Degraus da humildade

Sem título

Viva, mas não abuse.
Elogie, mas não bajule.
Estude, mas não se bitole.
Proclame, mas não exagere.
Valorize-se, mas não se ache.
Cresça, mas não se sinta gigante.
Veja, ouça, cheire, mas nunca julgue.

Ame, sem medida. Ao amor não se dá limite.

                 Claucio Ciarlini (2016)

Entre sabores, conquistas e momentos nostálgicos!

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           Existem lugares que marcam uma cidade, que entram para a história, resistindo ao tempo e que se tornam algo muito além de um cartão postal. São lugares de memória, de extrema afetividade, e que nos conduzem aos mais diversos momentos, possuindo uma ímpar capacidade de nos fazer esquecer todo e qualquer problema, quando, naquele instante, estamos a contemplar e viver, aquele ambiente de emoção.

            Encontro-me de frente à Sorveteria Araújo. Qual delas? Você, caro leitor, ainda irá perceber. Mas o fato é que, depois de muito tempo e planejamento, adentro a este estabelecimento, que como já citei no primeiro paragrafo, é um destes simbólicos lugares de memória, de nostalgia, da nossa sentimental Parnaíba. Particularmente falando, um dos mais. Enquanto espero o dono do local chegar, no intuito de uma entrevista sobre sua trajetória, não resisto, mesmo em serviço, e acabo comprando um sorvete. E a cada colherada, como de costume, o sabor se mistura às lembranças, de toda uma vida, no que o mundo real deixa de existir… Ou ao menos, foi assim por um tempo, pois antes que eu terminasse de degustar aquela preciosidade, o meu entrevistado chega, fazendo com que eu retorne à realidade, embora ele, na educação de costume, tenha me dito: fique tranquilo, pode terminar o sorvete, eu aguardocolorized-image. Indo então para o balcão e verificando cada freezer, no que permaneceu com aquele olhar de serenidade e de simpatia, como que orgulhoso, não apenas de tudo que conquistou, mas principalmente da alegria que tem proporcionado a tantas pessoas, num tempo que seu comércio se aproxima das cinco décadas. Isso se contarmos apenas o tempo de sorveteria. Porque na verdade, a história deste senhor, que muito tem contribuído com a história de nossa cidade, começa bem antes.

            Nascido na cidade de Marco, Ceará, no feriado de 7 de setembro de 1937, Miguel Araújo Rios é filho caçula do casal José Araújo Rios e Ana Edite Mendes. Seu grande caráter e espírito administrador, foram alicerçados por eles, é o que me declarou, no que também comentou, ao se referir ao progenitor: meu pai era um homem que não tinha muita cultura, mas ele tinha uma grande visão e sabia muito bem cuidar e orientar os filhos… me inspiro muito nele!

            Os primeiros vinte e quatro anos de vida, Araújo passou em sua cidade natal, lugar onde casou e onde nasceram os dois filhos. Veio a década de 60, e a família se muda para Parnaíba na busca de mais oportunidades e uma vida melhor: quando chegamos na cidade, eu coloquei um mercadinho no bairro São José. Depois comprei uma máquina de fazer sorvete e picolé, mas eu não sabia muito fazer. Meu amigo Juarez, na época, empregado de uma padaria que ficava perto da Praça da Graça, fazia um sorvete muito bom e eu pedi para ele me ensinar. No início, ele levou meio que na brincadeira, mas depois deu certo. Um tempo depois, ele deixou a padaria e montou uma sorveteria.

            O sucesso na venda dos sorvetes, fez com que Juarez mudasse para Fortaleza, na procura de crescer ainda mais. Hoje é proprietário na capital cearense de sorveterias muito populares como: 50 Sabores, Sorvetão e o Sorvete do Juarez.

            Com a partida de Juarez para o Ceará, Araújo resolveu fechar o mercadinho e abriu a própria sorveteria, porém o inicio não foi tão fácil: em agosto de 1973, eu abri minha sorveteria na Praça Santo Antônio, só que o primeiro mês não apareceu ninguém! Eu lembro que queria que entrassem pelo menos para pedir água, mas nem isso!(risos), cheguei a comentar com minha esposa, que se passasse mais dois meses sem aparecer ninguém, teríamos que fechar.

