DIÁRIO – 20/03/2020

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DIÁRIO

Elmar Carvalho

20/03/20

Estamos eu e minha família há alguns dias fazendo a chamada quarentena, por causa da pandemia do novo coronavírus (covid-19), que está se alastrando pelo mundo, levando o pânico a quase todos os seres humanos. Não se trata apenas de uma questão de saúde pública, mas também está se tornando um problema econômico-financeiro.

Com as medidas de quarentena, de limitação de transporte público e locomoção, com a proibição de aglomeração e de realizações de eventos, inúmeras empresas já enfrentam dificuldades em seus negócios e faturamento, com as suas inevitáveis consequências, como pagamento de fornecedores, empregados, taxas e tributos.

Isso, sem dúvida, gera uma cadeia de efeitos negativos para outras empresas e para a receita governamental em suas três esferas. Deixo para o leitor o exercício de enumerar as situações provocadas por esse efeito dominó, se a situação atual perdurar por alguns meses.

Minha filha Elmara está muito preocupada, e constantemente nos adverte para que mantenhamos o nosso recolhimento forçado.

Temo que surjam os profetas do apocalipse, anunciando o fim do mundo e o Juízo Final, como já surgiram em outras épocas de crise.

A humanidade pouco aprendeu com as lições ministradas pelo malefício das guerras. Se tivesse aprendido, não haveria hoje as idiotas guerras por motivos étnicos, religiosos, ideológicos e tribais, ou simples apego ao poder. Se o leitor quiser ter uma ideia do que seja (a desgraça de) uma guerra, basta que assista ao filme O Pianista.

Espero que a raça humana aprenda agora com essa verdadeira praga, que jamais esperei enfrentar no momento em que inicio o meu outono.

Por fim, desejo que essas restrições e medo, nos tornem menos egoístas, nos afastem do excesso de hedonismo e consumismo, nos libertem do jugo dos aparelhos eletrônicos, e nos façam mais meditativos, e, sobretudo, nos façam retornar ao regaço de Deus, à solidariedade e a uma boa leitura.

Quanto aos ateus, apenas direi: não acredito em ateus, graças a Deus. No máximo, creio em provisório e precário agnosticismo.

Academia Parnaibana de Letras suspende atividades por causa do coronavírus.

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O presidente da Academia Parnaibana de Letras, José Luiz de Carvalho, anunciou nesta quarta-feira (18) que a entidade está suspendendo por quinze dias suas atividades para acadêmicos e o público em geral, na rua Alcenor Candeira, região do centro, como medida de prevenção ao coronavírus.

Segundo Carvalho, as atividades entre os membros nesse período poderão ser realizadas online. Os dois funcionários colocados à disposição para atendimento aos acadêmicos e ao público devem permanecer em casa no período ou até que a situação se normalize em todo Brasil. Fonte: APAL. Foto: Jornal da Parnaíba. APAL. Edição: APM Notícias.

 

SABEDORIA DE MINHA MÃE

A SABEDORIA DE MINHA MÃE
Wilton Porto

Se me sussurram à mente as recordações,
Com seus gritos indomáveis e tanto abismo,
Vejo quanto guerreira fora a minha mãe,
Que nas suas histórias o que imperava era o lirismo.

Quando a barriga roncava, com cheia de unhas, a fome,
Ela nos lembrava dos mendigos que batiam à porta,
Maltrapilhos, sem família, sem um sobrenome,
E que muito ou pouco, conhecíamos o gosto da torta.

Se os relâmpagos riscavam os Céus, provocando o medo,
Juntava as nossas mãos e mostrava o valor da prece.
Pedia-nos que a Ele confiássemos dores e segredo,
Pois Ele é o Poder, a resolução, o Senhor da messe.
Tudo que era triste, ela transformava num belo enredo.
Hoje, com mais de 90, nos mostra que tudo é uma quermesse.

POEMITOS DA PARNAÍBA

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho

Charges: Gervásio Castro

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  1. Lobaia

 

Animal trípede da

família dos primatas.

