RITOS E RITUAIS SIGNIFICATIVOS

MARIA DILMA PONTE DE BRITO
ACADEMIA PARNAIBANA DE LETRAS APAL CADEIRA 28
PATRONO LÍVIO LOPES CASTELO BRANCO
1 º OCUPANTE HUMBERTO TELES DE SOUSA

          Tem certos rituais que se tornaram esquecidos com o passar do tempo. A começar no meio estudantil. A preparação para chegar na escola cumpria um árduo ritual. Antes de prosseguir, é de bom tom lembrar o seu significado.

          “Um ritual é um conjunto de gestos, palavras e formalidades, geralmente imbuídos de um valor simbólico, cuja performance é, usualmente, prescrita e codificada por uma religião ou pelas tradições da comunidade. A palavra “rito” tem origem no latim e é um termo que se refere aos costumes invariáveis, já estabelecidos por meio de regras ou normas de uma cerimônia de determinada cultura ou religião. A celebração do rito, isto é, a concretização dos costumes, das regras estabelecidas e dos ensinamentos tradicionais é chamada de ritual”.

          Pois bem, a formalidade de vestir a farda, devidamente passada, a organização da mochila com os livros, a merendeira, cabelos cuidadosamente penteados eram necessários e exigidos nos educandários. Tudo isso ficou perdido no tempo. Raramente as escolas cobram essa performance e assim os alunos frequentam as aulas de bermuda, shorts, chinelos, sem nenhum protocolo, principalmente no mundo universitário. É certo que não é a veste que vai fazer aprender mais ou menos, no entanto a impressão que se tem é que falta um pouco de seriedade na empreitada.

          Durante a pandemia os ritos de despedida foram proibidos em virtude da COVID-19. As famílias tiveram que renunciar ao direito de velar seus entes queridos com presença de amigos e com todo cerimonial de costume.

          Sou tradicional no cumprimento de alguns cerimoniais, embora pareça careta. Enquadro-me no tempo em que não se chegava em aniversário sem presente. Nem que fosse um mimo, para dizer: lembrei de você no dia mais importante de sua vida. Hoje não tem desculpas de justificar porque não consegui comprar algo, porque o shopping está aberto a qualquer hora, flores podem ser compradas pela internet. E o pior é ainda o deboche: “Parabéns pra você, vim aqui pra comer, esqueci o presente, nunca mais vou trazer”.   

As tribos indígenas levam a sério os rituais e cada uma tem o seu, muitas vezes excêntricos, como por exemplo, os homens passam por rituais de iniciação, as mulheres são incentivadas a dormir com o maior número de parceiros até escolher seu marido, e esses e outros são seguidos plenamente.

Sou adepta ao ritual de casamento, batizado, das festas de debutantes e do pôr do sol. Já participei de muitos inesquecíveis. Um deles nos Lençóis Maranhenses e muitos outros em Jericoacoara. Nessa praia do Ceará no final da tarde os turistas se reúnem nas dunas para aplaudir o sol mergulhando no mar. A multidão reverencia o belíssimo espetáculo com palmas e há até quem brinde com champanhe esse cenário espetacular que finda quando o sol se despede desaparecendo de vez e a noite vai chegando sorrateira. Fazer parte de um ritual de tamanha magnitude é sem dúvida uma graça e esse, eu amo fazer parte.

No intelecto, uma escritora… Na alma, uma historiadora…

Tolo é aquele que ousa, mesmo por um instante, pensar que o único historiador válido, é o que possui em sua formação acadêmica, um bacharelado em História.

Pensando desta maneira, poderíamos também supor, e erroneamente, que os curandeiros das diversas tribos de “índios” existentes pelo mundo, não tem valor ou serventia, pois afinal, não possuem diploma de medicina, estando assim, inaptos para cuidar de alguém doente ou ferido…

Pura bobagem! Muitos nativos teriam morrido no decorrer da história, se não fosse à intervenção destes personagens, fossem eles pajés, xamãs ou outras tantas designações existentes. E falando em cultura indígena, aproveito para destacar aqui, e antes de tudo, algumas semelhanças que possui a escritora (na qual teço esse breve prefácio) com suas raízes indígenas. Semelhanças essas, como por exemplo, a simplicidade, a espontaneidade, o desapego material, a alegria e principalmente, a arte, expressada em suas mais variadas formas, quando se trata desta escritora sensível e talentosa.

Historiadora na alma, eu repito, pois não possui o “pedaço de papel”, que muitos pregam na parede, chamado de Diploma de História. Não, ela não cursou essa faculdade. Porém, do que a conheço e acompanho nestes últimos anos, posso afirmar, categoricamente, que ela detém os mesmos, amor, respeito e cuidado com suas fontes e pesquisas históricas, que qualquer bom Historiador, formado e habilitado teria, mesmo que ela, não tenha se debruçado por anos sobre os vários teóricos da pesquisa em História e dessa forma, felizmente, não fique venerando-os em seus textos, ficando assim, livre de um “emaranhado de citações”, que só servem na maioria das vezes, para comprovar algo que já sabemos com exatidão.