            Porém, antes que Araújo desistisse do ramo de sorvetes, para a sorte dele e de inúmeros parnaibanos, dois senhores entraram na sorveteria: eram Darcy Mavignier, muito conhecido, da Estrada de Ferro, e Pires de Castro, que era diretor da Receita Federal… entraram e gostaram, passando a frequentar quase todos os dias e até levando amigos! Um destes amigos foi o Jornalista Rubens Freitas, que também se tornou fã dos sorvetes e passou a divulgar o estabelecimento: eles levaram o jornalista Rubem Freitas, ele gostou e colocou no jornalzinho dele, e depois disso, o negócio pegou… Pegou e foi rápido! Graças a Deus.

            A publicidade e o boca a boca logo fizeram a sorveteria se tornar um grande sucesso, gerando um retorno rápido, nada mais justo em razão de todo o trabalho e suor empregados até aquele momento, e muito antes da sorveteria. Sobre os resultados, comenta: 15 meses depois, eu estava comprando um carro, logo depois comprei a casa e depois fui comprando os outros imóveis, onde foram sendo instaladas as outras sorveterias.

            Ainda sobre os anos 70, Araújo lembra que: durante muito tempo, o movimento era na Praça Santo Antônio, onde jovens iam passear para conversar, namorar, tomavam sorvete e geralmente ficavam de cinco da tarde a sete e meia da noite para e depois iam para Beira-Rio, que era o point da época… Muitos casais que estão até hoje juntos, começaram a namorar, tomando sorvete e passeando na Praça Santo Antônio!

            A segunda sorveteria foi inaugurada nos anos 80, na Avenida Chagas Rodrigues, época em que, ainda criança, conheci e passei a frequentar, pela grande proximidade de casa e, é claro, pelo mais que maravilhoso sabor.. Era levado por minhas mães, Rosângela de Oliveira Carvalho e Francisca de Oliveira Carvalho, a última, hoje e infelizmente, apenas no coração e nas passagens em que tomamos este inesquecível sorvete. Já na década 90, houve a ampliação desta segunda sorveteria Araújo, no momento em que eu vivenciava a adolescência e frequentava com os amigos/ irmãos, quase que diariamente, principalmente quando surgiu a novidade do sorvete no peso, onde se ampliou as possibilidades, tanto de coberturas, como de guloseimas a enfeitar. Ainda na mesma década, abriu mais duas filiais, a do Porto das Barcas e a de Luís Correia. Nos anos 2000, veio a do Coqueiro, e mais recentemente, em 2014, a última, até o momento, inaugurada, com localização no Parnaíba Shopping.

            No ano de 2010, em meio à várias conquistas e momentos agradáveis, Araújo sofreu uma grande perda: o falecimento de sua esposa, Maria Eronildes Rios. Na época, o casal completava 50 anos de matrimônio: éramos, até o fim, como um casal de namorados… Esse lamentável fato quase o conduziu a uma forte depressão, se não fosse a companhia e o amor de seus filhos, Auricélio e Celma, e que lhe proporcionaram até o momento, mais cinco motivos de felicidade, ou seja, seus netos: são dois de Auricélio e três de Celma. Araújo também lembra, agradecido, da amizade e o apoio de pessoas como o amigo Cajubá, representando os demais, não menos importantes.

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            E é neste momento, que me despeço do amigo Araújo… No que fico a observar ele se deslocar, como geralmente faz, para uma das mesas, na parte de fora, e ao se sentar, permanece, observando… E ouvindo, os vários clientes que colorizrrred-imagechegam… Muitos vindos de fora da cidade, a grande maioria sem saber que ele é o dono… Pessoas diferentes, de origens e temperamentos bem discordantes… Mas que possuem algo em comum, e que pode muito bem ser expresso, neste último e interessante relato: eu fico sentado ali, fora, e muitos não me conhecem, chegam conversando e não me identifico. E dizem que “nunca comi um sorvete como esse!” Rapaz, eu me sinto tão bem ouvindo isso… Outro diz, “eu não moro aqui, moro em tal parte, mas nunca vi sorvete igual, e eu já vim várias vezes aqui e nunca mudou, está do mesmo jeito!”… E talvez tenham sido esse, o principal ingrediente, deste cearense, porém mais parnaibano do que muitos que já conheci… Que fez e faz toda a diferença: a simplicidade, expressa em todas as suas atitudes… E que é eterna, tal qual é o prazer que o seu sorvete nos proporciona.

Claucio Ciarlini (2019)

ATÉ ZERO HORA

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     Quem não gosta de comemorar seu aniversário? Quase todo mundo festeja com alegria a mudança de idade. Uns fazem festas faraônicas, além de suas posses. Outros se contentam com o bolinho, somente para apagar as velinhas. Outros preferem viajar, outros se dão um presente especial. Uns comemoram a sós, outros enchem a casa de amigos. E existem também pessoas que preferem não ser lembradas nesse dia tão especial. Difícil explicar as diferenças humanas.