Animal não monstruoso:

animal mastruoso.

Pé de mesa mais famoso

da Parnaíba, Lobaia

só cavalgava cobaia,

em única experiência,

através da armadilha

das lâmpadas apagadas.

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  1. Parassi

 

Vai bola com Parassi.

Parassi pára. Parassi para

Moacir. Era o velho

Parnaíba de Parassi,

Irmãos & Futebol Clube.

Hoje é apenas Parnaíba Clube.

 

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  1. Mestre Ageu

 

Mestre Ageu

mago das artes escultóricas,

novo rei Midas do antigo mito

a transformar em estátuas

troncos toscos de madeira

com os toques de suas mãos.

Mestre Ageu

Pigmalião dos mágicos toques

faz mais uma escultura:

ninguém se espantaria

se ela gesticulando

lhe desse “bom dia”.

Mestre Ageu

de arte tão exata

que lhe força fabricar

o seu cinzel de cortar.

Mestre Ageu

em sua agrura

agora chora ora e deplora

afagando/abraçando/agarrando

a escultura, sua cria/tura:

o compra/dor a veio buscar.

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  1. Simplição

 

Não o Dias da Silva,

mas o Long John da Parnaíba,

o terror da mulherada,

pé de cana e pé de mesa,

concorrente de jumento e garanhão.

Só pegava mulher novata,

desconhecedora da fama de seu

alopramento descomunal.

A cama se transformava

no altar do sacrifício da mundana,

segura a pulso como uma potra bravia.

Processado pela noiva descartada

após quarenta anos de noivado.

(A noiva não sabe a sina

de que terá escapado.)

As andanças de Antônio Araújo

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As andanças de Antônio Araújo

Elmar Carvalho

No dia 29 de janeiro deste ano, recebi do amigo Cristóvão Augusto de Araújo Costa o livro de memórias Andanças, da autoria de Antônio de Araújo Costa, que é mais do que seu tio, conforme se depreende da amável dedicatória: “Ao prezado amigo Elmar Carvalho, estas memórias de meu pai do coração, com minha admiração.”

O termo “meu pai do coração” significa que Cristóvão tem pelo autor uma grande consideração e amor filial, além do nobre sentimento da gratidão, que ele expressou na apresentação, de sua lavra: “A primeira palavra que me vem à mente, em referência à figura de Antônio de Araújo Costa, é GRATIDÃO. Porque a ele devo tudo, só tudo, do melhor que a vida me proporcionou, desde quando a seu convite e sob orientação, cuidados e afeto, dele e de Tia Helena, fui com eles residir em Brasília, nos hoje longínquos meados dos anos 60, onde estudei, trabalhei, vi nascerem os filhos, os netos, e formatei minha estrutura pessoal, social e humana.”

Numa época em que grassam a maldade e seu cortejo de crimes e pecados, e mais a ingratidão, o egoísmo e a inveja, é bom que se frise que Cristóvão grafou a palavra gratidão em letras maiúsculas ou capitulares, e reconheceu os benefícios recebidos. Morou com o autor e sua esposa durante sua adolescência e parte da juventude, e durante o período de seis ou sete anos em que ainda não lhes havia nascido o filho Rodolfo Luís, tendo, portanto, recebido o afeto e os cuidados de um verdadeiro filho.

O livro tem como capa uma fotografia de Antônio, em primeiro plano, da autoria de Fábio Martins de Araújo Costa, que passou por uma montagem alquímica e fotomágica de Carlos Pacheco, mestre das lentes fotográficas, e foi artefinalizada pelo escritor Paulo Chaves. Nela o autor aparece lépido e fagueiro, em seus 93 anos de idade, a percorrer uma estrada, a simbolizar a vida que lhe coube viver, mas que felizmente não foi tão acidentada, como a do poema de Drummond: “E como eu palmilhasse vagamente / uma estrada de Minas, pedregosa”. Mas que certamente também teve os seus percalços e alguns eventuais “acidentes” de percurso e “pedras no meio do caminho”, que ele, com determinação, habilidade e paciência soube superar.

