Alguns bares e botecos de Parnaíba

(um pouco da vida boêmia parnaibana nos anos 70/80)

Elmar Carvalho

Eu e minha família fomos morar em Parnaíba em junho de 1975, sendo que meu pai nela já se encontrava há alguns meses antes, quando assumira a chefia da Empresa de Correios e Telégrafos nessa cidade. Em setembro desse ano fui morar em Teresina, mas no início de 1977 retornei, para cursar Administração de Empresas na UFPI – Campus Ministro Reis Velloso. Em agosto de 1982 voltei a morar em Teresina, para assumir o cargo de fiscal na extinta SUNAB – Delegacia do Piauí.

De modo que este trabalho se refere sobretudo aos anos 1970 e 1980. Como em toda relação ou lista, sempre alguém poderá dizer que houve alguma exclusão indevida. Aqui haverá, mesmo porque não tive a pretensão de fazer um trabalho longo, aprofundado ou exaustivo. Talvez algum universitário o faça, em dissertação de mestrado ou em tese de doutorado. Estou apenas dando um fraco pontapé inicial, para que outra pessoa faça mais e melhor.

Na segunda metade da década de setenta, começou a decadência dos clubes sociais. Em 1975 o Cassino já não existia. Em seu lugar foi construído o prédio da TELEPISA. A Associação Atlética do Banco do Brasil – AABB, com as suas festas e tertúlias, ainda funcionava na Praça da Graça, no local onde depois foi construída a agência da Caixa Econômica Federal, mas pouco depois se mudou para a Beira-Rio. O Igara Clube ainda resistiu por mais alguns anos. Existem (ou existiam) ainda os clubes sociais do SESC, do BNB, dos Ferroviários e dos Trabalhadores. Animavam essas festas dançantes Os Apaches, com os irmãos Fonseca Júnior e Fernando Holanda na liderança, e os Atômicos, sob o comando de Reginaldo Mendes, que também era locutor da Educadora, então a única rádio da cidade.

Nos anos 70 se tornaram moda as churrascarias. Pontificaram as churrascarias Mangueira, que como o nome sugere, tinha mesas e redes colocadas debaixo de frondosas fruteiras, tendo como piso macio areal. Era bucólica e acolhedora, mormente para casais, que procuravam os locais mais escuros e mais distantes; a Gabriela, cujo nome fora inspirado, sem dúvida, na telenovela Gabriela, de 1975, que se localizava, salvo engano, na rua Vera Cruz, a três ou quatro quarteirões da Santa Casa de Misericórdia; a Cajueiro, do Antônio José Neves, no final da avenida Nossa Senhora de Fátima, que tinha muitas mesas colocadas debaixo de enorme e esgalhado cajueiro, que dava um tom de bucolismo e rusticidade ao ambiente e a do Iran, que ficava do outro lado do Igaraçu, na Ilha Grande de Santa Isabel, perto da ponte Simplício Dias.

Na segunda metade dos anos 70, explodiu a moda das discotecas (discotheques) e da dança solta. Geralmente havia um ambiente fechado para dança, com luzes multicoloridas, piscantes e giratórias. Nesse embalo, serviu de inspiração, talvez, o filme Os Embalos de Sábado à Noite, estrelado por John Travolta, no início da carreira, e que foi exibido no Cine Gazeta, na Praça da Graça. Músicas de letras simples, próprias para esse tipo de dança solta, livre, em que os pares quase não se tocavam. Recordo que havia as discotheques Pioneer, Barbarella e uma outra na Beira-Rio. Particularmente, em termos de música de discoteca, eu gostava da Tina Charles, de timbre mais romântico e de voz aguda, cuja melodia se espalhava na noite da cidade.   

Por essa época, o extrativismo econômico já estertorava. A navegabilidade do Igaraçu e Parnaíba já começava a definhar, por causa do asfaltamento de muitas estradas de rodagens. As grandes firmas das famílias tradicionais parnaibanas já começavam a entrar em decadência. A poderosa Casa Inglesa, com filiais em várias cidades do Estado, já encerrara suas atividades. Dessas grandes empresas, que ainda conheci em atividade, todas entraram em bancarrota e terminaram falindo.

Como consequência da problemática econômica, mas sobretudo da mudança de costumes, do surgimento das “moças de programa” e do uso massivo dos contraceptivos, os cabarés começaram a ser extintos. Todavia, ainda alcancei em funcionamento, entre outros, os seguintes: os da Munguba, o da Maria das Neves (na Guarita), o Cabeça de Porco, nas cercanias da Lagoa do Bebedouro, o Rio-Chic e os da Coroa. Outros surgiram nessa época, e tiveram vida efêmera: a Velha Debaixo da Cama (na avenida São Sebastião), Beleza da Rosa e o Dallas, que ficava num banco de areia, perto do Campus da UFPI.

