A Fábrica de Laticínios e o Centro Cultural de Campinas

DIÁRIO

[A Fábrica de Laticínios e o Centro Cultural de Campinas]

Elmar Carvalho

22/11/2020

Confesso que, às vezes, sou mesmo meio hiperativo e, outras vezes, sou hiperativo e meio. Hoje foi um dos dias em que amanheci muito entusiasmado e ativo, e com a pá um tanto virada. De modo que acordei cedo, e já a partir das cinco horas comecei a escrever a crônica, que abaixo se vê.

 Talvez o embrião dela seja uma outra, que titulei Expedição ao Sertão Colonial, e, agora, é o seu estopim a forte perspectiva de restauração da Fábrica de Laticínios do Engenheiro Sampaio, com a subsequente instalação de um Centro Cultural da Fecomércio.  

O meu entusiasmo se deve à satisfação de concebê-la em meu cérebro e de escrevê-la, bem como o fato de que tenho fortes esperanças de que essa obra será realizada, por motivo que nela será exposto. Mas deixemos de tanta conversa e de tanto blá-blá-blá, e passemos à transcrição da aludida crônica, que passa a integrar este Diário.

A Fábrica de Laticínios e o Centro Cultural de Campinas

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Há uns três meses atrás, Valdeci Cavalcante, dinâmico e empreendedor presidente da Fecomércio/PI, através de WhatsApp e telefonemas, me manifestou o seu interesse em restaurar a antiga Fábrica de Laticínios de Campos, hoje Campinas do Piauí, para nela instaurar um Centro Cultural, que prestaria relevantes serviços àquela região.

A fábrica de laticínios, sobre a qual prestarei breves informações mais adiante, foi fundada e instalada no final do século XIX, pelo engenheiro Antônio José de Sampaio, nascido na Fazenda Ininga, em José de Freitas. Por motivos diversos, o empreendimento funcionou apenas durante poucos anos, vindo a falir, no início do século XX.

Posteriormente, segundo informação que me foi repassada por Carlos Rubem, a fábrica e as terras teriam sido arrendadas pelo coronel Ângelo Acelino de Miranda, oriundo da região de São Raimundo Nonato, que administrou esse empreendimento entre os anos de 1917 e 1922, período em que a fábrica ainda teria funcionado.

O interventor federal Landri Sales Gonçalves, homem probo, exemplo de administrador público, operoso e dedicado, voltou a reativar essa indústria de laticínios, que se manteve em funcionamento, nessa terceira fase, também por um curto período. A seguir, o imponente prédio serviu para que nele funcionassem uma escola e serviço da Prefeitura Municipal.

Não sei se foram feitas algumas adaptações internas. Se foram, não percebi. Sei que quase todas as peças do maquinário, sobretudo as mais nobres, foram surrupiadas por diferentes administradores das antigas fazendas nacionais. O que importa dizer agora é que esse lindo e suntuoso prédio  hoje se encontra inservível, sem nenhum uso, em completo abandono, sujo, e em estado de ruínas. 

Após sua correta restauração, nos moldes exigidos pelo IPHAN, já que se trata de um edifício tombado, o Dr. Valdeci Cavalcante, através do Sistema Fecomércio/SESC/SENAC, nele pretende instalar, como disse acima, um Centro Cultural, no qual poderão ser criados vários espaços. O maior, poderia ser um pequeno cineteatro e/ou auditório; nos demais, após estudos e adaptações, poderão ser instalados um museu/memorial da própria fábrica, uma biblioteca e salas para cursos e oficinas, etc.

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Para atender o presidente Valdeci, que me solicitara informações, recorri ao Carlos Rubem, que durante muitos anos, como cidadão e na qualidade de Promotor de Justiça, defendeu a restauração desse prédio, como uma espécie de novo Dom Quixote e profeta, a clamar no deserto da indiferença quase geral das chamadas autoridades competentes. O Carlos Rubem, com presteza e solicitude, me repassou as informações que tinha e outras que conseguiu instigado por mim. Incontinenti, as repassei ao solicitante.

