O trovão. * Pádua Marques.

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Passei o final de semana todo ouvindo conversa sobre medo de trovão. Eu nem era pra ter me ocupado com isso, com essa perda de tempo, mas aquele ocorrido na noite da quinta-feira passada deixou a Parnaíba com cara de gente que perde o ônibus das seis no meio da estrada da Pedra do Sal, quando muita gente já estava batendo as pestanas feito dono de ponto de venda do mercado da Caramuru com a porta de enrolar.

Eu duvido, quero que minha cara vire pras costas, se não teve um filho de Deus aqui na Parnaíba e vizinhança, que não ficou com medo daquele trovão. Não foi um trovão. Foi o trovão. Foi tão forte, mas tão forte que lá na avenida São Sebastião um colega  meu se enrolou, ficou pendurado na varanda da rede, uma rede que havia comprado em Pedro II pra tirar um cochilo. Me disse que agora vai colocar no lugar das correntes, cordas. Tem medo de levar um choque elétrico.

E falando em choque elétrico, um velho lá pros lados de Bom Princípio, desses que guardam dinheiro pra gastar não se sabe com o quê, estava contando as moedas de cinquenta centavos e de um real, no escuro, justo na hora do trovão. Com o papoco a burra rasgou e as moedas se espalharam no quarto fazendo uma zoada tremenda. Aqui na vizinha os meninos pequenos se acordaram tudo mijados. Teve gente se acordando catando sem sucesso um toco de vela.

Estava quar dormindo e pouco tomei conhecimento do ocorrido. Tano eu acordado sei lá pra que lado eu havera de ter corrido! Seu Ribamar, do Pindorama, me disse que o trovão pegou ele justo tirando a dentadura pra dormir. Na hora ela caiu embaixo da cama, rolou e ele e os cachorros só encontraram no outro dia lá embaixo de uma touceira de pé de banana. Nem queira saber o que foi aquilo. Teve panela de pressão que disparou sem nada dentro lá no bairro de Fátima.

Lá pros lados do Catanduvas, onde fica o aeroporto de final de semana, uma dona de casa havia deitado uma galinha com quinze ovos e perto de tirar os pintos. Depois do trovão ela já está contando com apenas uns três porque os doze ficaram gouros. Na avenida São Sebastião, pra onde vai quem gosta de curtir a noite, na hora do trovão teve gente que se engasgou com pizza. Minha cunhada achou até que já estava morrendo.

Dona Genésia, devota de São Benedito, estava naquele cochilo bom debulhando as contas do terço, batendo os beiços e na hora, o trovão foi tão forte que quando ela olhou procurando pelo santo ele estava aqui embaixo segurando no chambre dela, branco de medo e tremendo os beiços. O menino Jesus, que São Benedito leva no colo, foi encontrado debaixo do colchão. Brincadeira não.

Agora imagine se este trovão tivesse sido assim pela manhã com aquele monte de gente se esfregando dentro do Bradesco, da Caixa Econômica e do Banco do Brasil, no Detran?! Havera de ter caído o sistema e até hoje não ter voltado! Igual essas fake news, do Bolsonaro. Foi coisa de daqui a uns cinquenta anos ainda se contar as façanhas. Se ocorrer outro trovão daqueles, a Parnaíba se esbandaia!

 

*Pádua Marques é membro da Academia Parnaibana de Letras, cadeira 24. 

 

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Professor Amstein

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O genial Gervásio Castro fez a magnífica charge do professor Amstein, sem ter conhecido o mestre, já que ele faleceu em 1948, e sem ter acesso a retrato seu. De modo que se baseou apenas nas informações de que ele era um suíço de alta estatura, avermelhado, de bigode e barbas ruivas, e de que era um professor de matemática e desenho, “colega maior e mais velho, barulhento, inconsequente e brincalhão”, como dele disse o ex-aluno Renato Castelo Branco, no seu livro de memórias Peguei um ita no Norte.

Professor Amstein

Elmar Carvalho

Ainda no início de nossa mudança para Parnaíba, em 1975, meus pais, meus irmãos e eu fomos morar no apartamento dos Correios (ECT), na Praça da Graça. Foi na placa da rua, que lhe passa pela lateral externa, que vi estampado pela primeira vez o seu nome: Rua Professor Amstein. Sempre associei-lhe o nome ao do grande físico e gênio Einstein. Por isso mesmo a minha imaginação, às vezes fantasiosa, me levou a acreditar que ele poderia ser um judeu alemão fugitivo dos nazistas. Da janela de um dos banheiros do apartamento, nas madrugadas silentes, eu vi, muitas vezes, uma nesga dessa rua deserta e a placa luminosa da revenda Poncion Rodrigues com o W estilizado da Volkswagen.

Na época em que frequentei a casa do professor Lima Couto, por ser amigo do Paulo de Athayde Couto, seu filho, meu colega de turma no curso de Administração de Empresas (UFPI – Campus Ministro Reis Velloso), ouvi novamente falar em Amstein. Lima Couto, ao me relatar fatos de sua vida, sobretudo de sua experiência magisterial, me contou que o túmulo do velho mestre e engenheiro suíço fora por ele idealizado, tomando como inspiração o túmulo do Soldado Desconhecido.

Ao visitar o Cemitério da Igualdade, em diferentes ocasiões, descobri, por conta própria ou por informações de coveiros, os túmulos da poetisa Luíza Amélia de Queiroz, à sombra de sua frondosa e bela gameleira, o de minha prima Verônica Melo, morta em plena juventude, no apogeu de sua beleza, e o do professor Alfredo Eduardo Amstein.

Nesse campo santo também foi sepultada minha irmã Josélia, falecida aos 15 anos de idade, em cujo túmulo meu pai afixou uma placa de metal com os imortais versos de Da Costa e Silva: “Saudade! Asa de dor do pensamento!” No túmulo de Amstein, consta: “Nasceu em 27 de março de 1887 – Faleceu em 30 de julho de 1948. Homenagem de seus colegas do Ginásio Parnaibano e Escola Normal de Parnaíba.”

Através do Dr. Lauro Correia, diretor do Campus e meu professor no curso de Administração de Empresas, e que foi seu aluno na segunda metade da década de 1930, tomei conhecimento de outros fatos de sua vida, inclusive de que ele morou na Ilha Grande de Santa Isabel, na mesma casa, por sinal, em que nascera Evandro Lins e Silva, ministro do Supremo Tribunal Federal.

