A extensão da dúvida.

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*Nailton Rodrigues.

 

Eu estou aqui. Como sempre estive.

Como sempre fui. Cá sou. Como sempre canto. Como ao canto vou.

Como vi e li, como lhe vi lá. Como não conti-me. Como fui gritar?

Eu estou aqui. Como sempre estive.

Sendo observador no mesmo instante que perco muitas coisas da vista.

Cá estou. Cá estive, cá estarei. Odiando o imprevisível.

Convencendo-me de que o mesmo é inevitável. Namorando só, o casal admirável.

Eu estou aqui. Como sempre estive. A me arrepender. Cá estou. Cá vou padecer. Cá me conheci. Cá me convenci. De que vou morrer.

Eu estou aqui. Como sempre estive. Como cá estou. Cá não vens me ter.

Cá te vejo ao longe. Cá não quero ter.

Estou aqui e aqui estarei. Estou aqui hoje, bem mais que ontem. Estarei aqui amanhã, bem mais que hoje. Bem mais que hoje estarei.

Eu estou aqui. Mas onde está, oh! Aqui? Sei que estou aqui, mas cá entre nós, desconheço onde estou.

 

 

 

 

 

 

 

 

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O duro estímulo.

 

Inverteu-se tudo.

O que era doce, amarga-me os lábios.

O que aparentou ser reluzente, era fosco!

O que punia, tornou-se consolo.

O que aconteceu?

Como o escuro brilhou sobressaindo a luz que cegava os homens?

Como ficará a zebra e sua indecisão?

És preto e branco ou branco e preto?

Ora, pois, és irrelevante!

Agarra-te ao crânio teu

Encoste os joelhos no cansado seio

Pranta em voz alta, pranta!

Põe para fora teu desgosto, miserável!

Nada que fizeste te dará descanso.

Só acaba, quando enfim termina.

Não quis tu mesmo ir ao labirinto?

Como clama para sair?

Não sabia que seu “gran’porque” custava sua paz?

Quis o muito, sem a muita cobrança?

Ha ha! Descobriu que és tu o sumo credor?

Pranta, velho jovem, pranta!

Não sei e estão certos em dizer que

O choro lava a alma, mas sei que seu pranto alivia.

Ô se alivia!

 

*Nailton da Silva Rodrigues, estudante do curso de História no Campus Alexandre Alves de Oliveira, UESPI, Parnaíba. Em 2016 como estudante do ensino médio, na Unidade Escolar Edison da Paz Cunha, foi medalhista de prata na Olimpíada Brasileira de Língua Portuguesa. nailton

 

 

 

 

 

Apenas mais um dia de trabalho, na vida de um professor…

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O despertador toca! Acordo ainda um tanto cansado, pois, afinal, passei boa parte da noite do dia anterior (Domingo), corrigindo provas e redigindo planos de aula…

   Levanto e sigo à procura do banheiro… Depois de um longo banho, toalha e roupas… Tento comer algo às 06h45min… Não consigo! Dou uma breve olhada em minha bolsa, verificando se falta algo importante… Sinto falta de meus pincéis… Passeio pela casa à procura deles… (Coisas de quem têm filhas pequenas, fazer o quê!).

     Já passa das 7, quando enfim, saio de casa… O destino? Unidade Escolar Cândido de Oliveira (Bairro Centro). Duas aulas seguidas na sétima série do Ensino Fundamental. Lá, encontro o Diretor Paulo Bastos, que atenciosamente me pergunta como estou:

     – Levando! Eu digo…

      Fruto do sono que ainda me castiga até o momento… Porém, quando entro na sala, e principalmente, quando inicio o contato com os alunos, começo a melhorar, terminando de despertar então…

    Entre 07h45min e 09h15min, tento explicar para jovens de 12 a 14 anos, inquietos e criativos, a importância da Revolução Francesa, assim como seus antecedentes históricos e ramificações, ligando a aspectos atuais de suas próprias vidas, como normalmente faço, a fim de que o interesse por parte deles, alunos, seja maior, e dessa forma, a assimilação e aprendizagem também.

     Ao fim, acredito que consegui… Talvez… O tempo me dirá!

    A campainha para o recreio toca. Encaminho-me para a sala dos professores, para um pequeno bate-papo e uma rápida e improvisada reunião, a fim de tratar de um tema já bem conhecido pelos professores: O Sábado Letivo!