Da Beleza da Rosa era frequentador assíduo um boêmio, de enorme força física, um verdadeiro Hércules ou Maciste. Ao dançar, em dado momento, como um guindaste, suspendia a rapariga, segurando-a em uma das coxas e em um dos braços, e a levantava acima da cabeça; girava-a em sua dança exótica e aloprada, a se deslocar pelo salão.

Nesse mesmo lupanar, segundo uma das envolvidas confessou a um conhecido meu, duas prostitutas se apaixonaram, uma pela outra. A confidente disse ao meu colega que não sabia mais o que fizesse, pois a sua amante a estava consumindo, e ela já se encontrava exaurida, sua energia sugada pela outra, de forma que não tinha força para nada, e mesmo já não suportava esse tipo de relação. O interlocutor a aconselhou a fugir, já que ela não tinha coragem para romper com a sua amante. Não sei se ela lhe seguiu o conselho.    

Curiosamente, fora as barracas e restaurantes da praia, poucos bares comercializavam o caranguejo cozido na cidade de Parnaíba. Lembro que, entre esses poucos, se destacavam o do Cornélio, perto do Igaraçu, no final da Rua Coronel Pacífico, e o do Mário, na Beira-Rio. Os restaurantes mais chiques só vendiam o crustáceo em casquinha.

A limpeza do caranguejo era precária, de modo que ele vinha com um pouco de lama do mangue, o que lhe dava um exotismo e um sabor adicional. Era quebrado diretamente na mesa de madeira, com porretes rústicos. Muito diferente de hoje, em que se fornecem tábuas e martelos bem trabalhados para o desmonte da iguaria. Também hoje são servidos acompanhamentos de arroz e molhos, além de que os caranguejos são bem limpos e cozidos em águas com temperos.

Acrescento que eles eram vendidos, em corda de 4 unidades, debaixo da ponte Simplício Dias, nos anos 1977/1978, por um preço inferior a uma garrafa de cerveja. Com o crescimento da “exportação” para Teresina e Fortaleza, o preço começou a subir em escala rápida. Basta que se faça uma comparação hoje entre o preço de uma garrafa de cerveja (600 ml) e uma corda de quatro caranguejos.

Mas voltemos ao trilho de nosso tema.

Na Beira-Rio (Avenida Nações Unidas) ficavam os bares e restaurantes frequentados pela elite, entre os quais se destacavam: o Veleiro, o Cabana e o Navegante. Deles se contemplava a beleza do Igaraçu e da Ilha Grande de Santa Isabel.

Desde 1977 conheci o Bar do Augusto, situado na Munguba, perto da vala da Quarenta, que desaguava no Igaraçu, que passava ali perto. Instalado em um pitoresco prédio de taipa, mas bem conservado, rebocado, pintado de branco. Graças ao zelo do Augusto, sua brancura era quase sempre imaculada. Nele, outrora, funcionara um cabaré, no qual eram realizados alguns famosos bailes. De um velho texto, entre vários, que escrevi sobre ele, pinço o seguinte:

“O Recanto da Saudade não tinha esse nome, não. Era tão-somente o bar do Augusto. Eu o conhecia fazia muito tempo, desde o ocaso melancólico da Munguba, quando ali aportava em companhia de meus amigos Reginaldo Costa e Jonas Carvalho, para tomarmos uns bons goles de cerveja, tendo como tira-gosto saudosas músicas dos velhos tempos que não voltam mais.

Mesmo naquele tempo, era um ambiente familiar e de muito respeito, pois o Augusto é um cordial cavalheiro de ar sério, embora não carrancudo, que sabe imprimir ordem na casa. A sua característica principal é o proprietário ter mantido o estilo rústico do prédio e não ter aderido à moda avassaladora dos CDs, continuando fiel à sua velha radiola e aos seus antigos discos de vinil, alguns dos quais valiosas raridades e verdadeiras relíquias.

É no Recanto da Saudade, que enternecidas lembranças me traz, que ainda encontro velhos amigos do tempo de outrora e de agora, como meu compadre Airton Meneses e os radialistas e jornalistas Bernardo Silva, João Câncio, prof. Antônio Gallas, que tive a satisfação de introduzir na confraria dos saudosistas, e que hoje é um de seus mais dedicados adeptos.