Portanto, eu sabia que Amstein, engenheiro suíço, de porte avantajado, de vastos e bastos bigode e barba ruivos, era um tipo bonachão, um grande contador de estórias e fatos anedóticos, em que a fantasia parecia se misturar com a verdade, em que a ficção se mesclava a fatos reais. Tive certeza disso quando li o capítulo O professor Amstein, do livro Tomei um ita no Norte, de Renato Castelo Branco, com quem, em minha juventude, cheguei a me corresponder por cartas. Dessa obra memorialística extraio os seguintes trechos:

“… Mas ele era bom e todos gostávamos dele. Não como um professor, a quem se respeita, mas como um colega maior e mais velho, barulhento, inconsequente e brincalhão. // … Suas histórias, geralmente episódios de sua vida, eram ricas, férteis, cheias de pitoresco e de surpresas. Sentia-se que refletiam a verdade. Mas não apenas a verdade. A parte verdadeira as tornava plausíveis. Mas sentíamos que estávamos sendo mistificados, que Amstein enriquecia suas aventuras, que inventava, que acrescentava fatos, acontecimentos, detalhes imaginários. // Onde terminava a verdade e começava a fantasia? Sabíamos que ele mentia. Mas, como o Taubelman de Michel Deon, não sabíamos quando. Pois ele vivia em um mundo a um tempo real e imaginário, do qual era uma espécie de mágico, a nos deslumbrar. // Até mesmo a maneira como viera esbarrar em Parnaíba tinha esta marca de mistério e meia-verdade. Um dia o Diretor do Ginásio Parnaibano recebera um telegrama de Amstein, declarando-se engenheiro suíço, professor de matemática, e disposto a aceitar o convite para lecionar no Ginásio. O Diretor jamais lhe fizera qualquer convite. Nem tampouco o conhecia. Mas precisava de professor e contratou-o. // Assim chegou Amstein em Parnaíba, a cuja vida se incorporou, enriquecendo sua cultura e seu folclore. Deixou muitos amigos. Mas já chegou montado em uma meia-verdade.”

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Foto extraída da dissertação de mestrado da professora Maria do Socorro Meireles Rodrigues, cujo arquivo em PDF me foi enviado pela professora Juliana Lacet, que desenvolve uma pesquisa sobre a advogada Catarina Moura, que foi esposa de Amstein. Na foto aparece o corpo docente do antigo Ginásio Parnaibano. Acreditamos que Amstein não esteja nessa foto, uma vez que não aparece nenhum professor com bigode e barba.

No livro Cada Rua – Sua História, de Caio Passos, sobre as ruas, avenidas, praças e outros logradouros de Parnaíba, no local apropriado, encontro muitas informações sobre o velho professor Amstein, que corroboram o que sobre ele eu já sabia, além de outras que desconhecia. Entre estas, tomo conhecimento de que ele gostava de cavalgar e de cultivar suas hortas. E de que falava amiúde das belezas de sua pátria, louvando-lhe as belezas naturais, sobretudo “as edelweiss, uma linda flor branca dos Alpes”, que certamente lhe enchiam o peito de saudade e lhe faziam relembrar as níveas neves alpinas.

Dois ou três dias atrás, mediante comentário em meu blogue e de notificação em minha página no facebook, pude fazer contato com a professora e historiadora Juliana Lacet, que me pediu informações sobre Amstein, uma vez que ela está fazendo uma pesquisa sobre a vida de Catarina Moura, que foi sua esposa, de cujo casamento nasceram duas filhas e um filho, falecido aos vinte e poucos anos. Catarina foi uma mulher avançada para sua época. Advogada, escreveu vários artigos em defesa da mulher e de seus direitos. Ela era natural de Paraíba do Norte, hoje cidade de João Pessoa. Amstein era filho do cônsul suíço em Recife. Portanto, não era fugitivo dos nazistas, como a minha imaginação me fizera suspeitar.

Em meados dos anos 1980, creio, comecei a escrever uma série de poemas sobre figuras populares, anedóticas e folclóricas de Parnaíba, que faziam parte do cenário cultural, pitoresco e histórico dessa cidade. Mensalmente esses textos eram publicados, com esmeradas ilustrações de Flamarion Mesquita, no jornal Inovação. Flamarion é, como já disse, uma flama flamejante de talento. Em 2009 reuni esses poemas, que tinham o título geral de PoeMitos da Parnaíba, e os publiquei em livro, com geniais charges policromáticas de Gervásio Castro e um esmerado prefácio de Cunha e Silva Filho. Mas desde o início achei que entre eles deveria constar um sobre o professor Amstein. Não sei ao certo porque não o fiz. Acho que me faltou engenho e arte para retratar o velho engenheiro suíço.

Agora, muitas décadas depois, motivado pelos fatos acima relatados, escrevi esse desejado poema sobre o inesquecível professor Amstein, que segue abaixo (e que integrará doravante os meus PoeMitos da Parnaíba), como uma homenagem a essa instigante e fulgurante figura humana, humana no melhor e mais completo sentido da palavra:

            AMSTEIN

Elmar Carvalho

O professor Amstein,

com seu vasto bigode

e densa barba ruiva,

alto, forte, avermelhado,

chegou a Parnaíba montado

no árdego Pégaso da mistificação.

Assumiu emprego no

Ginásio Parnaibano e na Escola Normal.

Professor de desenho geométrico e matemática,

fazia suas métricas e matemágicas

em suas fantásticas e fantasiosas histórias.

Engenheiro e da Suíça, era um verdadeiro

canivete suíço: polivalente, pau para toda obra,

homem de sete ou mais instrumentos, substituía

qualquer dos professores faltosos.

Novo Barão de Munchausen

recheava suas aulas e recreios

com seus anedóticos e mirabolantes “causos”,

menino grande entre os demais meninos,

“barulhento, inconsequente e brincalhão”,

no dizer do ex-aluno Renato Castelo Branco.

Para sempre restou em sua mente a saudade

de Edelweiss, a divina e linda nívea flor dos Alpes.

Stephen Hawking – uma tentativa (nada científica) de refutação

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Stephen Hawking – uma tentativa (nada científica) de refutação

Elmar Carvalho

Inicialmente, devo dizer que reconheço a imensa inteligência de Stephen Hawking e o seu extraordinário preparo científico e intelectual, assim como a sua notável capacidade de superação diante de sua doença atroz (ELA – Esclerose Lateral Amiotrófica), que lhe limitou a capacidade de locomoção e lhe criou tremenda dificuldade para se comunicar, vindo a precisar dos equipamentos que utilizava para o exercício do magistério e elaboração de seus livros, todos ou quase todos best sellers mundiais.

E mais do que tudo isso, reconheço a minha incipiência (ou mesmo insipiência) científica, razão pela qual disse que isto é apenas uma tentativa nada científica de refutação, no caso a algumas de suas frases ou hipóteses expostas no capítulo 1 – Deus Existe?, integrante de seu livro “Breves respostas para grandes questões”.