O autor presta sua contribuição à genealogia piauiense, quando se reporta a seus ancestrais e parentes colaterais, pois a estirpe Araújo Costa é uma antiga e importante família piauiense, que, vinda de Portugal, se fincou em Oeiras, a nossa mítica primeira capital, de onde se espraiou para outros rincões, dando ao Piauí notáveis filhos e ilustres figuras históricas.

Ao recordar a sua infância, com passagens pela velha e aprazível fazenda Pitombeira, ao rememorar as suas lutas iniciais, em busca de melhores dias, ele nos dá lições e exemplos de vida. Narra a sua saga, em que teve de deixar o seu rincão natal, em que teve de se deslocar para a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, e depois para Brasília. Sem empáfia, mas com saudável orgulho, nos conta as suas conquistas, os cargos efetivos que ocupou, as honrosas funções de confiança que amealhou, em cujos exercícios cumpriu com correção os seus deveres funcionais.

O livro tem importância historiográfica, porquanto o autor exerceu funções de confiança, inclusive como chefe de gabinete, junto a importantes figuras da política nacional, sendo que algumas delas foram protagonistas, sem dúvida, de importantes fatos da história recente do Brasil. Entre essas importantes personalidades, posso citar Benedito Valadares, Petrônio Portella Nunes, Marco Maciel, Costa Couto e Ibrahim Abi-Ackel. Os três primeiros, além de senadores, foram governadores de seus estados.

Não pretendo fazer um spoiler, mas apenas chamar a atenção do leitor para o fato de que a obra memorialística narra importantes e interessantes episódios da política nacional e do Congresso. Algumas dessas narrativas têm foro de verdadeiro depoimento de uma testemunha ocular da história. Traça um perfil do homem e político que foi Petrônio Portella, em que entra em detalhes sobre sua doença e morte. E narra um episódio curioso, em que ele se defrontou com um desafeto gratuito.

Quando, a pedido de Cristóvão Augusto, entreguei alguns exemplares do livro para a biblioteca da Academia Piauiense de Letras, achei oportuno tecer alguns comentários sobre as “andanças” memorialísticas de Antônio Araújo, e achei por bem pinçar um depoimento importante sobre Marco Maciel, que foi governador de Pernambuco, senador da República e vice-presidente do Brasil (1995-2003), e que demonstra como era a personalidade desse grande político pernambucano.

Disse “era” porque Marco Maciel hoje se encontra acometido pelo implacável Alzheimer, doença degradante em que já não somos quem fomos, em que nos tornamos apenas a sombra diluída e esgarçada de nós mesmos. O autor afirma nesse depoimento que, tendo trabalhado com vários dos mais importantes políticos do Brasil, o único que ele nunca presenciou elevar a voz contra quem quer que fosse fora Marco Antônio de Oliveira Maciel. Sempre elegante e cordial, como Bat Masterson.

Portanto, Andanças, de Antônio Araújo, é um livro que deve ser degustado com vagar, atenção e respeito, como se fosse um velho e bom vinho. Só que, ao contrário do vinho, que uma vez sorvido se exaure, o livro em comento deve ser reposto na adega, ou melhor, estante, aguardando o momento oportuno para novas e revitalizantes releituras.

Acadêmico Breno Brito publica novo livro

O publicitário, professor e acadêmico da APAL, Breno Brito, publicou seu novo livro intitulado “INSTAFRASES: frases instantâneas do Instagram para pensar, refletir, rir, curtir ou não curtir”. A obra reúne frases, pensamentos, versos e outros textos que autor publica em seu perfil no Instagram.

