O Homem Aranha e as Edições 120!

Parnaíba, 02 de dezembro de 2011. (23h30min)

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Termino de assistir o “Homem do futuro”! Lançamento brasileiro, que devido a ausência de um cinema atualizado em minha cidade, tive que baixar da internet e assistir com uma frase enorme na frente: PROPRIEDADE DA PHE! Mas assisti, mesmo assim, e mesmo não sendo o melhor filme nacional de ficção de “todos los tiempos”, não me arrependi.

Caminho em direção ao quarto. Vejo e recolho a edição 120 do homem aranha da Panini, exemplar que havia acabado de ler no mesmo dia. Guardo-a no armário e me deito, logo adormecendo.

Ao abrir os olhos, me vejo, não mais em meu apartamento e deitado ao lado de minha esposa, mas sim no meu quarto, o antigo, numa casa que não é mais minha, e sim do homem que comprou de minha mãe, anos atrás. O rock troa bastante alto para meus atuais tímpanos. Assusto-me, principalmente quando escuto, vindo do meu velho banheiro, um cantarolar em meio ao barulho do chuveiro, que logo reconheço: É minha própria voz! Logo percebo, que me encontro no passado (mas como?), se nem entrei num Delorean ou máquina esquisita qualquer… Enquanto reflito sobre os porquês e comos desta surreal e súbita viagem no tempo, passeio pelo meu antigo quarto, repleto de pôsteres de rock, de Iron Maiden a Guns n´ Roses, e caminhando em direção à clássica escrivaninha (que hoje não mais existe), ouço um mexer de registro, que cancela a água do chuveiro. Por uns segundos, fico a esperar a saída de mim mesmo, mais jovem, sem saber o que dizer… Porém um novo abrir de torneira me cede tempo para explorar mais a minhas velhas e raras coisas… Abro a gaveta da escrivaninha. Dou logo de cara com a edição 120 do homem aranha da Editora Abril. A partir de agora já sei exatamente quando estou:  1993! Julho para ser exato, pois sempre guardei minhas edições, deixando a última comprada por cima das demais! O cara que está lá, tomando banho tem 12 anos e está de férias escolares, bem no meio da sexta série!

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Folheio a edição 120… Fim da saga do Lápide, com desenhos de Sal Buscema. O desenho do Sal já tinha caído um pouco de qualidade em relação a outros anos, mas nessa época eu não estava nem aí. Lembro que adorava aquele desenho, como também vibrei bastante com esta “odisseia” que durou algumas edições, envolvendo Joe Robertson, Puma, Irmãos Lobo, Camaleão, Jameson, Gloria Grant, Rei do Crime e próprio Lápide. Fui até a página 62, e pude rever uma cena que me marcou por anos: – Joe Robertson, enfrentando o seu medo e finalmente enfrentando Lápide que, assustado (perplexo) e ferido, vai embora, desistindo de perseguir Joe, um cara normal, sem poderes. Lembro então que isto fez toda uma diferença para mim nos anos que seguiram, pois nesta edição, pude perceber que não era preciso ter poderes para enfrentar os desafios, principalmente os valentões da escola, que sempre apareciam para me amedrontar. Bastava apenas coragem.

De tão distraído, não notei que o meu eu do passado já havia desligado a torneira e estava a destrancar a porta do banheiro. Não houve tempo de me esconder, e agora me encontro, frente a frente, comigo. O meu eu jovem grita e fecha os olhos, de tamanho susto. Ninguém no restante da casa ouve o grito, pois a música se faz estridente. Espero alguns segundos, e lembrando-me de Wagner Moura, digo pro meu eu jovem se acalmar e confiar em mim (ué, deu certo no filme, porque não daria comigo?):

– Calma, confie em mim, eu sou você, do futuro, você é esperto, já assistiu inúmeras vezes de volta para o futuro e em algum lugar do passado…

Vou falando, e ele (ou eu) vai relaxando… E depois de um tempo já estamos a conversar, sobre quadrinhos e cinema, no que eu falava de como ambos decaíram, e que a Marvel é agora da Disney, que não é mais a Abril que distribui as revistas, mas sim a Panini, etc, etc, etc.. Ele tenta saber coisas mais pessoais, como namoradas e outras coisas, mas mantenho-me apenas a falar sobre os quadrinhos e o cinema, por receio de que o passado se altere e eu acabe não conhecendo minha esposa e minhas filhas. Falo então da coincidência, de nós estarmos justamente com a edição 120, como última edição lançada, e ele, entusiasmado, me joga:

– Talvez não seja coincidência, talvez haja um motivo ligado a estas edições 120!

Será?

Nesse instante, alguém bate na porta do quarto. É a minha vomãe (minha avó, como sempre a chamei, pois ela me criou e que faleceu em 2006).

Tento disfarçar minha emoção, enquanto que o meu eu mais jovem tenta me esconder. Escondido por trás da porta do banheiro, fico a escutar ela conversando, com ele. Chamando para o almoço. As lágrimas caem. Ele avisa que a ela que já vai e tranca a porta, voltando a conversar comigo. Ele nota os meus olhos vermelhos. Finjo que foi apenas poeira.

Voltamos então a falar da edição 120. Noto nele uma empolgação e uma euforia, que hoje não mais existe em mim. Frases como:

– Vou comprar homem aranha pra sempre! As histórias são muito legais, etc, etc, etc… Digo pra ele que já me decidi por parar de vez o homem aranha, logo depois de One moment in time, ou seja, na edição 122, pois além de histórias fracas, haverão desenhos ridículos, no que sou questionado:

– Como você sabe que os desenhos vão estar ruins?

Eu falo da internet, dos Scans e do 4shared, dos fóruns de quadrinhos…
Ele ri, e zomba de mim. Pensa que estou brincando, e que não vou parar coisa nenhuma. Eu faço então uma cara séria e ele percebe que estou falando a verdade. Ele me pergunta o porquê de eu ter ficado tão ranzinza… Chego a ousar responder, mas acabo me atendo a dizer que foi por causa dos desenhos e histórias ruins. Minha avó chama novamente e ele vai, mas pede que eu espere quieto no quarto, antes, ele liga o mega drive, diminui o volume da TV e me passa o controle. Novamente, e depois de muitos anos, estou jogando Sonic!
Minha vista logo cansa, não aguenta mais horas e horas de vídeo- game.. Deito-me na cama, pequena, não é minha atual cama de casal. Os olhos pesam e adormeço…

Acordo no meu apartamento. Alívio e tristeza me acompanham.

Vou até a sala, falo com minha esposa e filhas. Dou um beijo em cada uma.
Dirijo-me até meu armário de formatinhos. Abro e pego a coleção do aranha. Puxo a edição 120 e depois resgato, já no “armário das novas”, a edição da Panini 120.
Por um minuto fico a contemplar… Estas duas edições, que só possuem em comum, o fato de ser do homem aranha e terem a mesma numeração: 120!

Lembro do passado, reflito sobre o presente e fico a pensar, se isto que aconteceu comigo, foi realmente um sonho ou algo mais… Se serei o cara cético de hoje, parando na 122 ou se serei aquele cara, de tantos anos atrás, sonhador, e seguirei em frente, na esperança de que as coisas com o teioso melhorem.

É quando abro novamente a 120 da abril, na página 64, e leio o que Joe Robertson responde, quando perguntado se ele estava ferido:

– Não… Estou bem! Pra falar a verdade, nunca me senti melhor na minha vida!

Claucio Ciarlini (2011)

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