O Recanto é o reduto irredutível do Dourado, misto de boêmio, músico, carnavalesco e humorista, que por ali circula desfiando suas estórias e tiradas e desfilando, a caráter, suas personagens momescas, como PC Farias e outras personalidades de uma fauna nem sempre recomendável.

O bar teve alguns pequenos e sutis melhoramentos, mas exclusivamente para o conforto da clientela, que aumentou muito nos últimos tempos, sendo comum, no final de uma tarde de sábado ou domingo, vários amigos e casais da chamada terceira idade ali aparecerem para ouvir uma música daquele tempo d’antanho, que tantas recordações e saudades deflagram na alma do ouvinte sensível.

O cliente escolhe sua música predileta, mas somente o comandante Augusto pode manipular os velhos discos de vinil, com a habilidade toda sua e insuperável cuidado. Quando deseja limpá-los, faz uso de uma longa flanela vermelha, que mais parece uma bandeira ou uma toalha.

No Recanto da Saudade é fácil recordar uma época que não presenciamos, mas que teima em se manter viva; um passado de que só temos notícia através das conversas e do Almanaque da Parnaíba, ou mergulhando nas páginas dos Vareiros do Parnaíba e outras estórias, do saudoso jornalista e escritor Souza Lima, que ainda conheci. Aliás, cheguei a ver o deputado Olavo Rebelo, debruçado sobre uma enferrujada máquina de escrever, datilografando esse precioso livro, como uma prova de reconhecimento de seu valor. Ali, ainda parecem navegar as velhas alvarengas, acaso egressas de algum poema do Alcenor Candeira Filho; ali, ainda parecem desfilar os entroncados porcos d’água e vareiros; ali, até parecem ressuscitados os antigos Bailes Azuis e as respeitadas e respeitadoras meretrizes de antigamente, bem mais respeitáveis que as moças de programa de hoje em dia. E tudo isso perpassa no romance Beira Rio Beira Vida, do insuperável mestre Assis Brasil.”

Vez ou outra, apareciam no Recanto da Saudade os saudosos cego Uchoa e o Balula. O Uchoa, sempre bem-humorado, desfiava suas anedotas e “causos” jocosos, ou engendrava suas tiradas, ao sabor do improviso, conforme o ensejo da conversa. O Balula, alourado, de olhos claros, com a sua bela voz, algo tonitruante e levemente de timbre metálico, interpretava, como um verdadeiro ator, os poemas que decorava. Antes fazia um preâmbulo, à guisa de suspense, depois, executava sua mise-en-scène, como se estivesse em um palco. Numa de suas declamações preferidas, ele dizia que iria quebrar a taça da amargura. E diz a lenda que, algumas vezes, ele chegou a literalmente quebrar, no calor de sua emotiva interpretação, algumas valiosas taças de cristal.   

O Recanto da Saudade sucumbiu, pode-se dizer, literalmente, com a morte de Dom Augusto da Munguba. Dele só restam ruínas e saudades. Talvez nem mesmo as ruínas ainda existam. Um boêmio saudosista (*), cujo nome infelizmente não guardei, e isso lamento muito, me falou que, instigado por um texto meu, plantou uma semente da vistosa mungubeira, que havia perto dele, na Praça da Graça, no entorno da Banca do Louro. E a semente já se transformara em bela árvore, que bem poderia ter uma placa em lembrança do Augusto e de seu legendário bar. Me restou também um soneto, do qual desentranho os tercetos:

Onde, agora, o Augusto?

Onde, agora, a vitrola, a música e o bar?

Como nos versos sublimes de Bandeira,

ficaram de pé, suspensos no ar. . .

Encantados no destempo de um tempo

sem passado, sem futuro, sem presente. 

Na Praça da Graça e no seu entorno existiam famosos bares, frequentados por bravos boêmios, dos quais posso citar: Bar Parnaíba e o seu espaçoso salão das mesas de sinuca, Bar do Pimpão, o bar e restaurante Acadêmico e o Bar Fortaleza, muito frequentado, no início da Rua Riachuelo.

Antes da destruição da antiga Praça da Graça havia o abrigo, no qual funcionava o conhecido Bar do Gago. No novo formato da Praça, não tão belo quanto o modelo do logradouro anterior, surgiu o Bar Carnaúba, construído com os troncos dessa árvore e coberto com as palhas dessa linda palmeira, símbolo do Piauí. Foi arrendatário dele, durante vários anos, o Osmar Linhares, famoso pelo seu “boa noite”, mesmo que fosse durante um bom e belo dia.

