Roubaram os presentes

presentes 2

                       A mansão opulenta e pomposa da senhora Emília abria suas portas todo mês de maio. Maio mês das flores, mês das noivas, mês de Nossa Senhora, mês do branco e mês do aniversário de D. Emília.

                        A aniversariante preparava sua festa de 45 anos. Jovem para o mundo atual, onde a boa qualidade de vida dos tempos modernos parece conservar a alma e o corpo das pessoas que se amam, que estão de bem com a vida e sabem viver. Mas D. Emília não era bem uma pessoa assim. Muito apegada às coisas materiais e esquecia um pouco de cuidar de si mesma. De qualquer forma era abençoada por Deus. Tinha traços bonitos e enchiam os nossos olhos com sua alta estatura e corpo muito delgado. Simpática. Gostava muito de conversar, mesmo com quem pouco conhecia.  Apesar de tudo, era uma solteirona. E nunca se ouviu falar que tivesse um namorado mesmo em tempo atrás.  Possuía um patrimônio abastado. Seus pais acumularam riquezas. Por que nem um caçador de dotes aparecera? Não se sabe…

                      A casa estava sendo preparada para a anual recepção há mais de dois meses. Pintaram até as portas e janelas. O jardim foi replantado e adubado. As pratarias e cristais saíram dos armários para participarem da festa. As toalhas de rendas portuguesas foram lavadas e passadas com esmero.  E a lista de convidados se repetia. Todo ano, as mesmas caras. A D. Mariazinha, uma senhora rica da sociedade que lhe presenteava com coisas caras levando a etiqueta das melhores lojas da cidade. D. Anunciação, que chegava muito cedo e sempre era a última a sair. A D. Joana não só comia como enchia a bolsa de docinhos e ainda levava o bolo no guardanapo. A D. Antônia era segura. Seus presentes eram chulos. Mas a anfitriã gostava muito da amiga e ela já fazia parte da tradicional festa. D. Tereza pelo contrário, queria agradar a aniversariante e se esforçava em comprar o que ela poderia gostar sem se preocupar com o preço alto. Mesmo assim D.Emília todo ano dizia que não a convidaria, mais  para a próxima festa. Isso porque ela levava seus dois netinhos. Meninos peraltas, inquietos que perturbavam o ambiente. Derramavam refrigerantes, sujavam o tapete, quando não deixavam farelos de salgado no sofá.

              D.Emília passava o ano todo sonhando com esse aniversário. E seu grande prazer era olhar os presentes no dia seguinte. Para isso tinha todo um ritual. Quando o convidado chegava com o presente ele colocava o nome de quem lhe deu no papel que embrulhava o pacote mesmo quando vinha acompanhado de um cartão. Achava que o cartão poderia cair e ela tinha o prazer de saber o que cada pessoa presenteava. O pior é que a casa era de dois andares e ela subia a cada presente recebido, para pôr em cima de sua cama cuidadosamente. Ao chegar seu último convidado, ela se deleitou ao olhar a cama repleta de presentes. Aguardava o dia seguinte para matar sua ansiedade. Parecia uma menina feliz ao ganhar um brinquedo.

             As bandejas de salgados passavam pra lá e pra cá. Refrigerantes, coquetéis, vinho e até champanhe circulavam com fartura. Jantar servido, depois os tradicionais parabéns e bolo confeitado com os docinhos foram bastante elogiados não só pela beleza e delicadeza dos confeites, mas como pelo delicioso sabor.

             Os convidados aparentemente eram pessoas educadas e se não fossem os netos de D.Teresa para perturbar a festa, tudo corria na mais perfeita ordem. Mas, quanto mais cresciam mais aprontavam.

            Lá pelas tantas D. Emília resolveu subir para retocar a maquiagem. Na verdade, isso era uma desculpa. Sua intenção era dar uma olhadela na sua cama repleta de presentes.

            Mas para surpresa dela a cama estava vazia. D.Emília desceu aos berros. Chorava que nem uma criança.  E dizia com voz firme: “quero meus presentes“,” quero meus presentes”. Não tinha água com açúcar  que acalmasse a aniversariante.  Roubaram meus presentes…Roubaram meus presentes…Fechem as portas…Ninguém sai daqui até que chegue a polícia para investigar. Muito barulho, muito confusão e nada. A hora extrapolava e os convidados iam saindo de mansinho enquanto a aniversariante reclamava, xingava e chorava. Os netinhos de D. Tereza já haviam comido de tudo, lambuzado o sofá, quebrado copo, danificado o jardim correndo pra lá e pra cá. E cansados atentavam a vovó para retornarem para casa. Despediram – se de D. Emília e como todos os outros convidados estavam também intrigados. Onde estariam os presentes? Os guarda – roupas, já tinham sido revirados. Os armários do banheiro e da casa toda também. Coisas de ladrão não resta dúvida…Mas como entrou? Como saiu?

             A aniversariante não pregou os olhos nessa noite. Nem mesmo o cansaço lhe vencera. Armou uma rede ao lado da cama e passou a noite inteira com os olhos vidrados na esperança de misteriosamente os presentes aparecerem.

            No dia seguinte amanheceu arrasada. Mesmo assim tinha que cuidar de seus afazeres. E ao varrer seu dormitório, levantou a colcha pra limpar debaixo e teve uma grande surpresa. Todos os presentes estavam empilhados cuidadosamente com seus devidos nomes. Mistério. Quem os colocou lá?  Quem? Quem?

                                        Coisas dos netinhos… Podes crer!

Do livro Assim é a Vida
Maria Dilma Ponte de Brito
Cadeira 28 da APAL

 

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