto o jornal impresso como o portal de mesmo nome, como jovens idealistas, despojados de mesquinhas vaidades, egoísmos e egolatrias, que através da arte e da cultura buscam um mundo melhor, mais justo e mais fraterno”.

            Durante os 10 primeiros anos, O Piaguí seguiu cumprindo as suas missões, sempre trabalhando com a humildade e a sensibilidade do início e, com o tempo, diversos estudantes de escolas e faculdades que participaram do movimento (e que até estrearam no jornal) foram se formando, alguns lançando livros, ganhando reconhecimento, assim como fazendo amizades e parcerias com os escritores de gerações que vieram muito antes deles. Contudo ainda restava incentivar/conscientizar uma parcela dos mais experientes de que essa interação entre gerações era algo benéfico (e para ambas as partes). E o ano de 2017 foi bem significativo para isso, pois no mês de setembro organizei a coletânea poética Versania que trazia em suas páginas 22 poetas que estrearam no jornal desde sua criação até ali. A diagramação da obra ficou por conta de Fábio Bezerra, que também diagramava O Piaguí e foi um dos fundadores. No mês seguinte, o escritor e jornalista Pádua Marques (de uma geração anterior, mas muito atuante no impresso piaguiense), que havia tomado posse na Academia Parnaibana de Letras pouco tempo antes, no mês de maio, depois de conversas com o presidente da APAL José Luiz de Carvalho, que por sua vez já vinha desenvolvendo um belo Projeto chamado Academia Viva, visando promover a aproximação da APAL com os jovens literatos e comunidade em geral, publicou: Vamos Dialogar com a nova Geração?No texto, Pádua propõe aos membros da APAL que convidem para uma roda de conversa os jovens escritores, pois apenas benefícios poderiam surgir desta aproximação. Reforçando então o que já estava nos planos de José Luiz e o que o Piaguí já vinha fazendo desde a sua criação.

            Seis meses haviam se passado desde o lançamento de Versania. Era o mês de abril de 2018 e em meio à produção da segunda edição da coletânea (mais revisada e com nova capa) e inspirado em tudo que foi dito acima, tive a ideia de uma coleção de coletâneas literárias que trouxessem os gêneros: Conto, Poema e Crônica. Diferente do projeto de 2017, que era voltado para dar mais visibilidade aos escritores que ainda não tinham livros publicados, o objetivo principal desta seria a interação entre Gerações. Por ter conhecimento do  já citado projeto Academia Viva, convidei o amigo José Luiz de Carvalho, para organizar comigo esta nova empreitada, no que resolvi deixar para começar no ano seguinte, ou seja, em 2019, por conta da produção e lançamento da segunda edição da já citada Versania.

            A partir daí, e como dizem, é história! Tivemos a produção e lançamento de Contos entre Gerações em 2019 (30 contistas), com uma interação maravilhosa entre autores de diferentes épocas (algumas até gerando parcerias); em 2020 da mesma forma, mas com Poemas entre Gerações (60 poetas), no que devido ao isolamento causado pelo Covid19 não tivemos um evento presencial e sim uma gravação via Zoom, mediada por Dilson Lages, escritor e editor do Portal/Canal Entretextos. Já nesse ano de 2021, com Crônicas entre Gerações (40 cronistas), o convívio virtual entre os autores foi mantido, além da grande qualidade das produções, assim como nos livros anteriores. Como sempre, com igualdade de páginas, por ordem alfabética, com previsão para um grande lançamento no fim do ano e não só valendo para esta obra, mas para toda a coleção. No que torço, caro leitor e desde já, que quando este livro chegue às suas mãos, já tenhamos vencido esta pandemia que até agora tem nos assolado.

            Os frutos diretos e indiretos do(a) Movimento/Geração O Piaguí surgem a todo o momento. O Diálogo entre Gerações literárias é uma realidade. O que até alguns anos seria impensável, hoje já se tornou comum. Diversos são os grupos e entidades que promovem essa interação entre gerações. Além desta coleção, tem-se a Academia Parnaibana de Letras, o Sesc Literatura, o Piauí em Letras, o Clube dos Poetas Mortais, o Piauí Poético, o Geleia Total e certamente inúmeros outros que ainda não tenho notícia, mas que estão aí, assim como muitos que ainda irão surgir, ambos no intuito de fortalecer, não só a cena literária, mas da cultura em geral. O céu é o limite.

Claucio Ciarlini

Editor e um dos criadores de O Piaguí

Idealizador e um dos organizadores desta Coleção

In Poemoriam(*), por Claucio Ciarlini

Sepultaram o meu poema
Não mais está entre nós
Soterrado que foi, lamento
Debaixo de mil caracteres
De outros muitos assuntos
Nem piores e nem melhores
Palavras, fotos, elogios, tantos…

Sepultaram o meu poema
Agora há pouco respirava
Mas vida em internet corre
Ingrata, nem bem agradece
A alma do poeta é que padece
Vendo a sua cria evaporar
Vem outro e toma o lugar

Sepultaram o meu poema
Fica difícil até de protestar
É que me encontro num dilema
Entre o coexistir e o reclamar
No que geralmente me calo
Mas há o dia de encarar os medos
E o desabafo escorrer pelos dedos…

Sepultaram o meu poema
Porém das cinzas construí este aqui.