No bairro Coroa, mais ou menos entre a Rio-Chic e a Beira-Rio, costumava ver o Bar Corujão da Meia Noite. Como o seu nome indica, funcionava até tarde da noite. Ficava perto dos pequenos cabarés que funcionavam em seus arredores. Era um típico e pequeno boteco, pitoresco por ser todo de tábuas. Os clientes ficavam ao relento, a céu aberto, a ver estrelas. Se chovesse, os fregueses tinham que suportar os pingos d’água. Só havia lá fora; lá dentro só ficavam os utensílios, os tira-gostos e os litros de bebida. Embora o achasse interessante, nunca fui seu freguês. Assim como não o fui de um bar, que havia perto de um bueiro, nas imediações da capela da Avenida Nossa Senhora de Fátima. Este tinha uma grande clientela, que ficava ao pé do balcão, ou num pequeno alpendre que dava para a avenida.

Durante um ano ou dois, eu e o jornalista B. Silva, aos sábados, gostávamos de tomar três ou quatro cervejas no Bar do Cajueiro, localizado na Avenida Piauí. Praticamente o bar era o próprio cajueiro, pois a mesa ficava debaixo dessa frondosa fruteira, que dava uma refrescante sombra, que mais se tornava refrescante pela brisa, que sempre havia. Desse bar, disse o historiador e escritor Vicente Araújo (Potência), numa de suas tiradas, que era nele que o vento fazia a curva.

No final dos anos 70 e começo dos oitenta, frequentei algumas vezes o bar do senhor Raimundo ou Raimundão, por causa de sua altura, que ficava na beira da Lagoa do Bebedouro, à margem da estrada que vai para Rosápolis. Na época a lagoa não fora urbanizada e havia poucas casas no seu entorno. Os conjuntos habitacionais ainda não haviam sido construídos. De lá se tinha uma bela vista da lagoa. O boteco era rústico, mas o dono era acolhedor. No quintal havia umas palmeiras e uma enorme e frondosa amendoeira, que nos deu sombra e beleza, no dia em que debaixo dela comemorei a conclusão do meu curso de Administração de Empresas.

Quando meus pais moraram perto da Praça da Santa Casa, fui algumas vezes ao bar dos irmãos Vasconcelos, que ficava no início da Avenida Capitão Claro. Ficava quase colado à antiga agência da empresa Marimbá, em cujos ônibus viajei tantas vezes para Teresina ou vice-versa. Na realidade um dos irmãos era o dono e o outro, seu empregado e hóspede, posto que morava na casa do primeiro. Já eram idosos nessa época. Eram dos Vasconcelos da Ibiapaba, de Ubajara ou Tianguá. Quando um morreu, logo em seguida morreu o outro.

Defronte ficava um posto de combustível, em cuja dependência lateral funcionava um outro barzinho, de propriedade de um irmão do Raimundo (da Lagoa do Bebedouro), bastante frequentado no final dos anos 70. Próximo dali, mais precisamente perto do Mercado Central, havia o bar e lanchonete Cascatinha, aberto a noite toda. Nesse estabelecimento, tanto os boêmios bebiam, como tentavam matar a ressaca com caldo de carne ou outras comidas mais substanciosas.

No final da década de 70, a Lagoa do Portinho era pouco frequentada. Existia uma rústica churrascaria e as margens da lagoa ostentavam uma densa floresta de cajueiros. Debaixo deles, na companhia de familiares e alguns bons amigos, comemorei minha aprovação para fiscal da SUNAB, hoje extinta. Certo dia, voltando da praia, estive nessa churrascaria. A natureza se mostrou muito caprichosa nessa tarde inesquecível; em momentos chovia, em outros fazia sol, tornando as cores cambiantes; ora fazia frio, ora calor. Tarde mágica, em que ainda havia uma belle de jour, que me inspirou o poema “Mulher na Lagoa do Portinho”, do qual estampo os seguintes versos:

Na tarde antiga

de sol e bruma

de luz e penumbra

as dunas mudaram

de cores e formas.

Os belos olhos esplendentes –

pálidas cálidas opalas ou

esmeradas esmeriladas esmeraldas –

da mulher bonita

de sinuosas dunas e viagens

furta-cores furtaram

outros tons e sobretons.

