JOSEPH, ENTRE A MORTE E A LIBERDADE

Por Altevir Esteves (escritor, maratonista, cadeira 14 da Academia Parnaibana de Letras )
altevir
Há algumas décadas eu ouvi a história de um homem norte americano que teria sido condenado no tribunal à pena de prisão perpétua. Neste momento não encontro referência à tal registro mesmo pesquisando por várias formas na internet. Assim, citarei o caso como exemplo hipotético e o chamarei de Joseph.
Com pouco ou quase nenhum estudo, o até então réu ouviu de pé e de olhos bem abertos a sentença prolatada pelo juiz daquela corte. Ao findar suas palavras o magistrado perguntou ao recém condenado se teria alguma pergunta a fazer ou dúvida a ser esclarecida. Joseph pensou um pouco, fechou e abriu os olhos novamente.
– Doutor, são quantos anos a tal prisão perpétua?
O Juiz, atônito, ficou alguns segundos calado, olhando o rapaz com semblante fechado, esperando resposta. Diante do silêncio da autoridade, replicou:
– Quando posso sair da prisão? – disparou.
Deixo com o leitor a faculdade de usar a imaginação para colocar as possíveis palavras a serem usadas pelo juiz.
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No Brasil não existe prisão perpétua em seu ordenamento jurídico. Mesmo que seja condenado a centenas de anos por crimes diversos, o sentenciado “só” cumprirá 30 anos aprisionado. Assim não temos ninguém para testemunhar experiência de prisão vitalícia. Por outro lado, três dezenas de anos preso, não importa com que idade a pessoa inicie o cumprimento de tal pena, é uma eternidade, a perda da juventude, da maturidade e até da velhice.
O que se passa na cabeça de um condenado nessas condições é algo que somente ele pode narrar, por mais que soltemos nossa imaginação. E é com o livre pensar que nos remetemos ao dia 20 de março de 2020, data em que o governador do estado do Piauí decretou o isolamento social e o fechamento do comércio por 15 dias. Sim, somente uma quinzena. A medida foi se renovando até os dias de hoje, quando, por outro decreto promete iniciar o relaxamento das atuais condições e aponta o distante dia 18 de setembro para o restabelecimento total das atividades. Se a Covid-19 deixar, claro.
Mas o que tem a ver a vida de uma pessoa para quem lhe foi reservada a prisão até a morte com aquele que se vê no direito e na obrigação de viver isolado por dias indeterminados? Para este ainda a incerteza, dada a ameaça da descontinuidade a cada 15 dias; para o primeiro,  o sonho de que algum recurso que porventura ainda transite pelos escalões superiores da justiça ponha termo sua sentença, que, à medida que o tempo caminha, vai ficando cada vez mais fantasiosa.
O perigo está por perto. Se na penitenciária a vida corre por um fio nas batalhas entre grupos violentos próprios das prisões, situação nas quais é quase impossível de se manter na neutralidade; em casa, é o medo de algo invisível, intocável e traiçoeiro que pode estar do outro lada da porta. Depois de alguns dias. Se necessário sair, vê-se que tudo é suspeito de estar contaminado. As paredes do corredor e do elevador podem estar impregnadas com camadas espessas de vírus malditos; o botão, a maçaneta, a chaves, a torneira, os vidros, o chão, todos estão revestidos da morte, embaladas por cores enganadoras, reluzentes, pestilentas, brilhos do mal.
No final do corredor vem alguém. Surge a pessoa de máscara, seja esta preta, branca, colorida, ela esconde o semblante da doença malvada; os olhos ávidos se fixam uns nos outros em meio a desconfiança total e recíproca, querendo penetrar, transmitir entre retinas a vida infame. E pelo corredor estreito duas pessoas se cruzam quase de costas uma para a outra, como numa coreografia bem ensaiada, cada uma se virando autômato, sem descuidar que nem os panos da roupa se toquem.
Da janela se vê o sol que esquenta e ilumina; à noite as luzes da cidade. De longe, cada lâmpada da iluminação púbica parece um piscar frenético, às vezes ritmadas. No chão, as mangueiras com suas copas redondas, movem-se lentamente. Sob suas folhas a escuridão e a incerteza, se escondem vírus ou os milhares de andorinhas que durante o dia revoaram pelos tetos, encantando em pandemônio. Os colégios pertos estão mudos; crianças não há, carros as trazendo ou levando-as, tampouco.
Aqui está o sofá; ali a cozinha; acolá o quarto de dormir. O corredor estreito, a mesa, o quadro na parede, os troféus e as medalhas. A TV gigante não mais emite luz, não se quer vê-la. O teto é baixo, as cores são as mesmas. A vida parece ter cessado.
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Os dias passam. Uma noite, uma manhã, uma tarde, mais uma noite, outra manhã, outra tarde e logo anoitece. Mais 15 dias e outros quinze, e o bimestre,  o trimestre, o semestre… o ano? Talvez. Em qual corte dorme o processo que pode lhe tirar da prisão o Joseph e tantos outros presos, mesmo sem sentença? O laboratório de vacina, a fábrica de remédio, a UTI, o respirador, o analgésico? E qual o grupo é mais forte, a quem se aliar? O da medicina científica, da empresarial ou aquele das vozes dos postos de comando? Qual ala vencerá o próximo combate da rebelião desencadeada?
Joseph precisa ouvir a voz de comando do seu interior, e esta deve  falar mais alto. O corredor é longo, sinuoso e a espera é indefinida, mas não deve ser tormentosa. Não precisa fazer escolhas se tudo o que ocorre lá fora vai dar medo e fazer mortes. Melhor resignar-se em si, o interior pode e deve ser forte, não importa o estrondo da bomba, o rebuliço, as buzinas das ambulâncias, dos carros de bombeiros, da polícia. Os estilhaços vão chegar. E quando chegar o melhor é se esconder no próprio íntimo, fechar os olhos e viver.
Joseph continua dormindo e acordando, mas de pé, as vistas na janela do além, os olhos fechados no mundo criado no seu íntimo, entre a morte e a liberdade, no espaço secreto onde mora a santidade do seu Eu.

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