Ele mesmo revela a sua perplexidade, quando exclama: “Como pode um universo inteiro repleto de energia, da espantosa vastidão do espaço e de tudo que há nele simplesmente surgir do nada?” Contudo, em outro ponto desse capítulo ele afirma: “Na minha opinião, a explicação mais simples é que deus não existe.” É de se observar que ele foi humildade ao consignar que a afirmativa é na sua opinião, pelo que não foi peremptório. Todavia, como a corroborar sua hipótese, em outro trecho ele diz: “Sou da opinião de que o universo foi criado espontaneamente, do nada, segundo as leis da física”.

Contrariamente ao que ele diz, não acho que a inexistência de Deus seja a explicação mais simples. Muito pelo contrário, afirmo que a explicação mais simples é exatamente a existência de Deus. Como o nada poderia criar o tudo que existe, tão complexo quanto tão bem ordenado? Como disse alguém cujo nome não recordo, a possibilidade de o tudo que existe surgir do nada é a mesma de uma enciclopédia (ou dicionário que seja) ser criada por uma explosão tipográfica, principalmente quando os livros eram impressos através de uma composição tipo por tipo, letra por letra.

Como disse em velho poema de minha autoria, cujo título é “Deus, Deuses e o Nada”, o nada não cria nada, porque o nada é nada, e somada com nada é nada, e multiplicado por nada é nada. E se o nada criasse alguma coisa esse nada não seria nada: seria alguma coisa, seria mesmo um deus criador. E a esse deus-nada eu tiraria o meu chapéu, que sequer tenho, mas tiraria.

Portanto, em hipótese nenhuma, posso crer que o nada pudesse criar algo, ainda muito menos a vida, a vida que eu considero o maior de todos os milagres. O excelso bardo Manuel Bandeira, em notável poema elegíaco, disse também que “A vida é um milagre”, conquanto tenha afirmado melancolicamente no seu final: “– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres”. Contudo, para mim e para milhões de outras pessoas a morte é apenas o portal para uma outra vida.

O grande cientista reconhece que “O grande mistério no coração do Big Bang é explicar como um universo inteiro e fantasticamente imenso de espaço e energia pode se materializar do nada.” Para mim isso também é um grande mistério, e mais do que isso, uma impossibilidade; bem por isso, acho mais razoável acreditar no divino Criador, como disse no meu poema Mística I: “E Deus estava lá / por trás de tudo: / logo após em regressão / a explosão do átomo primordial.”

Em outro local do capítulo em debate, o ilustre sábio parece se contradizer, ou pelo menos ter dado um breve cochilo (ou o erro teria sido do editor ou do organizador do livro?): “O que pode ter causado o surgimento espontâneo de um universo? Inicialmente, parece um problema desconcertante — afinal, as coisas não se materializam do nada.” Nesta parte final de sua frase, concordo na íntegra com ele: de fato, as coisas não se materializam do nada.

Para a contradição apontada acima se tornar mais clamorosa, veja-se este outro trecho: “descendo ainda mais até o nível subatômico — e adentramos um mundo onde criar algo a partir do nada é possível.” Sim, no “nível subatômico” talvez seja mesmo possível “criar algo a partir do nada”, mas, então, pergunto: E quem teria criado o tal “nível subatômico”? Acaso, não teria sido Deus? Ou teria sido um outro “nível subatômico”, e assim por diante até o infinito?

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No capítulo seguinte (2 – Como tudo começou?), ele parece reconhecer que a ciência ainda tateia no meio das trevas das dúvidas e incertezas, quando se reporta ao chamado princípio da incerteza: “Parece haver um certo nível de aleatoriedade ou incerteza na natureza que não é passível de eliminação, mesmo com as melhores de nossas teorias. Isso pode ser resumido no princípio da incerteza, proposto em 1927 pelo cientista alemão Werner Heisenberg.” (…) “Quanto mais precisa for a previsão da posição, menos precisa será a previsão da velocidade, e vice-versa.” Sobre esse princípio, tive a oportunidade de dizer, em entrevista concedida à professora e escritora Teresinha Queiroz, contida no meu livro Lira dos Cinquentanos (2006): “Parece-me que o princípio da incerteza termina sendo o princípio da certeza da existência de Deus. Embora correndo o risco de estar dizendo uma aberração, de estar cometendo uma heresia científica, creio que esse princípio é a maneira como Deus interage com a sua criação, é a parte destinada às leis espirituais e às orações. Caso contrário, Deus seria apenas, hoje, um mero observador passivo de sua própria criação, sem o poder de interferência, proibido por si mesmo de interferir.”

Apesar de todos os percalços que a vida nos causa a nós todos, de todas as suas limitações físicas, de locomoção, de comunicabilidade, de todos os seus sofrimentos por causa de sua doença, Stephen Hawking asseverou: “Temos apenas esta vida para apreciar o grande plano do universo, e sou extremamente grato por isso.” Com relação à primeira afirmativa, devo dizer que creio na continuação da vida, e no referente à segunda, não sei a que ou a quem ele seria grato. De qualquer sorte, foi um ser humano luminoso, bem-humorado e generoso, e teve notáveis insights, que lhe fizeram merecedor dos inúmeros títulos e honrarias que recebeu.

Para finalizar esta pretensa e despretensiosa refutação, catei mais esta asserção de sua lavra: “Não podemos voltar a um tempo anterior ao Big Bang porque não havia tempo antes do Big Bang.” Como Hawking não ousa afirmar de onde teria surgido o Big Bang, ouso eu: a grande explosão e tudo o mais que existe foram criados por Deus, assim como o tempo, anterior ou não ao Big Bang.

E se me perguntarem quem criou Deus, simplesmente direi: nada e nem ninguém. Deus é o eterno e incriado Criador. E é por isso que o chamamos Deus. É o que é, é em essência, é a pura existência. EU SOU O QUE SOU (Êxodo 3:14).

Furna da Onça

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Dom Augusto da Munguba e Dourado na frente do saudoso bar Recanto da Saudade, que para sempre ficou na saudade.