    Já passa das 10h30min, quando subo em minha moto e sigo para o centro comercial da cidade. Preciso tirar algumas cópias de provas relativas ao bimestre… No caminho, aproveito para comprar mais pincéis, pois como a cultura popular já eternizou: “É melhor prevenir do que remediar!”.

    Enquanto espero as cópias serem tiradas, pego o livro de História e dou uma olhadinha no assunto que ministrarei à noite. Antes que eu termine o último parágrafo, sou “despertado” pelo atendente do comércio, me entregando as cópias… São 11h30min, e volto para casa, a tempo de almoçar…

    Antes que os ponteiros do relógio de parede da minha sala apontem 12h40min, já me encontro novamente banhado e arrumado. Despeço-me de minhas esposa e filhas, com beijos e abraços, e parto para a escola Jeanete Souza (Bairro Joaz Souza). Tenho 4 aulas seguidas nesta tarde, respectivamente, nas turmas de 1°, 2° e 3° anos do Ensino Médio.

    Entre 13h00min e 16h15min, “viajo”, juntamente com os alunos, sobre diversos temas, como: Capitalismo (em suas várias fases), Revolução Industrial, Globalização, Brasil Colônia, Conjuntura política e social do Piauí no século XX, e tantos outros assuntos pertinentes e importantes para o aprendizado destes incríveis adolescentes, que tanto já aprendi a gostar e a respeitar…

            Antes de partir, converso um pouco com a dedicada e esforçada coordenadora do colégio, Noeme, que me relata:

     “Tive uma excelente notícia essa semana! Tem uma ex-aluna minha que iniciou os estudos aos 19 anos aqui na escola, na Classe Especial, pois era deficiente auditiva em virtude de meningite quando criança… Na época foi um desafio para mim, já que ela não conhecia Libras (Língua Brasileira de Sinais) e nem fazia leitura labial, tanto que, tivemos que orientar a mãe da garota sobre onde conseguir acompanhamento com Fonoaudióloga, e em pouco tempo ela estava em tratamento, e com sua dedicação aos estudos, se tornou a melhor aluna da classe, sendo inclusive monitora… O certo é que, descobri recentemente que em sua nova escola, ela foi destaque na Olimpíada de Matemática”.

Continua:

“Ensinar sempre foi algo mais que um mero trabalho. Aprendi muito ao educar e ajudar na formação de crianças e jovens… E o mais surpreendente na vida, é como as boas ações sempre possuem bons retornos… Havia dois outros alunos meus que deram continuidade em seus estudos e que hoje trabalham em hospitais, e que coincidentemente um deles estava de plantão,  como técnico de enfermagem,  quando do nascimento do meu filho, em Caxias…”.

E completa:

    “O magistério sempre exerceu um fascínio sobre mim, talvez pelas queridas mestras que tive: Rosilene, Vilma e Emília, que sempre estão nas mais doces lembranças de minha infância. Além de ótimos exemplos a serem seguidos e busca de melhor preparo profissional, procuro obedecer à orientação do Apóstolo Paulo em Romanos 12.7: ‘aquele que ensina, faça-o com esmero’ (muita dedicação)”.

      Noeme Vieira dos Santos Pinto é filha de Paulo Rodrigues dos Santos e Doralice Vieira dos Santos, irmã de Loide e Jairo, nascida em 28 de março de 1964,  em Livramento, povoado de Coroatá-MA,  local onde viveu até seu pai ser transferido para Caxias, onde seus pais permanecem até hoje. Nascida numa família Evangélica Batista, sempre primou pelo estudo e prática da Bíblia, se envolvendo nas atividades da Igreja, e acredita que “respeito, amizade e outros pilares fundamentais para um crescimento social e espiritual saudável”.

    Toda a sua vida escolar foi em Caxias: Escola Batista Eurico Nelson, Colégio Estadual Eugênio Barros, Colégio Estadual Duque de Caxias, Colégio Caxiense e Colégio Diocesano. Ao concluir o Ensino Médio, passou um ano trabalhando e em seguida foi estudar, recomendada pela 1ª Igreja Batista em Caxias, no Seminário de Educadoras Cristãs, em Recife-PE, formando-se como Bacharel em Educação Religiosa com Habilitação em Música Sacra.

