O PIERROT E A COLOMBINA

O PIERROT E A COLOMBINA

Texto de Antonio Gallas

Este fato aconteceu de verdade  num carnaval  em São Luis do Maranhão envolvendo um casal da alta sociedade ludovicense, à época, início da década de 1970.  Ele, conceituado médico, e ela, a esposa, presidente de um clube beneficente.

Como se sabe, muita coisa acontece no carnaval. Coisas boas, ruins, tristes, alegres, casais se conhecem,  se encontram, se reencontram, se unem, se separam… Enfim é carnaval!!!!   Este causo já publiquei outras vezes e faz parte do livro “Meu Sobrinho Prodamor  e Outros Causos” que pretendo reeditá-lo brevemente. E como hoje é o penúltimo dia (oficialmente, porque no Brasil o carnaval e a farra dos políticos é o ano inteiro) do período momesco,  achei conveniente republicá-lo. Vamos ao causo:

O PIERRÔ E A COLOMBINA

Antonio Gallas 

“… no meio da multidão! Pam… paam… pam… pam…! quanto riso, oh! quanta alegria, mais de mil palhaços no salão…”

Bons tempos aqueles em que nos carnavais se cantavam frevos, marchinhas e marchas-rancho…

E foi cantando “Máscara Negra,” composição do imortal Zé Kéti que o Dr. Ariosvaldo adentrou naquele domingo de carnaval num dos mais famosos clubes populares de São Luís – O Bigorrilho.

Os clubes populares fizeram parte da história do carnaval de São Luís do Maranhão nas décadas de 1960 e 1970. Os mais famosos eram Canecão, na Rua do Passeio e o Bigorrilho, no Caminho da Boiada. Ali sim, se vivia um verdadeiro carnaval!

Ninguém era de ninguém! Só era permitido brincar fantasiado. De máscara. De fofão, pierrô ou colombina. O lança-perfume não era usado como entorpecente e sim como purificador de ambientes… No final, muitas surpresas. Agradáveis e desagradáveis…

Foi neste clima contagiante do carnaval ludovicense que o Dr. Ariosvaldo, conceituado médico cirurgião,  participante dos mais altos eventos sociais da capital maranhense resolveu fantasiar-se de fofão e no anonimato de sua fantasia desfrutar um pouco da liberdade, que por força da profissão, em datas como Natal, Ano Novo e Carnaval, sempre lhe era tolhida, por causa de um plantão noturno.

Naquele domingo não. Aquele domingo seria seu! Queria aproveitar minuto a minuto. Curtir! Desvairar-se! Beber! Desbundar total!

Pediu  então para um estagiário cumprir o seu plantão no Hospital Presidente Dutra, naquele domingo de carnaval. O Hemetério,  seu melhor aluno do curso de medicina da Universidade Federal do Maranhão, já no último ano, poderia tranquilamente dar conta do recado. Afinal ninguém iria ficar sabendo, nem mesmo dona Constância Inocência, sua fidelíssima esposa, dedicada ao lar e ao socorro dos desamparados.

Essa mesma é quem não deveria saber! Nem em sonho…!

Caiu na gandaia, o Dr. Ariosvaldo! Bebeu, sambou, pulou e lá para as tantas se agarrou com uma colombina. Abraços, apalpos, mãos-bobas, sussurros… Beijos só quando tirassem as máscaras…

Resolveram então ir para uma casa de tolerância, ou seja, um rendez-vous (ou vandevú como se chamava popularmente), visto que, nessa época não existiam os motéis que hoje proliferam a região do Turú e adjacências,  na capital maranhense.

Aproveitariam a paz e a tranquilidade das quatro paredes para se conhecerem e desfrutarem aquela noite num eterno frenesi com seus corpos flamejantes de amor.

Qual foi a surpresa de Dr. Ariosvaldo quando tirou a máscara de sua colombina e quando esta exclamou:

– És tu Ariosvaldo?!

– É você Inocência?!

Hoje    depois de mais de três décadas do acontecido,  sempre quando chega o carnaval Dr. Ariosvaldo se entristece em saber que num domingo de carnaval foi corno de si próprio. E balançando a cabeça negativamente cantarola baixinho: “… mais de mil palhaços no salão…” ou então vêm à sua memória aqueles versos de Noel Rosa que diz  “um pierrô apaixonado/que vivia só cantando/por causa de uma colombina/ acabou chorando/acabou chorando…”

Antonio Gallas  ocupa a cadeira de nº 35 que tem como patrono Dom Paulo de Sousa Libório.

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