Furna da Onça

Elmar Carvalho

Por ocasião da Expedição ao Sertão Colonial, na velha Oeiras, disse ao amigo José Augusto Nunes, ex-presidente da Agespisa, que, muitos anos atrás, quando passava por Oeiras, em viagem de fiscalização da SUNAB, a caminho de São João do Piauí ou São Raimundo Nonato, ao ver o bar Furna da Onça, me dava uma vontade de tomar uma dose da “branquinha”, mas nunca o fiz. De sorte que esse meu pequeno sonho de consumo ficou mesmo como apenas um sonho frustrado e nada mais. Me respondeu ele que eu ainda iria realizar esse desejo, embora hoje a Furna tivesse cerrado suas portas. Agora, recebo dele o seguinte e-mail, pelo qual constato que jamais matarei essa minha vontade:

“Conheci Martinho muito cedo. Desde a época da sua labuta no campo, no bar que montou e fechou, por não suportar ébrios cuspindo no seu ambiente. Na eleição que tio João Nunes perdeu para Valdemar Freitas, elegeu-se vereador do município de Oeiras. Presenciei acalorados debates, no espaço reservado à Câmara, na antiga prefeitura situada na praça Costa Alvarenga. Martinho era sempre muito sereno, lúcido e seguro em suas afirmações. Em 1993, quando também me elegi vereador, pude conviver mais de perto com ele por intensos 04 anos. Foi um tempo de muito aprendizado.  Certa vez, ao encontrá-lo no gabinete da presidência da Câmara, disse-me que os maiores problemas que enfrentamos na vida são sempre os caseiros.  Isso é verdade, ele tinha razão! Desde quando iniciei o meu mandato de vereador, nunca mais me distanciei de Martinho.  Sempre que ia a Oeiras, era certo encontra-lo na calçada de sua casa para uma prosa agradável, mesmo se tratando de um homem de poucas palavras. Educou, formou filhos e também sofreu a dor maior de um pai ao perder dois deles precocemente. A partida do Martinho, para o encontro com o pai celestial, deixa um vazio para toda cidade, especialmente para a família e amigos. Amigo como eu, que não o encontrará mais na sua calçada, olhando para a bela paisagem do café Oeiras, coreto e cine teatro.   Doravante terei de me acostumar sem as suas lições. Saudades, Martinho.”

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Respondi ao prezado fidalgo José Augusto Nunes da seguinte maneira:

“Caro amigo José Augusto (e aqui me lembro dos dois José Augusto, o velho e o novo, cantores de minha admiração, tanto pelo repertório, quanto pela voz, que ouvi tantas vezes em disco de vinil, nas velhas “radiolas” de outrora.

O novo já ficou velho, assim como eu estou ficando ou já fiquei, e o outro partiu para o infinito e para a eternidade, há muitos anos, precocemente.

Ainda haveremos de desbravar a Furna da Onça, para tomarmos uma boa talagada de uma excelente calibrina, oportunidade em que daremos uma discreta (ou não tanto) cusparada no pé do balcão.

Eu já tive a minha “furna da onça”, em Parnaíba. Era o bar do comandante Augusto, que ficava no bairro Munguba, perto de onde “as águas podres da vala da Quarenta tomam banho nas águas puras do Igaraçu”, como disse num de meus poemas. Nesse boteco apenas eram tocados os velhos bolachas de borracha, mas exclusivamente pelas mãos do Augusto, que tinha ciúme de sua vitrola, e principalmente de seus discos. Escrevi um poema sobre esse saudoso bar, que segue abaixo.”

Eis o soneto a que me referi:

BAR DO AUGUSTO

Elmar Carvalho

No bar do Augusto

o passado era sempre presente,

e o futuro a Deus pertence.

No Recanto da Saudade

de outra dimensão do espaço-tempo

o Dourado continua a vestir a fantasia

de a sua própria pessoa ser ou não ser

heterodoxos heterônimos pessoanos.

Onde, agora, o Augusto?

Onde, agora, a vitrola, a música e o bar?

Como nos versos sublimes de Bandeira,

ficaram de pé, suspensos no ar. . .

Encantados no destempo de um tempo

sem passado, sem futuro, sem presente.

Gancho de tirar balde. * Pádua Marques

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No tempo que a Parnaíba era feito um buraco e nesse buraco não havia água que prestasse pra se beber, porque não havia água encanada, quase todo mundo, quase toda família tinha um poço no fundo do quintal. Poço que dava água da boa, limpinha e cristalina que quando trazida pra dentro do pote ou do filtro pra se beber, era coisa de causar refrescância na garganta e nos peitos.

Água pra lavar fundo de rede e roupa de todo mundo, lavar penico, prato, caneca, cozinhar, fazer café, tomar banho, aguar planta e até de vez em quando jogar no cachorro pra espantar as pulgas, molhar a pasta antes de escovar os dentes e outras tantas coisas, que se eu pego a contar não saio mais daqui hoje.

Em casa onde havia muita criança a mãe corria era estreito na hora de lavar tanta roupa e as redes na beira do poço. E pra quem um dia foi menino, a hora de encher os potes era uma missão dolorida quando se era preguiçoso. Porque nesse tempo ninguém sabia o que era água encanada e se ninguém sabia como era que a água passava dentro dos canos, calcule só conhecer uma torneira.

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Eu vim conhecer uma torneira já quando havia trocado os dentes, quando fui um dia na casa de uma minha professora, dona Evangelina, filha do doutor João Silva. Foi uma maravilha aquela coisa de ferro saindo água por aquele bico fino. Aquilo só podia ser coisa de americano ou de gente que tinha muito dinheiro. Mas a história hoje é outra. Naquele meu tempo tudo que não agradava a gente ganhava logo um apelido. E um apelido pra quem era muito magro era gancho de balde.

Toda casa que tinha poço tinha que ter um gancho de tirar balde. Ou mais de improviso, um arame de tirar balde. Era feito de ferro ou de arame grosso e servia pras emergências quando o balde por qualquer razão caia no fundo do poço. Lá estava aquele monte de gente falando ao mesmo tempo, uns dando ordens, outros alarmando, outros falando nome feio, as mulheres botando os meninos pra dentro. Porque descuido em beira de poço é coisa de esfregar um olho e se está lá no fundo!

Gancho de tirar balde era assim feito aquele último recurso, um SAMU de poço. Caiu um balde e lá se corria a mão atrás dele na cozinha, na oficina ou na despensa. Vivia enferrujado, esquecido, todo danado, mas era cair um balde e lá estava ele, pronto. E o pior era quando o balde caia de borco. Danação. Horas e mais horas naquela tentativa de desvirar o bicho, botar a boca do balde pra cima. A paciência se esgotando.

Até que se resolvia de alguém, um menino desses bem danados de preferência, haveria de descer e desemborcar o balde e subir com ele. Descido e feito o serviço, lá subiam ganhando palmas e mais palmas, o menino, o balde e o gancho de balde. A gente espera daqui de cima e de fora, que não seja necessário, quando alguns prefeitos caírem no poço da gastança dentro de mais alguns meses, usar o arame de balde. Porque dá um trabalho danado tirar governo ruim do fundo do poço. * Pádua Marques, cadeira 24 da Academia Parnaibana de Letras. 