    Ao concluir o curso, foi trabalhar em Igrejas Batistas de São Luís: “Em gozo de férias conheci um jovem pastor, amigo da família e já se vão 19 anos desde que nos conhecemos. Ficamos amigos, namoramos, noivamos, casamos  e temos um filho, hoje adolescente”.

    Alguns anos depois, já em Parnaíba, se tornou professora da rede pública estadual e municipal, foi aprovada  no vestibular e graduou-se em Licenciatura Plena em Pedagogia, com Habilitação em Administração e Supervisão Escolar, pela UESPI e depois Cursou Especialização em Gestão Escolar, pela UFPI.

* * *

       Despeço-me de Noeme, ao mesmo tempo em que olho para o relógio de parede da sala dos professores:

    -16h40min! Preciso buscar minhas filhas na escola!

    Percorro rapidamente o caminho, atravessando a cidade, “de uma ponta à outra”, e acabo chegando alguns minutos antes delas saírem… Enquanto espero, lembro da minha vida de estudante, de como naquele tempo, as preocupações eram outras… Bem mais leves… Sou “acordado” pelo chamado delas, Carolina e Ingrid, minhas gêmeas, que saem naquele instante com suas pequenas mochilas nas costas…

    Sigo com elas para casa, chegando, olho novamente para as horas: 17h20min! Jantar, banho e roupas… Novamente pego minha bolsa, as chaves, da casa e da moto, e dirijo-me para a Escola Normal (Bairro Nova Parnaíba). Chego às 18h20min, a tempo de conversar um pouco com a amiga e coordenadora do Cursinho Popular, Cristiane, que me fala: “Sabe, Ciarlini, aprendi muito na época em que ministrei aulas de História…”.

     Cristiane Maria Santos tem hoje 45 anos, e é filha de José de Souza Santos (in memoriam) e Maria Gomes de Souza Santos. É parnaibana, nascida nesta cidade, e formada em Pedagogia pela Uespi, sendo também Especialista em Informática na Educação pelo Iproinfo/ MEC.

    Iniciou sua vida profissional com 19 anos (em 1984), na rede pública estadual, ingressando na Unidade Escolar João Cândido, depois foi transferida para a Unidade Escolar Mestre Samuel Mota, onde também foi Gestora.

Mas segundo ela:

“Aprendizado maior foi quando assumi turmas de Artes e História na Unidade Escolar Cândido Oliveira, de 1998 a 2007”.

Continua:

“Trabalhei como professora desta escola até 2003, depois assumi como coordenadora pedagógica, e na época, a gestora era a professora Eufrásia Mateus Pereira, conhecida em nosso meio como Léa”.

E completa:

“Com a Léa aprendi muito, pois seus princípios de trabalho eram: a amizade, solidariedade, responsabilidade e amor ao próximo”.

    Em 2008, à convite da professora Amparo Brito e de Vandercy Carvalho, assumiu o cargo de Técnica da Coordenação de Ensino Aprendizagem, que tinha como Gerente Regional (na 1° Gerência Regional de Educação), na época, era a professora Fátima Carmino, que segundo Cristiane: “Fátima Carmino foi uma grande incentivadora da educação parnaibana”.

    Logo depois, assumiu o cargo de Técnica da Lotação (também na 1° GRE), onde ficou até maio de 2010, quando passou a trabalhar como Coordenadora do Cursinho Popular (Parceria do Instituto Civitas e a Seduc). Estando lotada agora no CEJA – Centro de Estudos Supletivos Jonas Correia. É Paletrista do Tema: Ensino Fundamental de 09 anos, no Curso de Desenvolvimento Infantil.

Mãe orgulhosa, ela declara:

“Sempre tenho como exemplo e incentivo minha filha Maria da Graça Santos, que tem 22 anos e é Bacharelanda em Direito na Fap, pessoa de fibra e excelente caráter, que nunca se deixou abater pelo desânimo, uma filha muito amada e uma amiga incondicional”.

    Com 26 anos dedicados ao Magistério e “sem se arrepender em nenhum momento da escolha da profissão”, ela recita um trecho de uma canção que muito admira, ao terminar a breve conversa: “Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi…”.

