Elegia prosaica com pitadas crocantes de Bandeira

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DIÁRIO

[Elegia prosaica com pitadas crocantes de Bandeira]

Elmar Carvalho

18/07/2020

            Nesta semana, talvez por influência do “clima” da quarentena covidiana, estive apático, sem ânimo, indisposto, com forte tendência a ficar quieto; sem ânimo e sem motivação sequer para ler, quanto mais para escrever.

            Parece que esse estado espiritual me afetou até fisicamente, porque me senti como se estivesse doente, com certo mal-estar em minha saúde. Isso me provocou uma espécie de cansaço, uma moleza no corpo, uma lassidão geral, que me empurrava para a inércia. Como no primeiro verso   de Desalento, belo e melancólico poema de Manuel Bandeira, parecia se abater sobre mim “Uma pesada, rude canseira”. Até me parecia que a sua merencória estrela me sussurrava “que assim fazia / Para dar uma esperança / Mais triste ao fim do meu dia.”

            Não era bem uma tristeza e muito menos a famigerada e terrível depressão, mas, como disse, uma apatia, uma indiferença, uma vontade de nada fazer, de não agir. Talvez fosse a busca de uma espécie de nirvana sem tristeza e sem alegria, do não ser, do nada desejar, e por isso mesmo me quedava no tédio dos saciados. Acaso tudo poderia ser resumido numa simples expressão: falta de vontade.

Uma pequena e fugaz dose de tristeza pode ser benéfica, por vários motivos, que não desejo aqui enumerar, mas apenas dizer que ela nos enriquece espiritualmente, porque serve para que compreendamos a tristeza de nosso próximo e para que valorizemos as nossas conquistas e os nossos momentos de mais genuína alegria.

O sublime poeta Manuel Bandeira, que chegou a se classificar, talvez por simples modéstia ou apenas por blague, como poeta menor, em sua tristeza de tísico e solitário, que conseguiu driblar a morte, naquele tempo em que a tuberculose ainda não tinha tratamento muito eficaz, dizia que “Só a dor enobrece e é grande e é pura”, e nos exortava: “Aprende a amá-la que a amarás um dia.” E ele percebia tristeza até nas “Sempre tristíssimas (…) cantigas de carnaval”, tão cheias de paixão e traição, encontros e desencontros e de amores não correspondidos.

Mas no sábado, dia 18, quando iniciei este registro um tanto elegíaco, comecei a recuperar a minha energia vital. Aliás, o carregador dessa energia é invisível, e não tem plugues, nem tomadas, como os de nossos aparelhos eletrônicos.

Sacudi para longe de mim essa lenta lesma gosmenta, que se me grudava como um velocino venenoso, que me deixava nessa letargia, nessa sonolência doentia, que não era sono, e vigília não era.

Bandeira, no poema “Não sei dançar”, afiançou que “Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria”. Eu, admirador de sua alta poesia, lhe seguindo o exemplo e o conselho, tomei um grande gole de alegria, e mandei o desalento “da mais profunda melancolia” da Orquídea Negra de Zé Ramalho para os quintos do inferno, ou, se o leitor preferir, para o bilinguinguim do inferno de nosso estimado Carlos Said.

E até poderia tocar, como em Pneumotórax, um tango argentino.

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