Em memória de Josélia

DIÁRIO

[Em memória de Josélia]

Elmar Carvalho

17/03/2021

De vez em quando, publico em meu blog um poema de minha autoria, seguindo a ordem em que eles aparecem em meu livro Rosa dos Ventos Gerais. No domingo passado, dia 14, foi a vez de Josélia, poema elegíaco, que escrevi sob o impacto do falecimento de minha irmã, quando ela mal completara 15 anos de vida, vítima de acidente automobilístico, que causou enorme sofrimento à família, sobretudo a meus pais. Mamãe (Rosália), mulher de espírito forte, de imensa inteligência emocional, de fé inabalável em Deus, ficou prostrada por vários dias em sua alcova. Morávamos então no apartamento dos Correios, na Praça da Graça, em Parnaíba.

No dia 08/01/2016, quando era celebrada, pelo Pe. Jurandir da Silva Rodrigues, a missa  memorativa dos 90 anos de meu pai, Miguel Arcângelo de Deus Carvalho (*05/01/1926 – +05/11/2017), a que compareceram muitos de nossos amigos e vários antigos servidores da ECT em Parnaíba, do tempo em que ele servira nessa empresa, numa noite em que uma demorada chuva fina, fria e serena caía sobre toda Parnaíba, uma desconhecida apareceu nesse culto. Ficou à distância, sozinha, e não compareceu, no final da missa, ao local em que as pessoas foram cumprimentar papai. Indaguei a alguns dos circunstantes sobre quem ela seria, mas não souberam informar.

Aparentava ter a idade que Josélia teria nessa ocasião, e a sua aparência, bem poderia ser a de minha falecida irmã. Depois, não mais a vi. Fiquei com a impressão, que jamais poderei comprovar, de que aquele vulto de mulher, madura e bonita, de sóbria elegância, bem poderia ser a minha saudosa irmã, que viera de uma das várias moradas do Pai. Se foi como chegara, discreta, sozinha, à francesa, quase evanescente.

Por WhatsApp, mandei o link da publicação do poema para vários amigos, parentes e conhecidos. Alguns me responderam, e me pediram mais informações sobre a morte de Josélia. Em resposta, lhes enviei uma crônica escrita em 17/08/2010, e que faz parte de meu Diário Incontínuo, disponível, no formato e-book, na Amazon. Minha irmã faleceu no dia 02/07/1978 e foi sepultada no Cemitério da Igualdade, em Parnaíba. Era bela, meiga, e tinha contagiante alegria e carisma. Sua morte precoce comoveu a cidade. Uma rua, em bairro perto do aeroporto, tem o seu nome.

Como uma homenagem a ela, que nestes tempos de covid-19, já em sua assustadora segunda onda, completaria 58 anos de idade, transcrevo a crônica, a que me referi, e que tanto comoveu meus saudosos pais, na época de sua publicação, fazendo chorar meu pai, quando a leu, com a voz embargada, para minha mãe:   

A MORTE DE JOSÉLIA

No domingo, Dia dos Pais, fui a Campo Maior. Na casa paterna encontrei a minha irmã Maria José, que passou a minhas mãos um envelope contendo vários recortes de jornais, que ela cuidadosamente colara num papel de boa qualidade, de modo que esses recortes estavam em perfeito estado de conservação. Eram pequenas notas tipográficas, do final da década de 1970, dos jornais Folha do Litoral, Norte do Piauí e O Estado.

A maioria continha poemas de minha autoria, do final de minha adolescência. Alguns desses textos, embora não os renegue, não os recolherei em livro. Havia breves notas sobre o lançamento do livro Galopando, primeira obra a agasalhar meus versos, e que mais me causou emoção, por isso mesmo. Também faziam parte do opúsculo os poetas Paulo de Athayde Couto, Josemar Neres, Paulo Couto Machado e Rubervam Du Nascimento.

E havia, no meio dessa relíquia de celulose, duas notas sobre o trágico acidente automobilístico em que faleceu minha irmã Josélia, no apogeu de sua beleza e na plenitude de suas quinze primaveras. Ali estava uma elegia que escrevi sob o impacto de sua morte, e que se encontra estampada no meu livro Rosa dos Ventos Gerais. No meio desses velhos papéis, havia um texto manuscrito, de que já não tinha a menor lembrança, vazado em nervosa prosa poética, em que eu extravasava as minhas emoções ao ferir essa tragédia familiar.

Josélia faleceu no dia 2 de julho de 1978, e mal completara quinze anos de vida. Era bela. Era alegre. Era cheia de vida. Sua alegria era verdadeiramente contagiante. Exercia feliz e natural liderança sobre suas amigas. Soubemos que no último dia de aula, quando viriam as férias de julho, ela abraçou todos os seus colegas de classe, um a um, meninos e meninas, e lhes disse que fazia aquilo porque lhes desejava umas férias tão alegres como as que ela teria.

Também escreveu num caderno uma breve crônica em que pedia que, quando morresse, fosse posto um ramo verde sobre seu túmulo. Parecia ter a premonição de que morreria no verdor dos anos. E um ramo verde apareceu no local em que ela foi sepultada. E – quem sabe? – talvez as suas férias, em outros infinitos páramos de Deus, tenham se convertido numa eterna festa de paz e beatitude.

Recordo muito bem. Eu estava sob uma das traves do estádio de futebol de Buriti dos Lopes, em minha posição de goleiro, quando vi umas moças virem em minha direção. Reconheci que eram umas amigas de minha família e de minhas irmãs. Logo, salvo engano, a Clotildes Duarte me disse que minhas três irmãs haviam sofrido um acidente, mas que estavam bem.

Quando percebeu que eu havia assimilado o golpe, acrescentou que não iria me enganar; que a Josélia havia morrido, e que seus parentes iriam me levar a Parnaíba, para eu ficar ao lado de meus pais. Soube, depois, que meu pai, homem extremamente emotivo e sentimental, ao saber da notícia estendeu-se no solo, prostrado, arrasado. Um de meus irmãos teve a presença de espírito e inteligência emocional para cantar uma música religiosa da predileção dele, que dizia para a pessoa segurar na mão de Deus e ir em frente.

Imediatamente, o velho se levantou e criou forças para fugir do desespero. Minha mãe, que sob certos aspectos sempre fora mais forte e mais contida que meu pai, ficou arrasada, e ficou prostrada por vários dias. No dia seguinte, o meu amigo Antônio Gallas escreveu uma de suas Crônicas da Cidade, dedicada a Josélia, que era sua aluna. O texto foi lido por Gilvan Barbosa, de bela e vibrante voz.

Dessa época, o poeta Jorge Carvalho encontrou entre os pertences e pequenas lembranças de sua mãe um pequeno impresso, em sua memória, que me repassou de forma muito atenciosa através de e-mail. O diretor dispensou os alunos do Colégio Comercial, onde minhas irmãs estudavam, e eles encheram a catedral, de onde saiu o cortejo fúnebre em direção ao Cemitério da Igualdade, de nome tão sugestivo quanto apropriado.

Tentei ajudar a levar o caixão. Mas como o senti pesado, embora minha irmã fosse tão leve em sua beleza esbelta, em sua espiritualidade alegre. Acho que ele me pesou na alma, porque eu sabia que aquela era uma viagem de onde não se regressa jamais. A não ser na saudade dos que nos amam, dos que sentem a nossa falta.

Certamente por isso, meu pai mandou gravar numa placa, que contém a imagem de seu rosto eternamente jovem, os imortais versos de Da Costa e Silva: “Saudade! Asa de dor do pensamento!”

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