* * *

       Entre 18h30min e 20h10min, ou seja, em duas aulas de 50 minutos cada, regressamos, eu e os alunos (tão ávidos de conhecimento), à Idade Média, de seus feudos, senhores, vassalos, santos  e demônios… Quando a segunda aula termina, me despeço desses interessados estudantes, que dentro de poucos meses irão fazer vestibular… Alguns, pela primeira vez…

     Chego a lembrar, mesmo que por alguns instantes, de quando escolhi fazer o curso de História, atitude que não agradou muito os meus próximos, pois esperavam que eu fizesse o curso de Direito…
É quando chego a minha moto, e acionando a ignição, sigo para a escola Cândido Oliveira, a mesma que comecei o dia, para ministrar mais duas aulas…

    No caminho, passo em frente à escola Edson da Paz Cunha (onde já ensinei em anos anteriores) e, tendo eu, alguns poucos minutos, resolvo fazer uma “visita relâmpago” à coordenadora do período da noite: Lourdinha, que me diz: “Quanto tempo, hein “seu” Claucio? Pensei que tinha esquecido da escola!”.

    Muita correria – eu explico, ao mesmo tempo em que pergunto como estão as coisas… E lembro, juntamente com ela, do tempo em que ensinei no Edson da Paz Cunha, e de como admirava a atenção e preocupação que Lourdinha tinha para com os alunos, e principalmente o respeito que os alunos devotavam a ela, fruto de uma relação não apenas profissional ou fria, mas uma amizade fraterna ou calorosa…

  Sinto saudades de dar aula aqui, eu declaro… E ela responde: “Estamos de portas abertas… Venha nos visitar quando quiser!”.

             Maria de Lourdes França Rocha nasceu em 04 de fevereiro de 1957 e é Filha de Ivo Cordeiro da Rocha e Ana Rosa da França Rocha. Estudou nas escolas: Simplício Dias, Lima Rebelo e Escola Normal Francisco Correia. Cursou Economia e Pedagogia na Universidade Federal do Piauí e foi onde também se especializou em Ensino e Aprendizagem. Passou em 1984 para o concurso para a Rede Estadual de Ensino, desempenhando hoje o cargo de professora e coordenadora da Escola Edson da Paz Cunha. Também foi aprovada em 1994 no concurso para prefeitura municipal, tendo ministrado aulas em algumas escolas como a Escola Municipal Mário Menezes e, atualmente, na escola Municipal Roland Jacob.

    É como ela mesmo cita: “Participante e praticante da Igreja Católica Apostólica Romana, e a minha fé, como também os ensinamentos de minha religião, muito já me auxiliaram nos anos que já leciono… Valores éticos, morais e cristãos, que tento repassar para os alunos, professores e amigos, que mantenho contato…”.

* * *

     O relógio anuncia o fim da boa conversa, já passam das 20h31min, e preciso estar no “Cândido” às 20h40min, para a minha nona aula do dia. Sigo um tanto apressado, torcendo para que todos os sinais de trânsito do trajeto estejam apenas verdes…
Por segundos, começo a lembrar do período da faculdade, as aulas, os colegas, os professores,  os estágios, a monografia…

    “Acordo” com uma buzina de carro, que entra de forma precipitada e errada à minha frente, quase causando um acidente, fato corriqueiro aqui na cidade de Parnaíba nesses atuais tempos, infelizmente…

    Dou sorte, e ainda consigo chegar 2 minutos antes de tocar o sinal…

   Aproveito para, enquanto pego minha pasta de diários, esclarecer algumas dúvidas sobre as datas das provas com a coordenadora Hânia, que depois de esclarecê-las, me confessa:
“Sempre gostei muito de História… Lembro-me que desde a infância minha principal diversão era ler, principalmente livros de História. Minha mãe, como professora da disciplina, sempre recebia os livros das editoras e, eu e meus irmãos, ficávamos escolhendo quais livros iríamos ler primeiro…”.

E continua:

“Eu lia tanto sobre o assunto História que certa época, quando eu tinha meus 17 anos, minha mãe adoeceu, e consegui substituí-la por 2 semanas na escola Clovis Salgado, onde ela ministrava aulas e onde quem era a diretora na época, era a Dona Maria da Penha… Lembro-me que a Dona Maria da Penha ficou assistindo todas as minhas aulas… Foi um teste de fogo para mim, pois ela, apesar dela (Maria da Penha) ser uma profissional dedicada e uma excelente pessoa, era um tanto rígida às vezes…”.

E conclui:

“Porém, os alunos gostaram, e acredito que ela também, pois anos mais tarde, quando a Dona Maria da Penha se aposentou, ela indicou meu nome para substituí-la…”.