Logo na página inicial o autor questiona: “Quanto tempo Castro Alves, Machado de Assis ou Mário Quintana levaram para atingir cem mil leitores?”
Em seguida complementa: “Provavelmente alguns anos, mas hoje, com a velocidade e ubiquidade da Internet, um escritor pode ter seus textos lidos por 100.000 leitores em questão de minutos. A internet é capaz de espalhar textos e informações em questão de segundos, atingindo milhares de pessoas que se enquadram numa nova categoria de leitores: os leitores digitais, que não apenas leem, mas também interagem, comentando, curtindo, e compartilhando os textos.
Da mesma forma democratiza a escrita, ao permitir que qualquer pessoa divulgue seus pensamentos por meio de redes sociais, como o Facebook e o Instagram, tornando qualquer um em escritor, que despretensiosamente ou não, pode ter seus textos publicados nas páginas virtuais da grande rede.”

A obra é o terceiro livro publicado pelo Acadêmico Breno Brito, que também é autor de “Broadside – a propaganda vista por dois lados” e “Da Brancura à Sujeira – uma análise dos discursos das campanhas do sabão Omo”.
Em breve será divulgada data de lançamento do novo livro.

 

POSSE DE EDNÓLIA FONTENELE NA ACADEMIA PARNAIBANA DE LETRAS

Em sessão solene realizada na noite desta sexta-feira 13 de março de 2020, tomou posse na cadeira de número 30 da Academia Parnaibana de Letras a escritora e poetisa Ednólia Fontenele  Oliveira.
A solenidade aconteceu no auditório do Colégio Nossa Senhora das Graças (Colégio das Irmãs)  e contou com a presença de acadêmicos, autoridades, convidados especiais, amigos  e  familiares da mesma.
Cumprindo o que determina o Ritual de Posse da Academia, o presidente José Luiz de Carvalho solicitou às acadêmicas Dilma Ponte de Brito, Maria do Rosário Pessoa Nascimento e ao acadêmico Alcenor Candeira Filho que conduzissem a recipiendária ao auditório para os procedimentos seguintes da posse, tais como recebimento do  Diploma  e aposição do Manto,  discursos  e de posse e de recepção.
Ednólia sendo conduzida à Mesa de Honra para os procedimentos da posse  ao som da música “Maria Maria” de Milton Nascimento executada por integrantes do Coral do IFpi sob a batuta do maestro Wellington Emanoel .
Dando prosseguimento,  acompanhado pelo   Coral do IFPi  foi cantado o   Hino do  Piauí, sendo que em seguida  secretário geral da APAL, professor Antonio Gallas leu o Termo de Posse e o presidente José Luiz convidou o acadêmico e Prefeito de Parnaíba, Francisco de Assis de Moraes Souza (Mão Santa)   para a entrega do  Diploma Acadêmico e, convidou também os jovens Revailton de Sousa Castro Junior e Diego Fontenele Oliveira Castro (filhos de Ednólia) para entrega e aposição do Manto da Academia.
O  acadêmico e Prefeito Mão Santa pronunciando breves palavras durante o ato de entrega do diploma
                                        Ednólia e os filhos  Revailton e Diego
Após esses procedimentos o presidente da Academia, escritor e jornalista José Luiz de Carvalho declarou empossada na cadeira número 30 a nova imortal Ednólia Fontenele Oliveira.
A cadeira de número 30 tem como patrono Jesus Martins de Carvalho e como último ocupante o economista parnaibano Antonio de Pádua Franco Ramos.
A solenidade prosseguiu com os discursos de posse e de recepção.
Em seu discurso de posse Ednólia emocionou-se quando falou da sua família, especialmente quando citou o seu pai, o senhor Elizeu. Falou das suas origens, da sua trajetória estudantil feita no Colégio das Irmãs. Falou também de sua trajetória e evolução literária. Citou nomes de professores e de pessoas que o incentivaram a esta carreira e referiu-se em especial ao acadêmico Alcenor Candeira Filho, e  à professora Luzanira Silva  presentes  à solenidade.
O discurso de recepção foi feito pelo acadêmico advogado, professor universitário e doutor Fernando Ferraz que veio de Fortaleza especialmente para esta posse. Fernando se fez acompanhar de sua esposa, a doutora Cláudia. Além de fazer referências à vida estudantil e literária de Ednólia, Fernando recitou poemas da autoria da neoacadêmica e, projetou em um telão outros poemas e depoimentos de   familiares como  sua mãe, irmãos,  pessoas amigas, ex-professores entre as quais a professora Luzanira Silva e também de acadêmicos como Pádua Santos, Wilton Porto, Diego Mendes e Antonio
Gallas.
Fernando Ferraz fazendo o discurso de recepção à nova acadêmica
A seguir outas fotos e vídeos do evento:
Acadêmica Dilma Ponte, Diretora de Cerimonial da APAL conduziu com maestria o cerimonial da solenidade.
Mesa de Honra da esquerda para direita: Des. José James (presidente eleito do TRE) Antonio Gallas (secretário geral) José Luiz (presidente Academia) Mão Santa (acadêmico e prefeito  municipal) Geraldo Alencar Filho (presidente do Poder Legislativo Municipal) e Irmã Maria das Graças (diretora do Colégio )