Tem em alta conta e até em maior quantidade com relação a muitos historiadores que conheço e já li, uma preocupação essencial, e eu diria mais ainda, primordial: – O cuidado com o leitor. Essa escritora, criativa, dinâmica e incansável, não produz apenas para si, ou seja, para alimentar o próprio ego… Pelo contrário! Escreve para as pessoas, e não somente para aquelas digamos… mais intelectuais, e sim para todos os tipos, classes e cores que existem por aí, espalhados por este mundo tão cultural e diverso.

Apaixonada por suas origens, e sabedora da importância que estas tiveram para a formação de sua personalidade, nos traz à tona neste livro a história de seus pais, Joaz e Jeanete, figuras importantíssimas no percurso histórico e social da Parnaíba do Século XX. Um casal que, segundo ela, viveu uma rica história de amor, que não pode de forma alguma, ser tragada pelo buraco frio e negro do esquecimento… Uma trajetória, não apenas de uma família, mas do retrato, ou melhor, dos retratos de uma Parnaíba do século XX, e toda a bagagem cultural que esta época nos arremete. Poderia citar aqui diversas contribuições que esta pesquisa trará para o conhecimento sobre o passado desta cidade e seus moradores… Porém não estragarei aqui, as surpresas reservadas pela autora, aos seus fiéis e estimados leitores… Apenas citarei uma grande importância, na qual me é mais próxima: O despertar dos estudantes para a leitura de obras parnaibanas!

Eu, como professor dos ensinos, fundamental e médio, acompanho a evolução de diversos adolescentes, nas escolas e séries que leciono, e sinto que muitos deles, não se interessam tanto pelos livros lançados e existentes em suas respectivas bibliotecas, devido a dois fatores: Temas distantes de seu mundo social e linguagem muito técnica… O que felizmente não é o caso desta obra.

Tenho a grata satisfação de lecionar, desde 2008,  na Unidade Escolar Jeanete Souza, escola estadual localizada no próspero bairro Joaz Souza em Parnaíba, e verifiquei que muitos alunos possuem a curiosidade de saber sobre quem foram estas pessoas, Joaz e Jeanete… O livro estaria desta forma, além de trazendo este conhecimento à tona, incentivando o aluno a ler sobre, não apenas sua escola ou bairro, mas sobre sua cidade, que o levaria depois a querer se aprofundar mais, despertando o interesse por conhecer a geografia e a história de seu estado, país, continente, etc…

E a autora desta brilhante e cativante pesquisa, tem a noção exata desta importância, ao ponto de que, ela lembra, busca, seleciona, analisa, escreve, reescreve e põe em prática o desejo de tornar eternas, tanto a história da Parnaíba, que muitos têm no coração e que gostariam que fosse lembrada, como também as memórias de seus heróis, que para ela, foram aqueles que a geraram, a criaram e lhe deram o suporte necessário para enfrentar o difícil caminho das escolhas, dos erros e dos acertos da vida.

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Caminho esse que ela soube trilhar, desviando dos buracos existentes, até caindo ou tropeçando em alguns deles, porém sabendo levantar e se recompor, tomando decisões não apenas pela mente, mas também pelo coração… Esta pessoa delicada e sensível é, antes de qualquer adjetivo, uma romântica.  Uma mulher sempre guiada pelos seus sonhos, que desde muito jovem, nunca se acomodou perante as situações predeterminadas, nunca se deixando aprisionar por modelos impostos e aparentemente inflexíveis. Nascida num período ainda machista e repressor, no qual as mulheres só poderiam fazer uma coisa: casar, para procriar e em seguida cuidar do lar e dos filhos. Ela resolveu em certo momento, que não aceitaria essa condição, e correu atrás de seus anseios e planos, uma pessoa corajosa e que jamais teve receio de errar, pois sabia com exatidão, e desde o principio, que o caminho dos aprendizados e acertos, é repleto de dificuldades e erros. Atirou-se ela, nas mãos do destino, que acabou a recompensando, de incontáveis jeitos… Seja através de suas conquistas profissionais, ou também de sua linda família, composta por seus irmãos, seu marido, seus filhos e seus netos, também no reconhecimento de seu talento através do ingresso na Academia Parnaibana de Letras, ou até pela devoção, pelo carinho e pela amizade que este humilde escritor que aqui vos fala neste momento, devota à tão preciosa, humana, escritora e historiadora, conhecida pelo nome de Yeda de Moraes Souza Machado.

                                                     Claucio Ciarlini (2010)

* Prefácio meu para “Joaz e Jeanete”, livro da amiga Yeda. Obra que tive o prazer de editar e mergulhar numa linda história de amor e família.