   Hânia Maria Mota Machado nasceu em 10 de dezembro de 1967, é filha de José Maria Pereira da Silva e Conceição de Maria Mota da Silva. Nasceu em Floriano, mas logo aos 5 anos de idade mudou-se, com a família, para Parnaíba. Foi estudante das escolas José Narciso, Visão e Escola Normal. É formada em Pedagogia na Universidade Federal do Piauí e Especialista em Administração Escolar.

    Foi também coordenadora da Diocese de Parnaíba e de outros projetos importantes para a comunidade parnaibana. É professora efetiva do quadro de professores do Estado do Piauí há quase 20 anos, tendo lecionado em diversas escolas, públicas e particulares, da cidade. Uma profissional exemplar e sempre preocupada com o bem-estar e a evolução dos alunos.

* * *

     Às 21h50min, perto de encerrar minha segunda aula no terceiro ano do Ensino Médio… Que concluiria às 22h00min… Analiso com meus bravos e corajosos alunos (pois a grande maioria deles já tem filhos e ainda passa o dia trabalhando e à noite na escola), o lamentável fato ocorrido na História da humanidade: Primeira Guerra Mundial.

    Já terminando a aula, tento manter o mesmo sorriso e empolgação de 14 horas (e 10 aulas) antes… Mas quando a voz começa a falhar e o braço direito a doer, sinto que está na hora de, enfim, sentar na cadeira, parar e descansar… Não tenho mais 15 anos, e nem tão pouco sou mais atleta… A idade me bate à porta, me avisando que a juventude já está se despedindo, e que a maturidade, geralmente, vem sempre acompanhada de dores, problemas e doenças, provenientes de excessos e exageros de toda uma fase adolescente…
Faço a chamada, anoto o conteúdo ministrado e encerro a aula, dando um desconto para mim e para os alunos, de cerca de uns 2 minutos… Caminho devagar para a sala dos professores… Ao chegar, tomo um copo de água e assino meu “ponto”. Despeço-me do pessoal da secretaria, pego a moto e dirijo até minha casa… Subo os degraus, passo a chave no cadeado e abro a porta…

    Sou recepcionado por minha família, o fator principal de minha vida… Assisto um pouco de televisão, brinco um pouco com as crianças, converso com minha esposa… Olho para o relógio da sala, pela última vez no dia… Ele marca 23h30min… Lembro que tenho que planejar a aula da manhã seguinte… Termino cerca de 40 minutos depois, já é outro dia, plena madrugada… Programo o despertador para 6 horas da manhã… “Daqui a pouco”, eu penso… Vou para cama… Exausto, mas feliz… Por fazer o que eu gosto… O que eu escolhi para ser minha profissão… Aquilo que me dá prazer e satisfação… Por mais um dia de aula, na vida de um professor… Vivendo, ensinando e aprendendo, na inesquecível e brilhante: Arte de educar!

Claucio Ciarlini (2010)

SALADA DE FRUTAS

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       Sentada numa mesa no cantinho, com sua cerveja geladinha  e um prato de petisco, o  João, aquele cara calado, que pouco fala, que pouco  rir  observa aquela gente tão animada que participa de uma festinha íntima.

    E pensa consigo mesmo. Come se rebola e se oferece a mulher do José. E ele só fica rindo com cara de banana.

    Na rodinha dos políticos só se fala em abacaxi. Partidos que se desentendem, as brigas pelas disputas de cargos. E por ai vai…

  E quando a Zoraida adentra na festa com uma roupa extravagante, João pensa baixinho. Essa mulher gosta de chamar atenção. Qualquer dia pendurará uma melancia no pescoço.

    Continuando com um olhar crítico, observa o Pedrão. O homem rico da cidade que está a se pabular no meio dos grandalhões. Em menos de um ano comprou mais vinte prédios, trocou de carros várias vezes e não se sabe de onde vem tanto dinheiro. Laranja  dizem as más línguas!

    O Abelardo é um mau humorado.  Sempre com a cara de quem chupou limão azedo. A Guiormar nem parece que fez tantas plásticas continua enrugada que nem um maracujá. Em compensação a Paulinha é um amor de nordestina. O moranguinho do nordeste. E a Claudinha é uma bela menina. Uma uva!