Fernando Ferraz e a neoacadêmica Ednólia Fontenele

Após a sessão de posse todos foram convidados para um coquetel acompanhado pelo violão do músico Gregório Neto.
Foi realmente uma solenidade muito bonita a posse de Ednólia Fontenele para a Academia Parnaibana de letras.

Texto: Antonio Gallas

Fotos: Ednólia Fontenele/ Dilma Pontes
Vídeos: Ronaldo Santos

POEMITOS DA PARNAÍBA

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho

Charges: Gervásio Castro

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  1. Alain Delon

Situava-se entre o feio e o horrível

mas se dizia BG: bonito e gostoso.

Metido a conquistador de mulheres

conseguia o inverso efeito:

as mulheres – lebres assustadas –

de Alain Delon fugiam.

Se Alain Delon muito fosse

Alain Delonge seria.

 

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  1. Derocy

Derocy, Ofélia da Parnaíba,

não era um orador oral:

era um orador boçal

em seus discursos bestialógicos,

ilógicos, escatológicos. Tirava

do sério o homem sério quando

disparava seus disparates.

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  1. Meio-Quilo

Se bem pesado não dava

sequer meio-quilo. Pai de

Cotinha, mulher bonita e

namoradeira nos escuros

do velho Cine-Teatro Éden – paraíso

de estripulias estrambóticas e eróticas.

O pequenino Meio-Quilo, de lanterna em

punho, a roubar Cotinha dos braços

do namorado, era um filme

à parte.

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  1. Alarico da Cunha

Poeta. Espírita. Espírito

da carne e do osso, a roer

o osso duro do ofício de poetar.

Quixótico, exótico: misto de poeta

e de espírita. Via espíritos no

  1. Nunca estava sozinho:

quando a poesia lhe faltava

os espíritos surgiam e

se insurgiam contra a solidão.

Cavalheiro de fino trato:

tirava o chapéu para os

espíritos que só ele via.

A herança da dentadura.

 

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*Pádua Marques.

 O velho Benedito Laurindo Chaves estava dentro do caixão, pronto pra ser enterrado naquele dia de sábado, rodeado e chorado por todos os seus filhos, afilhados, parentes, agregados, moradores de suas terras, naquela imensidão da Barra do Longá, quando um deles, o Genésio, veio cochichar no ouvido de Raimundo, sobre onde pudesse estar uma das mais cobiçadas partes de suas posses, uma dentadura toda de ouro, mandada fazer em São Luís, no Maranhão há muitos anos, ainda quando seu pai era homem de tutano nas canelas e tinha coragem pra andar furando o mundo.

Benedito Laurindo Chaves, o Boca de Ouro, que se pabulava ser amigo dos homens mais ricos da Parnaíba, estava agora morto e seria enterrado dentro de mais um pouco num cemitério humilde e cheio de carrapichos naquele sábado de julho de 1939 sem que tivessem seus filhos recebido sequer um voto de sentimento de pesar dos seus antes amigos abastados. Estava era deixando pra muita briga pelos herdeiros, o que sobrou de algumas léguas de terras alagadas cheias de carnaubeiras, umas cinquenta cabeças de gado pé duro e duas casas de aluguel se esfarelando de cupins no centro de Parnaíba.