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Expedição ao Sertão Colonial

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Expedição ao Sertão Colonial

Elmar Carvalho

  1. AMARANTE

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Na quinta-feira, dia 17, recebi telefonema do des. Carlos Brandão, em que me convidava a participar da “Expedição Sertão Colonial”, a ser iniciada no dia seguinte, pela manhã. Me falou do cronograma e objetivos da viagem. Ao final de seus argumentos, com que procurou me convencer a aderir à empreitada, disse-lhe: “Temo não poder participar, vez que vendi minha picape ao meu filho, que mora em Manaus”. Mas ele me respondeu que me conseguiria uma carona, pelo que fiquei sem motivo para dela não participar. Em virtude de eu lhe ter falado sobre um antigo projeto meu para a cidade de Amarante, ele me disse que me facultaria a palavra, no momento das falações.

Quando cheguei ao parque da Floresta Fóssil (ponto de encontro para a saída), conduzia um exemplar de meu pequeno romance Histórias de Évora, para ofertar a algum amigo. Logo fui abordado por uma pessoa que ficou interessada e curiosa sobre o livro e seu conteúdo. Em rápidas palavras, lhe expliquei que a Évora de minha ficção era uma cidade fictícia, misto de Parnaíba e Campo Maior dos anos 1960/1980, bem como, em menor escala, de outras urbes de nosso estado.

Acrescentei que, como pano de fundo, ele tratava um pouco da história recente, econômica e social do Piauí, sobretudo da decadência do extrativismo econômico e da agonia, paixão e morte dos velhos cabarés, que outrora incendiavam o imaginário dos adolescentes e jovens. Como propaganda, afirmei que se ele superasse os três capítulos iniciais, leria todo o romance. De fato, alguns minutos depois, o professor universitário Samuel Pontes do Nascimento (era este o nome de meu potencial leitor), me falou haver lido o primeiro capítulo, e me asseverou que prosseguiria em sua leitura. Numa época de escassos leitores, isso me soou como um elogio.

Após o café na Floresta Fóssil de Teresina, e depois de uma elucidativa palestra sobre o projeto de revitalização desse ponto turístico e de pesquisa, inclusive com a construção de novos e importantes equipamentos para essa finalidade, seguimos para a cidade de Amarante, com parada inicial no parque ecológico e turístico da Cachaça Lira, onde poderíamos sorver dois ou três tragos dessa deliciosa pinga. Em seu restaurante degustamos um saboroso jantar.

No passeio e jardim da margem piauiense do Parnaíba, houve vários e pertinentes pronunciamentos, entre os quais o do médico e intelectual Francisco (Tatá) Almeida, que é meu velho conhecido. Em seu consultório ele tem uma bela e enorme escultura do excelso poeta Da Costa e Silva em postura declamatória. Tem na cabeça minuciosa biografia de Da Costa, um verdadeiro livro virtual, que espero seja publicado na internet e no formato impresso. Discorreu sobre aspectos interessantes e pitorescos da vida do grande vate, e lhe recitou de cor alguns poemas, em mais de uma ocasião de nosso périplo amarantino.

Quando terminaram os pronunciamentos, previamente programados, o des. Brandão abriu espaço para que eu falasse do que há várias décadas eu havia idealizado. Subi à tribuna improvisada, no caso a borda de um canteiro da pracinha, e de forma muito sucinta disse que estivera em Amarante várias vezes, desde a primeira metade dos anos 1980, tanto a serviço da extinta Sunab, como para participar de eventos culturais. (Inclusive, acrescento agora, em minha gestão como presidente da União Brasileira de Escritores do Piauí – UBE-PI promovi um encontro de escritores nessa bela terra azul do nosso poeta maior, quase uma ilha, na verdade um jardim incrustado nas confluências do Mulato, do Canindé e do Parnaíba, cercado pela beleza azul das serras e colinas, que o grande bardo tanto exaltou em magníficos versos.)

Falei que, no período 1988/1990, na qualidade de presidente da UBE-PI, encetei uma campanha para que os restos mortais de Antônio Francisco da Costa e Silva (1885 – 1950) fossem sepultados em Amarante, sua terra natal; que no cemitério do Rio de Janeiro, por maior que ele tenha sido, e ele de fato é um dos maiores poetas brasileiros, seu túmulo é apenas mais um túmulo entre milhares, mas que em seu torrão seria visitado e reverenciado por milhares de piauienses e amarantinos. Usei, trinta anos atrás, como fundamento de minha campanha, o seu próprio desejo, expresso no segundo terceto do soneto Amarante: “Terra para se amar com o grande amor que tenho! / Terra onde tive o berço e de onde espero ainda / sete palmos de gleba e os dois braços de um lenho!”

Portanto, defendi a ideia de que seja construído em Amarante um mausoléu e memorial, de preferência com auditório, estátua e placas modernas, com ilustrações, em que seriam estampados alguns de seus poemas antológicos, bem como poemas de outros autores sobre ele e sobre a sua bucólica cidade. Como alguém aparteou, lembrando que o embaixador e poeta Alberto da Costa e Silva é contra esse traslado, o escritor e historiador Reginaldo Miranda, de forma certeira, concisa, precisa e incisiva disse que não haveria problema; que o mausoléu ficaria como um símbolo. Então, retomando a palavra, disse que o monumento ficaria com um espaço reservado, à espera de que, no futuro, fosse possível a vinda das cinzas do grande bardo, para o cumprimento de seu desejo.

Estivemos ainda na frente do Museu Odilon Nunes, que foi um dos maiores historiadores do Piauí e do Brasil, para homenageá-lo e para abraçar, simbolicamente, o vetusto casarão. Nele não pudemos entrar, pois suas portas se encontravam fechadas. Tivemos a informação, não sei se verídica, de que os trabalhos de pintura, limpeza e restauração já estavam concluídos, mas que, mesmo assim, por motivos não informados, essa casa cultural não fora reaberta.

A seguir, fomos nos postar aos pés da escadaria do Morro da Saudade (é assim que o chamo em homenagem a Da Costa e Silva e a seu poema Saudade), onde foram tiradas algumas fotografias dos expedicionários. Conforme constava na programação, um dos coordenadores nos convidou a subirmos os degraus, mas sem olharmos para trás, como foi bem enfatizado. Assim fizemos. Contudo, quando eu estava na metade da escalada, recebi recado de que o professor e advogado Valdeci Cavalcante, presidente do sistema FECOMÉRCIO, desejava falar comigo. Mesmo correndo o risco de virar uma estátua de sal, como no episódio bíblico da mulher de Ló, resolvi olhar para trás, para atender o pedido, pois acreditava tratar-se de algo importante.