Perto (e no lado esquerdo) da ponte que antecede o antigo povoado de Morros da Mariana ficava o barzinho de dona Maria, companheira do senhor Raimundo, parente do Reginaldo Costa, do jornal Inovação. O senhor Raimundo gostava de tomar uma cachaça, muito forte, uma verdadeira “serrana”, por ele fabricada, num alambique instalado numa propriedade sua, vizinha. Em momentos agradáveis de minha juventude estive nesse boteco algumas vezes, em companhia do Canindé Correia, do Vicente Araújo (Potência), do Reginaldo Costa e do B. Silva.

Em minha crônica evocativa de meu saudoso amigo Canindé Correia, recordei esse tempo de música, poesia e alegria: “Num barzinho, que ainda existe, quase debaixo da ponte, imediatamente antes do então povoado de Morros da Mariana, degustávamos saborosos caranguejos, que chegavam fresquinhos, ainda cobertos pelas belas e grandes folhagens do mangue; o igarapé, por onde os crustáceos chegavam, em pequenas canoas, passava em frente ao boteco, e aumentava a sedução e a beleza da paisagem.” 

Na rua 19 de Outubro, perto do Bar do Cornélio, localizado no final da Rua Coronel Pacífico, ficava (ou fica) o Bar do Cheira Mijo. Boteco rústico. O cliente tomava sua bebida quase sempre em pé, ao redor do balcão. Ali perto fica o Porto dos Tucuns, onde, outrora, atracavam muitos barcos, procedentes das ilhas e povoados do Delta do Parnaíba. Os porcos d’água ou embarcadiços urinavam nessa rua ou nas adjacentes, de modo que passaram a chamar a artéria de “rua do cheira mijo”, donde se originou o pitoresco nome do bar. Perto ficavam alguns casebres e cabarés. Os moradores, nessa época, faziam suas necessidades dentro de casa, e depois jogavam os dejetos na rua. De modo que nessa região da Munguba também ficava uma via, que era denominada como “rua da bosta”.

Ainda na Munguba, entre o saudoso Recanto da Saudade e o Bar do Cornélio, à margem do Igaraçu, fica a metalúrgica do senhor Pereira, em cujo local, em determinado dia da semana, se reunia a confraria A Forja. Cada “confrade” levava determinada quantidade de cerveja e de carne para tira-gosto. Os membros d’A Forja eram pessoas bem situadas, como se diz, empresários e profissionais liberais, como médicos, engenheiros e advogados, além de graduados funcionários públicos. Funcionava com ordem e regularidade, talvez porque não tivesse estatuto e nem regimento escrito.

Alguns botecos, sobretudo os frequentados pelos “profissionais papudinhos”, tinham a (má) fama de vender cachaça “desdobrada” ou “manipulada”, isto é, adulterada. Para simplificar, misturada a outras substâncias, inclusive água, em menor ou maior quantidade, conforme o proprietário do botequim fosse mais ou menos desonesto, para obtenção de maior lucratividade. Também alguns vendiam tira-gostos indigestos, alguns requentados uma ou mais vezes, que segundo diziam ou matavam ou adoeciam o cliente. A esses poderíamos aplicar os versos epigramáticos de Oswald de Andrade:

No baile da corte

Foi o Conde d’Eu quem disse

Pra Dona Benvinda

Que farinha de Suruí

Pinga de Parati

Fumo de Baependi

É comê bebê pitá e caí

Os remanescentes dessa velha guarda costumam curar sua ressaca na lanchonete do senhor José dos Santos, que vende um saboroso e substancioso caldo de carne. Alguns boêmios preferem continuar ou começar a farra nessa lanchonete, posto que ela também vende bebidas. Fica ao lado do Mercado de Fátima. Nesse mercado fica a lanchonete/restaurante da Maria, que comercializa um igualmente delicioso caldo de carne.

Reconheço que cada boêmio tem o seu boteco preferido, o boteco de sua memória, afeição e bem-querer. Por conseguinte, em cada canto da cidade existe um “recanto da saudade”, um barzinho bucólico, rústico, intimista, aconchegante ou inesquecível. Como diria Patativa do Assaré: cante o seu, que eu canto o meu.

(*) Precisamente hoje (15/06/2021), alguns dias após eu haver escrito esta crônica, o fotógrafo e bibliófilo Jairo Leocádio, por WhatsApp, me comunicou haver encontrado na Praça da Graça o cidadão que plantara a munguba. Estava com o meu texto em seu celular e disse se chamar João Lucas. Portanto, tem o nome de dois evangelistas. Jairo me prometeu enviar uma fotografia dessa árvore, que fica perto da famosa Banca do Louro.     

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