CABE REVER A POLÍTICA CULTURAL

Manuel Domingos Neto(*)

Não haverá intervenção mais poderosa do poder público sobre a sociedade do que suas iniciativas culturais. Trata-se de construção da memória coletiva, o que implica em sistema de valores.

É algo conhecido desde a Antiguidade. Platão formulou a ideia de que, alterando sua música, a coletividade não seria mais a mesma. 

A música reflete o que o povo sente ou quer. Mais que qualquer outra linguagem, sensibiliza a todos instantaneamente, inclusive os iletrados e cegos. Não há religião sem música. Também não há guerra sem música. Certos instrumentos musicais foram desenvolvidos para atender a comunicação entre os guerreiros. 

A política cultural determinará se uma coletividade será pautada pelo respeito aos seus integrantes, pela consagração de uns e segregação de outros. Discriminações e injustiças são culturalmente legitimadas. Ainda hoje não superamos o legado escravista porque, além das estruturas de poder, os padrões culturais não foram radicalmente alterados.

Refiro-me a tudo isso pensando na alteração do nome do Porto das Barcas, que meu bisavô, um funileiro, chamava de Porto Salgado, em virtude da grande quantidade de sal derramado pelos carregamentos de charque. 

Com a extinção das charqueadas, o impulso das exportações do extrativismo vegetal e a expansão das importações de mercadorias, o velho ancoradouro fluvial passou a ser conhecido como Porto das Barcas. 

Quando criança, eu vi estivadores carregando fardos de algodão e outras mercadorias. Pensava que o nome “Porto Salgado” derivava do sal do suor dos trabalhadores. Ainda hoje não consigo chamar o Porto Salgado de Porto das Barcas nem Amarração de Luís Correia.

A comunidade parnaibana reagiu fortemente à iniciativa governamental de associar a designação do ancoradouro ao de um magnata do comércio varejista radicado em Teresina. Tal iniciativa feriu o amor-próprio parnaibano. Alguns arguiram: se tem de homenagear alguém, que seja um parnaibano!  

O nome do magnata entrou na berlinda. Lembraram que ele destruiu importante marco arquitetônico desfigurando a harmonia da outrora Rua Grande, hoje Avenida Getúlio Vargas. 

O agente público retorquiu dizendo que ele investiu seu dinheiro em obras culturais. Esqueceu de registrar que o investimento seria abatido do imposto de renda, sendo, de fato, recurso público. Trata-se de um mecenato de embromação.

Penso que homenagear os grandes faz com que os de baixo fiquem no esquecimento. Política cultural que elimina os pobres da memória coletiva promove valores antissociais. 

Estivadores (sobretudo escravos, descendestes de escravos e retirantes da seca em busca de sobrevivência), canoeiros, lavandeiras, artesãos, pescadores, operários do charque, empregados das casas comerciais, coletores de cera de carnaúba, operários da indústria do óleo, pedreiros, carpinteiros, quitandeiros… Como pode toda essa gente sumir da memória enquanto os enriquecidos pelo comércio varejista ganham destaque?

A política cultural que precisa ser revista. O restauro de edificações simbólicas é importante, mas o seu uso não pode ser menosprezado. O que adianta um belo teatro caso sirva para disseminar valores antissociais? Não se pode esquecer que nazistas criaram grandes teatros e assassinaram grandes artistas.

Além disso, cabe tratar delicadamente o amor-próprio das coletividades. Não se arranha impunemente o ego de uma sociedade hoje economicamente degradada.

Para elevar o nível da consciência coletiva, a política cultural deve reverenciar os verdadeiros construtores da cidade. 

E jamais perder de vista que remessas ao passado, às experiências vividas, são tão importantes quanto os sinais de futuro promissor.

Parnaíba, 09.06.2021

(*) *Manuel Domingos Neto,  é historiador, professor universitário,  pesquisador. escritor, ex-deputado federal e membro da Academia Parnaibana de letras. 

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