João lá, tomando sua geladinha e fazendo suas observações ao som de Alceu Valença:

 Da manga rosa  quero o gosto e sumo
Melão maduro, sapoti, juá
Jaboticaba  seu olhar noturno
Beijo travoso de umbu cajá
Pele macia é carne de caju…

    DO LIVRO “VOU TE CONTAR” 2008
MARIA DILMA PONTE DE BRITO APAL
CADEIRA 28
PATRONO LÍVIO LOPES CASTELO BRANCO
1ºOCUPANTE HUBERTO TELES MACHADO DE SOUSA

 

VICE VERSA

 

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        Indecisão, hesitação, irresolução, determinação, deliberação, coragem, desembaraço.
Alguns têm alto poder de decisão. Resolvem tudo no piscar de olhos e sempre se saem bem em suas determinações. Outros hesitam, são indecisos, como Samaritana. Ela não tinha desembaraço nem coragem de decidir em curto prazo. Estava sempre pedindo tempo, pensando, refletindo e querendo opinião. Era irritante ir com ela ao supermercado. Escolher um xampu é um Deus nos acuda. Uma dúvida cruel, meu cabelo é oleoso ou seco? Compro pra cabelos normais ou danificados? Torra a paciência de quem a acompanha.

       Nem gosto de lembrar quando ela foi trocar de carro. Extrapolou a conta telefônica ligando para um e para outro pedindo informações. Dormia na certeza que tinha escolhido a marca, a cor, o modelo, mas quando o dia amanhecia começava tudo de novo. Ligava para o Paulo, para a Anita, para o Gabriel pedindo ajuda na escolha do veículo.

      Até na manicura ela dava trabalho na hora de escolher o esmalte. Perguntava a todos que estava presentes qual a cor mais bonita.
Na verdade ela era a tal “Maria vai com as outras”, sua opinião, sua vontade não valia. Sua vida era decidida pelos outros. Sempre procurava saber de fulano que já usou, de cicrano que tem igual.

       Samaritana era quase uma quarentona e ainda estava solteira. Era do tempo que o casamento era indissolúvel e não podia errar na escolha. Se para coisas mais simples era aquele “lero-lero” imaginem escolher um marido. Dispensou o Pedro, o Mário desistiu de tanto esperar uma resposta, e sendo assim,  ela continuava só. A moça já tinha se conformado que morreria virgem quando de repente surge um Fernando em sua vida pedindo logo sua mão para um compromisso sério.

       Ai meu Deus! Que dilema. Ela sabia que seus amigos iriam dizer que aceitasse, mas neles não podia confiar porque todo mundo queria que saísse do caritó. E depois nenhum deles  conheciam Fernando. A quem deveria perguntar?

        E foi assim, que Samaritana tocou o interfone da casa de Verônica.
– Pronto, pode falar.
– Você é ex-esposa de Fernando?
– Sim. Quem é você?
– Sou a futura esposa dele. Aliás, serei depende das informações que você me passar.
– Olhe, não vou nem mandar você entrar porque não compensa. O que você quer saber eu posso lhe dizer em poucas palavras. Esse material é de terceira qualidade, pode jogar no lixo.

       Samaritana saiu pensativa. Diferente das outras vezes que diante de uma informação dessa natureza, deixou várias vezes de  fazer bons negócios ou mesmo comprar um perfume, de ir uma festa. Sempre que alguém lhe dizia não presta, estava encerrado. Buscava outra opção. Mas,  essa seria com certeza a  última oportunidade de encontrar um marido, já estava passando da idade, teria que pensar.
Ao cair da tarde, Fernando chegou para ter a resposta final. O “sim” ou o “não”. Baseada nas histórias passadas todos já sabia que o rapaz levaria o “não”.  Fernando segurou as duas mãos de sua amada e perguntou:

– Quer casar comigo?
– Sim.

       Samaritana quebrou o “paradigma” que lhe acompanhava até aquele momento, casou com Fernando, está feliz no seu lar doce lar, e hoje ela ensina aos outros. O que é bom pra você pode não ser para o outro.

                                                            E vice-versa.

 

DO LIVRO ” O QUINTO” INÉDITO
MARIA DILMA PONTE DE BRITO APAL
CADEIRA 28
PATRONO LÍVIO LOPES CASTELO BRANCO
1º OCUPANTE HUMBERTO TELES MACHADO DE SOUSA