UM TREM PARA VER MORENINHA

Por Pádua Marques (*)
 
 

Naquela hora da manhã o largo da estação da Estrada de Ferro Central do Piauí, no Macacal, já não cabia uma cabeça de prego que fosse, tanta era a quantidade de gente pronta a embarcar nos vagões pra ir até o Campo de Aviação do Catanduvas, lá em cima, ver de perto o avião que o Aero Clube de Parnaíba havia ganhado e que iria fazer seu primeiro voo. Era gente que não acabava mais, feito Domingos Clarindo, vendedor de pirulitos de açúcar queimado.
Domingos Clarindo aproveitou também pra trazer naquele passeio os cinco meninos menores, Domingos Filho, Raimundo, Genésia, Pedro e Socorro, tirando eles de dentro daquela casa pequena nos Campos e pra mostrar o movimento dos aviões. A toda hora corria um boato entre aquela multidão sobre a hora da partida do trem e enquanto isso, era chegando mais gente, chegando mais gente. Gente vinda de Ilha Grande, Buriti dos Lopes, Piracuruca, Bom Princípio, Cocal, Amarração, tudo enfim e quanto era canto.
Vendedores de laranjas, café, bolo de tora e de goma, bananas, refrescos, roletes de cana, bolos de milho, toda sorte de coisa pra comer e beber naquele dia de sol quente e limpo na Parnaíba de 1942, três anos depois de ter rebentado uma guerra na Europa e que começava a causar dor de cabeça nos homens da Casa Inglesa, Marc Jacob e do Moraes, essa gente que havia formado fortuna com a cera de carnaúba. Já não havia muito movimento no porto Salgado e o porto de Tutoia causava era pena.
Mães e pais com seus filhos vestidos com as roupas de domingo, aquelas roupas de ir à missa, estavam esperando o trem dar sinal de que iria sair. Alberto de Moraes Correia estava rindo à toa com o feito. Tudo aquilo era o resultado de uma campanha imensa da Rádio Educadora, de Edison Cunha, Elias Magalhães, Benedito Jonas Correia e Fonseca Mendes. Haviam conseguido com a Companha Nacional de Aviação Civil, três aviões, o Moreninha, Alfredo Gomes e Rangel Pestana..
Alberto de Moraes Correia, um dos diretores do Aero Clube de Parnaíba, estava cheio de rapapés pra Souto Maior, um dos maiores pilotos brasileiros da época e que trazia o Moreninha, o primeiro dos três aviões. Mas era muita gente indo e vindo procurando uma brecha nos vagões, rezando. Vicente e a mulher, dona Ana, vieram da arenosa Guarita prontos pra embarcar rumo do Campo de Aviação do Catanduvas.
Deixaram os meninos menores com a avó dona Inácia, mas levaram o maior, Vicentinho, de uns oito anos e que já não dava trabalho em meio de gente. Vicente, assim como tantos outros homens de sua idade, que pouco sabia assinar o nome, ia tomar pé de algum serviço. Via longe aquele negócio de avião e estrada de ferro. Vai que mais lá pra frente precisasse de gente pra trabalhar limpando avião, varrer e juntar o cisco nas oficinas, essas coisas? O filho até ali não tinha feito vergonha ao casal. Olhava tudo e a todos admirado, mas encabulado.
Na hora do embarque no vagão, Vicente, a mulher, o menino e os outros foram empurrados pra dentro feito gado indo pra o matadouro naquele atropelo de dar medo. O menino quis, mas engoliu o choro com medo de levar um puxão de orelhas da mãe. Aguentou firme os coques que levou na cabeça, de uns moleques de ponta de rua, dois vendedores de tapioca, mas ficou ali com os olhos fitos em tudo. Empurrões, gritos, insultos, nome feio, mas em pouco tempo e todo mundo acomodado, o apito da máquina dava sinal de que eles estavam indo no rumo do Campo de Aviação do Catanduvas. 
 
Depois veio a mata rala do Macacal e aquela gente olhando pra esquerda e depois pra direita, boca aberta com as carnaubeiras dentro dos alagados, algum passarinho voando assustado e deixando o ninho nalgum galho de pé de sabiá por causa do barulho e da fumaça do trem. De repente vem de cima sentido de que mais gente já estava lá ou que caminhando preferiu ir a pé. Um casal aqui, dois ou três colegas mais na frente, seis rapazes ou mais caminhando rente aos trilhos, cantando e contando lorota pra matar o tempo.
E aquele terror de sol não tirou aquela gente de dentro de pouco tempo estar descendo com a mesma violência com que havia subido em Parnaíba, agora na frente do campo, aquele lugar distante, sem um pé de pau pra se ficar embaixo e apenas as grandes oficinas onde estava o Moreninha, o prefeito Mirócles Veras, o pessoal do Aero Clube, soldados e a banda de música. Dali mais um pouco Souto Maior faria a exibição com o Moreninha e o povo iria bater palmas, dar gritos, chorar. Coisa de fazer até menino se mijar de medo.
Souto Maior estava ali pra impressionar o povo junto com aqueles maiorais da Parnaíba e não causou vergonha. Com o macacão de piloto e depois de levar o Moreninha pra pista e tendo todo o tempo Alberto de Moraes Correia e outros rapazes ricos do lado. Veio de lá um sujeito e deu um movimento numa das hélices e quase que no mesmo momento, questão de segundos, ela se pôs a girar fazendo muito barulho. O Moreninha corre um pouco na pista de piçarra se sustentou no ar e ganhou altura, pouco mais de trezentos metros. Depois daquilo tudo, daquele dia de admiração com tudo que havia visto, agora era voltar pra casa e contar pra quem não viu.
(*)Pádua Marques escritor contista e jornalista. Membro da Academia Parnaibana de Letras.
 

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