Claucio Ciarlini (2021)

(*) Dedicado a todos que sofrem ou já sofreram nos vários grupos de WhatsApp com estas lamentáveis, porém inevitáveis, ocorrências.

NA PONTA DOS DEDOS

Francisco Valdeci de Sousa Cavalcante
Primeiro vice-presidente da CNC e presidente do Conselho Regional do Senac-DF


Steve Jobs mordeu a maçã proibida do conhecimento e permitiu à
humanidade sair do mundo da ignorância. Otto Lara Resende, jornalista
autor de memoráveis citações, ensinou que dentro de mim mora um velho,
que não sou eu. Assim se
resume o conflito gerado
pela fronteira entre o novo
conhecimento e a
dificuldade em processar a
novidade.


Em paráfrase a Castro
Alves, é possível afirmar
que bem-aventurado é
aquele que distribui o novo
saber e manda o povo
pensar. Este é o desafio para
que a nova geração do novo
saber seja capaz de
melhorar as relações de trabalho. Somos educadores, sobretudo neste
momento de transformação. Sempre tivemos a experiência de ajudar o dever
público na preparação de uma nova mão de obra. O serviço nacional que faz
as aprendizagens profissionais no Brasil, o Senac, instituição da
Confederação Nacional do Comércio, é uma iniciativa da livre propriedade
privada, para requalificação de jovens na sociedade.


Acontece que, neste momento, estamos vivendo um instante solene de
transformações nas relações de produção e comércio. É o minuto no relógio
das modificações da humanidade, que, antes de completar uma hora, já está
cobrando a adequação para os novos tempos. O tsunami econômico causado
pela covid-19 potencializou investimentos das empresas pelo uso de recursos
tecnológicos digitais. Entre as companhias brasileiras entrevistadas para uma
pesquisa da KPMG, executada pela Forrester Consulting, que ouviu entre
maio e julho 780 executivos, líderes de “estratégia de transformação digital”,
de dez países diferentes, o resultado foi que 71% aceleraram suas estratégias
de transformação digital por causa da pandemia, enquanto 67% aumentaram
seus orçamentos para esse fim de forma significativa ou moderada.


Quando éramos adolescentes no século 20, nos alumbrava a ideia do que
poderia ser o futuro. Houve um filme de ficção científica, Odisseia no
Espaço, que tinha um computador maluco, Hall, que dirigia uma nave,
matava pessoas e pensava melhor que os homens. Foi um assombro que
magnetizou multidões. Pois bem, essa maravilha imaginada por Stanley
Kubrick, hoje, seria substituída pelo processamento de um humilde celular.


Assim é o novo mundo: um processo que transforma a realidade pela ponta
dos dedos. Suas digitais, sobre um teclado, cria o admirável universo digital.
A maior produtividade e a redução de custos têm estimulado, cada vez mais,
a troca da mão humana pela robotização física ou digital, com o uso,
principalmente, de inteligência artificial. Um estudo da McKinsey calcula
que 800 milhões de humanos perderão o emprego para os robôs até 2030.


Como Darwin já considerou em sua Evolução das Espécies, não
sobreviverão os mais fortes, porém aqueles que melhor se adaptarem às
mudanças. Esse é o momento em que o sonho de angústia da inovação cede
lugar ao sonho para a sobrevivência. Entra, então, o Senac na vida dos que
querem enfrentar os riscos das transformações. Perto de nós, em Brasília, no
Distrito Federal, existe um belo projeto em andamento. O Centro de
Inovação do Senac surgiu da ideia de estimular esse ecossistema e já produzir
soluções tecnológicas para o comércio do Distrito Federal, em um ambiente
acadêmico moderno e estruturado, com uma nova faculdade Senac de
Tecnologia e Inovação, promovendo o empreendedorismo e atento às
empresas e, consequentemente, às necessidades do mercado. O objetivo é
ampliar a capacidade competitiva do empresariado local, preparando-o para
os desafios presentes e futuros, impostos pelo avanço da inovação e da
globalização.


Este centro de estudos foi inspirado nas melhores práticas do mundo,
sobretudo no Centro de Inovação do Vale do Silício e no BIG Innovation
Centre de Londres. A ideia é dar vida a conteúdos como inovações, startups
e novas tendências. Assim que as aulas presenciais estiverem autorizadas, o
Centro oferece um novo prédio, totalmente moderno, de acordo com a
proposta de inovação e tecnologia do instituto, com área útil de 5.400 metros
quadrados e seis pavimentos disponíveis para os alunos.


Essa mágica que pode acontecer pela ponta dos dedos tem segredos que não
se aprendem nas escolas. Por mais que a tecnologia nos modifique, não
devemos transformar nosso íntimo sentimento de humanidade. O enorme
flagelo não é que máquinas pensem como humanos, mas que humanos
passem a pensar como computadores, predisse o jornalista Sydney Harris.
Precisamos inovar, mas nunca esquecer nossas delicadas emoções.
Angustiado, Albert Einstein advertiu: “A sensibilidade do espírito humano
precisa saber administrar a tecnologia”.


24/05/2021 06:00