Quando vivo, Benedito Clarindo Chaves foi um homem vaidoso. Vaidoso e metido a fazer filhos dentro e fora de casa. Em casa, com a mulher Sebastiana, a dona Tiana, teve o mais velho Raimundo, seguido por Maria, Luzia, Teresinha, Benedito Filho, Genésio, Antonio e o caçula Pedro. Fora de casa fazia os filhos e até trazia pra mulher criar, dizendo que eram afilhados de gente pobre dos Tucuns em Parnaíba. Nessa situação foram uns três. Isso sem contar algum filho perdido em São Luís, pela Tutoia, Araioses, João Peres, tudo no Maranhão.

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Dizia ser amigo dos grandes e mais ricos da Parnaíba, sem distinção se eram os ingleses ou os franceses, os Clark ou os Marc Jacob. Nos festejos de Santa Luzia na Barra do Longá, dava todo ano um garrote pra o leilão, pagava batizados e casamentos, rodas e rodas de aguardentes pra os caboclos trabalhadores nas roças de arroz ou batedores de palha.

E entre as extravagâncias estava a de ter mandado fazer em São Luís numa de suas viagens, uma dentadura toda de ouro, uma fortuna e que chamava a atenção de até quem estivesse longe.  Por quantas e quantas vezes as raparigas da Parnaíba deram bebida pra ele tentando embriagar pra depois roubar aquela fortuna! Mas Boca de Ouro dormia com um olho aberto e outro fechado e as caixas das orelhas levantadas, que nem veado perto de vereda.

Com o tempo e os filhos crescidos ele foi deixando as farras e as bodegas, as viagens pra São Luís, os presentes pra Deus, pras igrejas de Nossa Senhora dos Remédios no Buriti dos Lopes e a de Santa Luzia, na Barra e todo mundo. Achava que corria riscos sempre que andava em cidade grande por causa da dentadura de ouro. Ficou mais em casa, vindo muito pouco em Parnaíba, só quando de alguma necessidade.

Certa vez bateu na porta dos ingleses pra pedir socorro de uma dívida devido ter perdido com as enchentes umas oito léguas de terras cheias de carnaubeiras prontas pra corte, entre a Barra do Longá e os Araioses. Mas foi naquele edifício todo rico e imponente que viu riqueza, coisa nunca vista por um sujeito sem origem de sua marca!

Refinamento e elegância com aqueles quadros, cortinas, prataria. Tomou chá em xícara de porcelana, uma coisa nunca vista. E comeu uns biscoitos finos, mas tão finos que se desmancharam e foram grudar no céu da boca feito hóstia! Passou foi vergonha! Nunca dona Tiana calculou o marido comendo biscoito igual!

Mas os ingleses fizeram Benedito Clarindo Chaves bater com a cara na porta e sair com as mãos abanando. Desgostoso, passou a falar de tudo quanto era estrangeiro pra os comandantes de alvarengas e vapores. Cobria os ingleses e franceses de Parnaíba de tudo quanto era nome feio. Filhos dessa e filhos daquela! Ele tinha filhos, mulher, afilhados, umas propriedades, compromissos com os caboclos, gado pra dar de comer e que agora não valiam um vintém na praça! Aquilo era coisa?! Pois não é que mandaram vender a dentadura de ouro? Onde já se viu uma desfeita daquelas?

E logo ele, Boca de Ouro, que até chegou sonhar um dia ser tratado por coronel, como eram tratados seu Jonas Correia e Zé Narciso. Mas seu Benedito Laurindo Chaves bem que podia ter nascido com nome de família, como achava que devia ser, assim feito os Moraes, os Clark, Jacob, Santos, Veras, Correia. Mas nasceu mesmo foi no distante São Bernardo, no Maranhão e veio já grande, de canoa, no rumo da Parnaíba, com pouca roupa numa mala de madeira e algum dinheiro no bolso.