Nesse ínterim veio o período eleitoral, que se somou às dificuldades causadas pela pandemia. As informações colhidas e sabidas pelo Carlos Rubem, que foi representante do Ministério Público na Comarca de Campinas, diziam que o imóvel, no qual se encontrava o prédio da antiga fábrica de laticínios, pertencia ao município de Campinas, por doação do Estado do Piauí.

Para que a Fecomércio possa fazer a restauração do prédio, com a subsequente criação e instalação do Centro Cultural, é necessário que o município lhe faça a cessão do direito real de uso.

Na segunda-feira, dia 16, o Valdeci Cavalcante, após conversar com o Dr. Felipe Mendes, ex-deputado federal e ex-vice-governador do Piauí (fora outros luminosos títulos que possui), sobre um outro assunto, lhe pediu o ajudasse a conseguir a cessão acima referida.

Felipe Mendes, meu confrade e do Valdeci na Academia Piauiense de Letras, lhe explicou que o prefeito eleito de Campinas, o médico Jomario Ferreira dos Santos, genro do ex-prefeito Alencar Moura, pessoa de sua amizade, era amigo de um seu sobrinho, residente em Simplício Mendes.

Dinâmico, interessado e experiente, fez de imediato os contatos necessários, e já na sexta-feira, cedo da manhã, em minha companhia, partiu para cumprir essa importante missão, no interesse da cultura e da promoção social e educativa da região de Campinas. Para encurtar a história, em Oeiras já nos aguardava o Carlos Rubem, que formaria conosco os três mosqueteiros dessa importante missão, uma espécie de embaixada do Sistema Fecomércio e de seu presidente, Valdeci Cavalcante, que conhece esse prédio desde a sua juventude, ainda nos idos de 1978.

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A viagem não teve nenhum acidente e nenhum incidente digno de registro, a não ser duas ou três paradas previstas na logística, para merenda dos tripulantes e abastecimento do carro, de modo que um pouco antes de uma da tarde chegamos a Campinas. Fomos acolhidos pelo prefeito eleito Dr. Jomario e sua esposa Andrea Moura, pelo ex-prefeito Avelar Moura, pela vice-prefeita eleita Ana Maria, pelo vereador Ruy Costa, pelo professor Maivan Ibiapina e por Neta Gonçalves.

Apesar de certo cansaço e início de fome, fizemos questão de ver logo a sede do antigo laticínio e o seu entorno. O Dr. Felipe Mendes, que havia conversado dias antes com o diretor do IPHAN, logo reparou que uma construção e um “puxadinho” ficavam muito perto do prédio, o que lhe prejudicaria a visibilidade e mesmo as obras de construção de muro, estacionamento (se for o caso) e de restauração, bem como a visibilidade do edifício.

De imediato constatamos que o monumento da arquitetura piauiense se encontra excessivamente deteriorado, podendo ser tido como estando em estado de ruína. Mesmo assim, a gente pode sentir a imponência da obra de engenharia de Alfredo Modrach, a excelência dos tijolos e das telhas, dos detalhes e ornatos no contorno das portas, dos beirais, da fachada e da chaminé; esta foi feita com todo esmero, quase como se fora uma escultura moderna, devendo por isso mesmo ser preservada a qualquer custo. Ervas daninhas e mesmo arbustos já infestam a edificação e o seu entorno.

Em seguida, o nosso comandante Felipe Mendes tratou de expor ao prefeito eleito as exigências do IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e a necessidade de que o imóvel seja desmembrado e individualizado no registro cartorário, para que a cessão do direito real de uso possa ser feita de forma adequada. Eu e o Carlos Rubem coadjuvamos nessas tratativas, adicionando uma ou outra explicação. 

O que importa acrescentar é que o prefeito eleito ficou entusiasmado, e se comprometeu a adotar as providências necessárias tão logo tome posse de seu cargo. Em seguida, fomos nos refestelar e nos deliciar com um farto e variado almoço, na verdade um verdadeiro banquete, a que se seguiu uma não menos deliciosa sobremesa.