E realmente foi algo muito, muito importante. Quando cheguei, o Valdeci, que conversava com o advogado Márcio Freitas, apontando para um terreno que havia no sopé do morro, exclamou: “Bem aí, nesse terreno desocupado, vou construir o mausoléu e memorial em homenagem ao grande poeta Da Costa e Silva”. Não posso dizer o quanto fiquei feliz e emocionado, ainda mais porque Valdeci Cavalcante sempre cumpre as suas promessas, ao contrário de muitos políticos e falastrões. O dr. Tatá, após retornar da subida ao mirante, disse que iria pedir ao artista plástico Hostyano Machado que fizesse o projeto, para entregar ao grande mecenas da cultura piauiense. Pedi-lhe que o fizesse o mais rápido possível, para aproveitarmos a boa vontade de Valdeci e a disponibilidade orçamentária e financeira da FECOMÉRCIO.

Quando olhei o velho casarão que existe na esquina, perto do início da escadaria, ensombrado por grande oitizeiro, recordei da primeira vez em que estive em Amarante, ainda jovem e entusiasmado, com a vida e com a poesia, que então, estuante, me borbulhava no cérebro, como o gênio em Castro Alves. Três décadas atrás, havia um hotel instalado nesse prédio solarengo. E eu imaginava que nele havia fantasmas de poetas mortos, e gorgolejos e golfadas de afogados nas águas traiçoeiras das enchentes do Velho Monge.

Não pude deixar de lembrar um episódio que vivi nesse casarão. Numa fria e silenciosa madrugada acordei com forte vontade de urinar. Com medo desses fantasmas, tentei me conter, chegando mesmo ao cúmulo de ainda procurar um urinol. Apesar do heroico esforço, não pude resistir, e mesmo com medo enfrentei o longo corredor fantasmagórico, até encontrar o mictório. Durante o ato fisiológico, comecei a ouvir uns penosos gemidos. Pensei, de início, fossem de algum moribundo ou doente, mas logo os associei a almas penadas de poetas ou de afogados, como nos poemas de Argila da Memória, do amarantino Clóvis Moura, notável poeta e sociólogo dos melhores.

Incontinenti, tratei de retornar ao meu dormitório, em passos apressados, fustigado pelo sobrosso. De manhã, na hora do café, o mistério foi desfeito. Soube, então, que no quarto próximo ao banheiro dormira (ou melhor, passara a noite) um casal em plena lua de mel. Logo vi que não se tratava de almas penadas, mas de almas “penando” nos entreveros do amor e da paixão.

Quando estive na ribanceira do Parnaíba, me lembrei de longínqua tarde em que lá estive, a degustar umas talagadas de pinga com água tônica, em companhia de meu amigo e poeta Virgílio Queiroz, a conversar sobre cultura e poesia, a que não faltaram as indefectíveis anedotas, de preferência amarantinas. Nenhuma folha se mexia naquela tarde morna e parada. Mas, de repente, veio um pé de vento, que farfalhou na frondosa árvore, sob cuja sombra estávamos, e sacudiu as faveiras da proximidade, que passaram a emitir uma toada de chocalhos e guizos.

Em minha mente surgiram os índios alegres da região, que cantavam e dançavam ao som dos maracás, e que outrora perlongaram as barrancas sinuosas do Velho Monge. Talvez esse momento de insight ou mesmo epifania tenha sido a gênese de meu poema Amarante, em que perpassa o farfalhar do vento nas faveiras e nos ciprestes, em que a água gorgoleja e “boceja nas bocas de lobo dos esgotos” e “gargareja nas gargantas gosmentas dos gargalos”, e deriva singular para as águas plurais do Parnaíba.

E eu não pude deixar de sentir saudade do rapaz que eu fui, algumas vezes ingênuo, mas sempre tão cheio de sonhos, tão sentimental e emotivo, em que a poesia, a me arder na alma, parecia me consumir. E como terapia e catarse, eu tive que escrever os versos que escrevi.

  1. OEIRAS

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Chegamos a Oeiras na boca da noite do dia 18. Fomos conhecer o museu do Sobrado Major Selemérico, no qual estive em outras ocasiões culturais. Estava restaurado e limpo. Vi antigos móveis e sua ambientação, que me fez viajar ao Piauí colonial. Estavam expostos vários quadros e a galeria dos governadores republicanos. Em outro ambiente havia a pintura de quase todos os governadores provinciais (mas não os coloniais ou da velha Capitania). A partir do operoso Zacarias de Gois, seu construtor, eles governaram o Piauí provincial, tendo como palácio esse vetusto sobrado, rústico e sem luxo. Sem traumas e sem preconceitos, ali estava o retrato do Conselheiro Saraiva, o fundador de Teresina, a nova capital. Mas, também, dominava o recinto, entronado na moldura, o Visconde da Parnaíba, oeirense que governou a província por dezesseis anos.

Fui abordado na calçada do sobrado pelos vereadores José Alberto Pinheiro de Araújo, presidente da Câmara Municipal, e Francisco Espedito Nunes Martins. Me comunicaram que meu Título de Cidadão Oeirense, concedido em 2013, me seria entregue neste ano. Fiquei muito satisfeito com a notícia, e disse que o mais difícil, a concessão, já estava feito, ao que Espedito Martins retrucou: “O mais fácil… a votação foi por unanimidade”. Sou agradecido a todos os parlamentares oeirenses por essa alta honraria, que consagra a minha condição de oeirense por devoção e vocação.

Assisti com muita atenção à magnifica palestra do professor e secretário municipal de Cultura Stefano Ferreira, titulada “Interpretação do Patrimônio Cultural”. Em voz de correta dicção e pronúncia, com frases claras e bem construídas, com riqueza de detalhes e denso conteúdo, o palestrante discorreu, com notável poder de síntese, sobre diversos aspectos da cultura oeirense, tais como patrimônio arquitetônico, música, literatura, religiosidade, artesanato e costumes. Após ter visto a linda Praça das Vitórias e os bem-conservados solares e sobrados coloniais, a conferência de Stefano me fez ressurgir a Oeiras colonial, que insiste em permanecer, mesmo ante a insolência e iconoclastia dos dias atuais.

Sem dúvida foi uma das melhores palestras a que tive a oportunidade de assistir, ilustrada ainda por oportunos e elucidativos slides, e com certeza a melhor na temática abordada. E para minha maior satisfação, uma das telas projetadas estampava estes versos de meu Noturno de Oeiras: “Oeiras navega na noite / de um tempo que não termina”. Stefano teceu rápidas considerações elogiosas a esse poema. Também fez referência ao Noturno do Cemitério Velho de Oeiras.

Uma voz, não sei se do Carlos Rubem, defensor perpétuo das coisas oeirenses, ou se do Alcide Filho, exímio fotógrafo e cinegrafista, disse que eu estava presente. Como o Stefano tentasse me localizar no meio da multidão, lhe acenei, sentado em minha cadeira. Não tendo ele me visto, pediram que me levantasse. Para minha honra e contentamento, tive a alma afagada por uma forte saraivada de palmas. Obrigado a todos os oeirenses e expedicionários por esse momento ímpar na vida de um poeta menor e provinciano.