        A D. Conceição era daquelas que adorava mudar de era. Era assim que ela se referia ao completar mais um aninho de existência. Mulher simples, de muitos filhos e ninguém ousava perguntar pelo pai das crianças. Ficava uma fera. Para sustentar a prole, não bastava o mísero salário de zeladora que recebia pelos serviços prestados em uma Instituição Pública. Como era boa quituteira, fazia bolos, salgados, creme de galinha, que vendia à noite, numa pequena cantina improvisada no quarto da frente de sua casa. Abrira uma porta para a rua e atendia os estudantes da escola que funcionava em frente. Como serviam esses trocadinhos. De grão em grão era uma boa quantia que ajudava nas despesas.

        De todo dinheiro que recebia, reservava uma parte para a sua festa de aniversário. Próximo à data, mandava pintar a casa, lavar as toalhas de mesa, capinar o quintal e com muita antecedência pedia emprestado as mesas e cadeiras da amiga Tonha e da amiga Teresa. Tinha muito prazer em realizar essa festa.
Recebia bons presentes, porque seus convidados eram da elite. Convidava o chefe da repartição, os doutores, os advogados e todos os colegas de trabalho, principalmente os do alto escalão.

         Simpática e carismática. Muito correspondida em suas amizades. Todos marcavam presença, demonstrando o quanto D.Conceição era querida. Era uma mulher excêntrica. Ignorante. Pouco estudo. Mas de uma inteligência invejável. Sabia paparicar as pessoas certas e lutando aqui, lutando acolá, conquistando um e outro, arrumava emprego para os filhos, para as noras e ajeitava até os vizinhos.

         O aniversário era engraçado. As mesas espalhadas no quintal de areia. Os sapatos finos das madames ficavam empoeirados. Ela gritava a toda hora pelo Bernardo que tinha que servir momentaneamente a todas as mesas. Coitado do menino. Isso sem falar na dificuldade de estacionamento. Rua estreita, esburacada e com mil guris para olhar os carros.

         Mas a aniversariante era uma grande anfitriã. Servia tudo direitinho dentro de sua simplicidade. Cuidava com esmero de seus convidados. E, diga-se de passagem, tudo que servia era feito por ela. O peru de D.Conceição não existia outro igual.
Cerveja gelada, a tempo e a hora graças ao moleque Bernardo e a ela própria que corria pra lá e pra cá.

        Seus convidados eram sempre os mesmos. Todos já estavam acostumados com o desenrolar da festa que tinha hora de começar e terminar. Começava às 19:00 horas e zero hora todos já haviam se retirado.

        No último ano, porém, dois convidados permaneceram um pouco mais. O José e o Pedro, funcionários novos da repartição. A noite estava agradável, convidando para que o bate – papo se alongasse um pouquinho mais. Lamentavam a ausência de seus colegas. Por que saíram tão cedo? Indagavam-se.

         E jogavam conversa fora, entre um copo e outro de cerveja. Bernardo agora estava de prontidão. Atento para não faltar bebida no isopor. E quando eles solicitavam um salgadinho, um creme de galinha, eram subitamente atendidos.
Nessas alturas, D.Conceição estava num canto a desenrolar seus presentes, depois começou a juntar os pratos, retirar as toalhas como se o aniversário estivesse acabado mesmo.

       Os últimos convidados resolveram se levantar. Na verdade já estava tarde, quase duas horas da manhã e no outro dia tinham que trabalhar. Enquanto procuravam D. Conceição para se despedirem, o menino Bernardo contava as cervejas debaixo da mesa, e as tacinhas desocupadas de creme de galinha que estavam sobre mesa.
E antes que se ausentassem apresentou – lhes a notinha.

      – Nota de que? Indagou um deles.

      – Da cerveja e do creme de galinha que vocês consumiram, respondeu Bernardo.
José e Pedro responderam igualmente:

      – Mas não era por conta do aniversário de D.Conceição?

      – Sim, mas o aniversário dela foi ontem. Tô cobrando o consumo de hoje.

    Ninguém explicou “aos novatos”, que o aniversário de D.Conceição só era comemorado até zero hora. Mui amigos!…

     Entenderam agora por que a casa se esvaziou antes da meia – noite.

DO LIVRO “VOU TE CONTAR” – 2008
MARIA DILMA PONTE DE BRITO 
CADEIRA 28 DA APAL
PATRONO LÍVIO LOPES CASTELO BRANCO
1ºOCUPANTE  HUMBERTO TELES MACHADO DE SOUSA