As andanças de Antônio Araújo

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As andanças de Antônio Araújo

Elmar Carvalho

No dia 29 de janeiro deste ano, recebi do amigo Cristóvão Augusto de Araújo Costa o livro de memórias Andanças, da autoria de Antônio de Araújo Costa, que é mais do que seu tio, conforme se depreende da amável dedicatória: “Ao prezado amigo Elmar Carvalho, estas memórias de meu pai do coração, com minha admiração.”

O termo “meu pai do coração” significa que Cristóvão tem pelo autor uma grande consideração e amor filial, além do nobre sentimento da gratidão, que ele expressou na apresentação, de sua lavra: “A primeira palavra que me vem à mente, em referência à figura de Antônio de Araújo Costa, é GRATIDÃO. Porque a ele devo tudo, só tudo, do melhor que a vida me proporcionou, desde quando a seu convite e sob orientação, cuidados e afeto, dele e de Tia Helena, fui com eles residir em Brasília, nos hoje longínquos meados dos anos 60, onde estudei, trabalhei, vi nascerem os filhos, os netos, e formatei minha estrutura pessoal, social e humana.”

Numa época em que grassam a maldade e seu cortejo de crimes e pecados, e mais a ingratidão, o egoísmo e a inveja, é bom que se frise que Cristóvão grafou a palavra gratidão em letras maiúsculas ou capitulares, e reconheceu os benefícios recebidos. Morou com o autor e sua esposa durante sua adolescência e parte da juventude, e durante o período de seis ou sete anos em que ainda não lhes havia nascido o filho Rodolfo Luís, tendo, portanto, recebido o afeto e os cuidados de um verdadeiro filho.

O livro tem como capa uma fotografia de Antônio, em primeiro plano, da autoria de Fábio Martins de Araújo Costa, que passou por uma montagem alquímica e fotomágica de Carlos Pacheco, mestre das lentes fotográficas, e foi artefinalizada pelo escritor Paulo Chaves. Nela o autor aparece lépido e fagueiro, em seus 93 anos de idade, a percorrer uma estrada, a simbolizar a vida que lhe coube viver, mas que felizmente não foi tão acidentada, como a do poema de Drummond: “E como eu palmilhasse vagamente / uma estrada de Minas, pedregosa”. Mas que certamente também teve os seus percalços e alguns eventuais “acidentes” de percurso e “pedras no meio do caminho”, que ele, com determinação, habilidade e paciência soube superar.

O autor presta sua contribuição à genealogia piauiense, quando se reporta a seus ancestrais e parentes colaterais, pois a estirpe Araújo Costa é uma antiga e importante família piauiense, que, vinda de Portugal, se fincou em Oeiras, a nossa mítica primeira capital, de onde se espraiou para outros rincões, dando ao Piauí notáveis filhos e ilustres figuras históricas.

Ao recordar a sua infância, com passagens pela velha e aprazível fazenda Pitombeira, ao rememorar as suas lutas iniciais, em busca de melhores dias, ele nos dá lições e exemplos de vida. Narra a sua saga, em que teve de deixar o seu rincão natal, em que teve de se deslocar para a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, e depois para Brasília. Sem empáfia, mas com saudável orgulho, nos conta as suas conquistas, os cargos efetivos que ocupou, as honrosas funções de confiança que amealhou, em cujos exercícios cumpriu com correção os seus deveres funcionais.

O livro tem importância historiográfica, porquanto o autor exerceu funções de confiança, inclusive como chefe de gabinete, junto a importantes figuras da política nacional, sendo que algumas delas foram protagonistas, sem dúvida, de importantes fatos da história recente do Brasil. Entre essas importantes personalidades, posso citar Benedito Valadares, Petrônio Portella Nunes, Marco Maciel, Costa Couto e Ibrahim Abi-Ackel. Os três primeiros, além de senadores, foram governadores de seus estados.

Não pretendo fazer um spoiler, mas apenas chamar a atenção do leitor para o fato de que a obra memorialística narra importantes e interessantes episódios da política nacional e do Congresso. Algumas dessas narrativas têm foro de verdadeiro depoimento de uma testemunha ocular da história. Traça um perfil do homem e político que foi Petrônio Portella, em que entra em detalhes sobre sua doença e morte. E narra um episódio curioso, em que ele se defrontou com um desafeto gratuito.

Quando, a pedido de Cristóvão Augusto, entreguei alguns exemplares do livro para a biblioteca da Academia Piauiense de Letras, achei oportuno tecer alguns comentários sobre as “andanças” memorialísticas de Antônio Araújo, e achei por bem pinçar um depoimento importante sobre Marco Maciel, que foi governador de Pernambuco, senador da República e vice-presidente do Brasil (1995-2003), e que demonstra como era a personalidade desse grande político pernambucano.

Disse “era” porque Marco Maciel hoje se encontra acometido pelo implacável Alzheimer, doença degradante em que já não somos quem fomos, em que nos tornamos apenas a sombra diluída e esgarçada de nós mesmos. O autor afirma nesse depoimento que, tendo trabalhado com vários dos mais importantes políticos do Brasil, o único que ele nunca presenciou elevar a voz contra quem quer que fosse fora Marco Antônio de Oliveira Maciel. Sempre elegante e cordial, como Bat Masterson.

Portanto, Andanças, de Antônio Araújo, é um livro que deve ser degustado com vagar, atenção e respeito, como se fosse um velho e bom vinho. Só que, ao contrário do vinho, que uma vez sorvido se exaure, o livro em comento deve ser reposto na adega, ou melhor, estante, aguardando o momento oportuno para novas e revitalizantes releituras.

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