Sinto-me quase forçado a esclarecer que Noturno de Oeiras já foi entoado em diferentes ocasiões e locais da velha capital. Na solenidade de restauração do antigo fórum, na gestão do des. José Luís Martins de Carvalho, foi interpretado pelo ator Bonifácio Lima no Cine Teatro Oeiras; em certo 24 de janeiro, data magna oeirense, foi recitado entre as naves da tricentenária catedral, assim como também em seu adro. Foi declamado em rodas de poesia, documentários e em lançamento de livros. Existem clipes dele no You Tube.

Tendo escrito vários textos sobre Oeiras, além dos dois poemas citados, resolvi enfeixá-los no livro “Noturno de Oeiras e outras evocações”, que o IBENS lançou em memorável acontecimento cultural, em que foram apresentados números de dança, música e uma performance de Noturno. Um aluno do Instituto Barros de Ensino – IBENS musicou o Noturno do Cemitério Velho de Oeiras e o apresentou nessa ocasião. Essa obra foi apresentada nessa solenidade pelo advogado e escritor Moisés Reis. Sobre esse livro disse o médico Elisabeto Ribeiro Gonçalves, um dos maiores oftalmologistas do Brasil, em bela missiva: “Além das virtudes próprias do livro, que são tantas, ele me dá, de lambujem, mais uma satisfação e um encantamento: rememorar Oeiras, retornar a Oeiras, reviver Oeiras. // O livro é Oeiras encadernada, viva, palpitante. Ele me levou a Oeiras, de onde saí ainda bem jovem em busca do conhecimento que ela não poderia mais me dar. Mas não sei, não sei…”

Após essa digressão, retomo a trilha expedicionária, para dizer que por volta das 23 horas fomos ao Hotel do SESC, onde ficamos hospedados, em cuja recepção, tempos atrás, Valdeci Cavalcante mandou afixar uma grande e bela placa de metal, na qual consta o meu poema Noturno de Oeiras. Degustamos um lauto e delicioso jantar. No dia seguinte, tivemos um farto café interativo, em que o engenheiro Avelino Neiva, presidente da Codevasf, proferiu uma palestra sobre o projeto de restauração da navegabilidade do Parnaíba, inicialmente de Uruçuí até Teresina, e, em segunda etapa, se o porto for construído, até Luís Correia.

Segundo o palestrante e outros técnicos da companhia a navegabilidade é viável e pode ser restaurada, e já existe um empresário interessado e com recurso suficiente para essa empreitada. Para mim, que tenho denunciado a degradação do Velho Monge em diferentes ocasiões, bem como apontado soluções, tanto por escrito como através de minha voz, achei uma notícia auspiciosa, inclusive em termos econômicos, pois o transporte dos produtos seria barateado consideravelmente. Oxalá esse projeto se torne uma realidade. Navegar é preciso, mas salvar o Parnaíba é mais preciso ainda. Esse rio é o mais importante e imprescindível patrimônio natural do Piauí.

Após a palestra, fomos em demanda da “Fábrica dos Sonhos”, perdida num dos confins dos sertões de Cabrobó.

  1. SANTO INÁCIO E CAMPINAS DO PIAUÍ

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Seguindo a orientação de Carlos Rubem, nos deslocamos para Santo Inácio do Piauí, que outrora teve o bucólico nome de Brejo de Santo Inácio. Iríamos visitar o degradado olho-d’água. Nesse brejo, em pleno Piauí colonial, a partir de 1711, os jesuítas nele tomavam banho. Pelo que se observa em seu derredor, e pelo que se sabe da história da região, nessa época deveria ser um local totalmente isolado.

Os padres construíram a casa e a ermida em local sobranceiro, um verdadeiro mirante, de onde se observa a longa distância toda a paisagem circundante, e as faldas de morros em seu derredor. A casa foi restaurada, embora com algumas restrições apontadas pelo grande arquiteto Olavo Pereira da Silva Filho, um dos maiores peritos na área de restauração. Segundo ele me informou, três imagens de santos da igrejinha são do período colonial. Fui vê-las e deu para que eu percebesse a sua antiguidade, observável em sua textura cromática e desgastes naturais. Também observei, seguindo informação do Olavo, que o altar, em certos pontos, apresentava resquício de sua construção inicial.

Aliás, ouvi comentários de que até a década de 1960, a igrejinha dos padres da Companhia de Jesus de Santo Inácio de Loiola ainda apresentava a sua feição colonial, mas que teria sido demolida (a pretexto de reforma, ampliação e melhoramentos) para que homens gananciosos tentassem encontrar supostos tesouros enterrados pelos jesuítas, quando da ordem de confisco e expulsão da época do Marquês de Pombal. Também os comentários que me chegaram diziam que o banheiro dos padres, com as pedras formando uma espécie de caracol, também existia até cinquenta ou sessenta anos atrás; todavia, pelo mesmo motivo, foi destruído, dele só restando algumas pedras. Não sei se se trata apenas de histórias um tanto lendárias sobre os tesouros de jesuítas, que também ocorrem em outros lugares, nem tampouco se é mesmo verdade o motivo da destruição da igreja e do banheiro, que deveriam ter sido preservados como testemunhas e fontes da história do Piauí Colonial.

O banheiro dos padres fica a uma boa distância. A ida até lá foi sem problema. Mas a volta, com o sol a pino, e com a trilha em constante e implacável subida, extenuou alguns expedicionários, que tiveram de fazer paradas estratégicas, à sombra de duas ou três arvores que se destacavam no descampado. No local da vertente, houve alguns pronunciamentos, em que foi pedida a sua recuperação, através de drenagem e reflorestamento, sobretudo. Restou, ao menos, a esperança naquele sertão adusto e esquecido de que algo pode ser feito.

Seguimos para Campinas do Piauí.

Outrora, denominada Campos, ao tempo da instalação da fábrica de laticínios. De mulheres idosas, nas quais ainda remanesce um pouco da antiga e gloriosa beleza, dizem os ironistas e sarcastas, entre os quais não me incluo, que são uma bela ruína. Mas a fábrica de laticínios do engenheiro Sampaio, bastante deteriorada, é mesmo uma bela e imponente ruína, a um passo de se tornar escombros, quase uma imensa tapera, no meio de construções novas e de uma quadra esportiva, que lhe encobre a fachada, ainda majestosa apesar da incúria do poder público.