A missão foi documentada por algumas fotos, nas quais se percebe o estado de deterioração do imóvel a ser restaurado. Para dar um tom solene à missão e embaixada, após o almoço, discursamos o Dr. Felipe Mendes, o Dr. Carlos Rubem, este escriba, que fui proclamado escrivão da viagem missionária e diria cívica, já que os três mosqueteiros agimos por devoção e vocação, e o médico Jomario, prefeito eleito.

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Felipe Mendes, com a sua larga experiência de professor do Curso de   Economia na UFPI, de secretário de estado da Fazenda e do Planejamento, além de deputado federal e vice-governador, fez uma rápida explanação das exigências do IPHAN, com relação ao entorno do prédio, da necessidade de requalificação e ressignificação da praça situada em frente, adaptando-a para as atividades do futuro Centro Cultural e da importância social e turística que ele terá, fazendo uma integração entre os dois espaços de beleza e fruição social. Enfim, além de explicações administrativas e técnicas, enfatizou a importância social e cultural da restauração do imóvel e de sua destinação a Centro Cultural da Fecomércio.

O Dr. Carlos Rubem, que foi Promotor de Justiça em Campinas do Piauí, discursou de modo lírico e telúrico, ressaltando as suas ligações sentimentais, afetivas e atávicas com a comunidade local. Falou, com simplicidade e verdade, de suas lutas antigas, de algumas décadas, desde o início de sua atuação no Ministério Público, quando empreendeu campanhas pela conservação e restauração da vetusta sede da fábrica, bem como pela divulgação de sua importância histórica e arquitetônica. Eu mesmo posso dar o meu testemunho de que ele muito se empenhou para que esse prédio se mantivesse de pé, como ainda se encontra, a despeito de toda desídia e descaso do Poder Público, embora um tanto trôpego, cheio de estrias e achaques, e algo capenga. E esse trabalho rendeu os frutos que agora começa a render.

Em minha fala, ressaltei que o magnífico prédio da vetusta Fábrica de Laticínios do engenheiro Antônio José de Sampaio, há muitos anos de fogo morto, e hoje quase transformado em escombros, era um símbolo da história do Piauí, porque o seu imóvel e o seu gado remontavam aos tempos coloniais da Casa da Torre da Bahia, depois aos Jesuítas, tendo posteriormente passado a integrar as fazendas reais e em seguida as nacionais, com o advento da República, para, enfim, passar ao domínio estadual, e recentemente se tornarem do município; já então não havia gado e as peças valiosas do maquinário haviam sido desviadas, para não usar um outro vocábulo.

Disse que era uma obra arquitetônica de portentosa beleza, construída com esmero, com fino acabamento e detalhes ornamentais, e que por essa razão era uma obra de arte em si mesma, podendo ser considerada um dos mais notáveis marcos da arquitetura piauiense. E que, por haver abrigado uma fábrica montada com os mais modernos maquinários e equipamentos da época, trazidos da Europa, através do oceano e do rio Parnaíba até a cidade de Floriano, é também um símbolo da industrialização piauiense.

Acrescentei que só o transporte dessas pesadas peças e equipamentos,  através de estradas e picadas em terra nua, em carros de bois ou em lombos de animais, de Floriano para Campinas, fora uma verdadeira epopeia, que daria um filme épico. Finalizando, disse que tinha muita confiança de que a obra de restauração seria realizada, porque o Dr. Valdeci Cavalcante tem o hábito de cumprir as suas promessas. E citei algumas de suas obras mais notáveis e recentes.

Coroando a parte solene, falou o prefeito eleito, Dr. Jomario Ferreira dos Santos, reiterando o seu desejo em fazer a cessão do direito real de uso do imóvel em favor da Fecomércio, e que fará todo o possível para que as exigências do IPHAN sejam atendidas, e, assim, essa importante obra possa ser realizada da melhor forma possível. 

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