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Trabalhou feito um cão por um tempo nas embarcações que subiam ou desciam o rio e foi nesse movimento pra cima e pra baixo que aprendeu a negociar com cera de carnaúba, naquele tempo e por um bom tempo um verdadeiro ouro em pó. Trabalhou em armazéns e casas de exportações ditas menores na praça de Parnaíba, onde aprendeu de fio a pavio todo o traquejo de preços, companhias de navegação, câmbio, qualidade de cera e de pó e sem sombra de dúvidas, ganhou muito dinheiro. Daí ter feito a tal dentadura.

De uns anos pra cá foi ficando pobre e cheio de dívidas, viúvo de Tiana, doente, movidinho. Os agiotas da Parnaíba, tudo, sem tirar um, viviam batendo na sua porta dia e noite e ameaçando lhe matar. Os filhos crescidos, cada um do seu jeito e trazendo toda sorte de contrariedades pra dentro de casa. Agora ele não prestava pra quem tanto ajudou, era miserável aqui, ladrão acolá, unha de fome, mão fechada! Cadê aqueles afilhados que vinham todo ano na sua porta pedir a bênção? Cadê os padres do Buriti e da Barra, que viviam pedindo ajuda nos festejos?

Benedito Laurindo Chaves agora estava ali dentro daquele caixão, de cara pra cima, rodeado pelos filhos, uns intrigados uns com os outros, mexendo nas coisas atrás de alguma coisa de valor, furtando as miudezas, metendo nos bolsos esta e aquela peça.  E os poucos criados já sabendo que iriam mais tarde parar no olho da rua, sem nada, esquecidos pelos filhos do morto. Quem sabe até sendo acusados do sumiço disso ou daquilo mais. Mas era assim, a ingratidão se revelando e um ditado certo, filho não puxa pai.

E por certo o objeto mais procurado naquele momento da sentinela dentro daquela casa deveria ser a tal dentadura! Uma peça linda, grandiosa, de valor incalculável, toda fornida, uma maravilha! Por certo cobiçada por tudo quanto era ladrão da Parnaíba, pelos ourives, pelos agiotas e tudo mais. Mas ninguém sabia era de nada! Quando adoeceu e já sentindo a morte fungando no seu cangote, Benedito Laurindo Chaves, o Boca de Ouro, deu na cabeça de deixar a peça com um empregado de sua confiança, seu conterrâneo de São Bernardo.

A ordem era pra que tão logo ele morresse e alguém fechasse as capelas dos seus olhos e os filhos andassem atrás da dentadura, Ribamar era pra dizer que foi perdida na Santa Casa de Parnaíba, jogada no rio, aquela coisa imunda! Mas ela, a dentadura há tempos havia sido era derretida e o ouro virado muitos cordões, anéis e alianças, que agora estavam numa loja da praça da Graça.

*Pádua Marques, cadeira 24 da Academia Parnaibana de Letras, contista, cronista, romancista. 

 

KRUEL

KRUEL
Wilton Porto

KENARD KRUEL não é cruel.
Kenard é – Kruel!
Kenard Kruel é cruel:
Kkkkkkkkkkkkkkkkkk.
Cruel quando
Para defender os amigos
Elevar a identidade conquistada
Enaltecer os trabalhos desenvolvidos – com ousadia e sapiência
Não deixar que destrocem a cultura
Valorizar o partido da sua cor
Colocar os Jornalistas num patamar de estrelato
Abraçar as causas do oprimido
E mais… Mais e mais…
K e K. Letra forte
Intensa
Como a sua personalidade
Bem mais forte do que o seu físico
Compenetrada em várias palavras:
Km
Kg…

Kenard
Kruel e – se necessário – cruel
É juntador de letras
Que formam
Belas páginas
Insignes discursos
Frases de efeitos
Pensamentos humorísticos.
Kenard Kruel
Kenard Cruel
Ambos de uma sensibilidade cor de neve
De um bebê que sorrir inocente
De um Sansão enfurecido entre pilastras.

Kenard Kruel
Marca única nos cartórios do Universo.