Segundo afirma e pergunta Fernando Pessoa, “Sem a loucura que é o homem / Mais que a besta sadia, / Cadáver adiado que procria?” Loucura no sentido, talvez, de sonho utópico ou de difícil realização. Nessa acepção, pelo que tenho lido e meditado, ao longo de alguns anos, o engenheiro Antônio José de Sampaio foi um sonhador e um louco. Mas foi também um realizador e empreendedor, que não soube, talvez, calcular todas as consequências de sua obra magna. Esse engenheiro, cientista, professor, escritor e poliglota, nasceu na Fazenda Ininga, hoje cidade de José de Freitas, em 9 de abril de 1857. Vejo que nasci no mesmo dia que ele, 99 anos depois. Morreu em 1906.

No meio do nada, como hoje se costuma dizer (embora, segundo muitos acreditam, o nada sequer exista) construiu o seu sonho. Para esse fim, em 26/04/1889 firmou vultoso contrato de arrendamento com o governo imperial. Nesse mesmo ano sobreveio a proclamação da República, que lhe trouxe ônus adicionais, sob alegações diversas, inclusive supostos descumprimentos de cláusulas. Comprou modernos, caros e pesados maquinários, que tiveram de ser levados até o porto de Floriano, pelo rio Parnaíba.

Levar esses pesados equipamentos e peças, no final do século XIX, de Floriano até Campos (hoje Campinas do Piauí) foi um trabalho hercúleo e uma verdadeira epopeia, como bem disseram os escritores Luís Mendes Ribeiro Gonçalves e Reginaldo Miranda, ambos da Academia Piauiense de Letras. Sem dúvida, os entraves burocráticos, as dificuldades financeiras enfrentadas pelo engenheiro Sampaio, e a condução das partes desmontadas da fábrica, em longo trecho de precárias estradas carroçáveis, enfrentando atoleiros de lama e areais, atravessando rios e riachos, dariam um belo filme épico. Para que fossem vencidos esses atoleiros usavam peles bovinas, sobre as quais passavam as ringidoras rodas de madeira. Em alguns trechos teve de abrir estradas, quebrar morros e construir pontes e pontilhões. Dezenas de bois morreram, extenuados, nessa penosa jornada.

O contrato de arrendamento previa vários ônus dispendiosos a serem custeados por Sampaio, entre os quais manter o Estabelecimento Rural São Pedro de Alcântara, construir frigorífico, fábrica de gelo, estação meteorológica; introduzir melhores raças de gado vacum, lanígero, cavalar e muar; adquirir maquinaria moderna para fabricação de manteiga, queijo, leite condensado e outros produtos,  sobre os quais não pretendo me estender, porquanto a sua simples enumeração não exaustiva é suficiente para o que pretendo concluir.

Com o arrendamento, o engenheiro Sampaio passou a administrar imensas glebas de terras e um grande rebanho de gado bovino “pé duro”, que pertenceram a Domingos Afonso Sertão e depois aos jesuítas, dos quais foram confiscados e passaram a constituir as Fazendas Nacionais. Trouxe alguns colonos italianos e suas famílias (cerca de quarenta), que por esse simples fato lhe acarretaram grandes despesas, além das salariais que adviriam. Teve que adquirir reses propícias à produção de leite, mas certamente em pequena quantidade. Como se sabe, as vacas nativas ou curraleiras produzem pouco leite, e por isso não são adequadas ao laticínio.

Mas, além de todos esses percalços econômicos, financeiros, de transporte, de pessoal, e burocráticos, que tiveram de ser enfrentados, como dito acima, a meu ver o maior problema foi o da logística. Ora, havia a imensidão de terra e o gado pé duro, adaptado à criação extensiva. Mas para o leiteiro talvez houvesse a necessidade de ração, medicamentos e outros insumos, que teriam de vir de muito longe. Teria que haver consumidores para os produtos da fábrica, que não estavam na região, que então era deserta ou de desprezível densidade demográfica, como ainda hoje o é.

Esses consumidores estavam em locais muito distantes. O porto fluvial mais perto se localizava no Estabelecimento Rural São Pedro de Alcântara, que deu origem à cidade de Floriano. Portanto, teria que ser percorrida uma distância de mais de mais de duzentos quilômetros. E os produtos teriam que ser levados em lombos de animais ou em veículos de tração animal, por trilhas rústicas, ou estradas carroçáveis, talvez impossíveis de serem percorridas no período chuvoso. De Floriano teriam que ser levados, por via aquática, até os longínquos centros consumidores. Ademais, o preço dessas mercadorias teria competitividade com as produzidas na região em que se encontrava o público consumidor?

Daí, sem querer tirar o mérito e a glória do engenheiro Sampaio, creio poder afirmar que esse lindo e grande sonho, não levou na devida conta a logística de transporte, distribuição e mercado consumidor, e os custos e despesas a que fiz referência. Por conseguinte, teria mesmo que fracassar, mais cedo ou mais tarde, quando os recursos financeiros se exaurissem e as dívidas se acumulassem. Foi um sonho megalomaníaco que malogrou, e cujo belo e imponente prédio se transformou em um magnífico ocaso, que ainda hoje ilumina a pequena urbe que nasceu em seu derredor. Contudo, parafraseando o poeta já citado, sonhar é preciso, viver não é preciso.

O edifício recebeu o abraço simbólico de todos os expedicionários. Visitamos as suas entranhas, os seus sótãos e porões, os seus alçapões mais recônditos, as suas vísceras mais esconsas, e vimos que está muito mal, como um moribundo em seu leito de morte, como um paciente em estado terminal. Houve vários pronunciamentos. O Carlos Rubem relembrou os velhos tempos em que iniciou a campanha pela sua restauração. O des. Carlos Brandão falou da importância de sua preservação. O senador Elmano Ferrer e a deputada federal Margarete Coelho prometeram envidar esforços em prol de sua restauração. O senador prometeu propor uma emenda, salvo engano, no valor de R$ 500.000,00 para esse objetivo. O prefeito Valdinei Carvalho de Macedo estava presente e também fez uso da palavra, na mesma toada e refrão.

A professora Socorro Alves, campinense, que estudou e lecionou nesse vetusto prédio industrial, falou de sua história e de suas lembranças, já que ele é parte integrante e indissociável da história e da paisagem arquitetônica e sentimental da cidade. Olhando os detalhes esmerados e ornamentais de sua arquitetura, que muito deve ao engenheiro alemão Alfredo Modrack e seus auxiliares, e, sobretudo, vendo a sua fragilizada chaminé, já sem o orgulhoso penacho de fumaça, que ostentou na época de seu fastígio, senti que o apito saudoso de sua caldeira ainda parece ecoar nesse sertão esquecido, a implorar por socorro.

Socorro que tanto tarda, e que talvez não venha, ou venha demasiado tarde, quando já nada mais possa ser feito.