O dia taoísta.

 

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*Nailton da Silva Rodrigues.

 

O dia nem era tão importante para mim. E eu, sem problema algum, poderia sim ficar deitado em minha cama até que a lua voltasse. Mas eu prometi que viveria. Eu prometi a mim mesmo que viveria.

 

E assim fora. Levantei e calcei as pantufas dos minions. Fui até o espelho e disse frases motivacionais a mim mesmo. Frases essas que nem são tão reais.

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Presuma-as!

Imaginei como seria meu dia e faria de tudo pra que ele fosse daquela forma. Mas foi. E tudo bem!

Eu disse que não importaria. Eu disse a mim mesmo que eu não me importaria se fosse bom ou ruim.

 

Apontarei os bons pontos como o sol do litoral, lindo e real sobre mim. Nenhuma morte na rua ou no bairro.

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Todos como sempre foram, vizinhos falando das vidas alheias, homens capinando os quintais ou correndo atrás dos porcos que fugiram facilmente dos chiqueiros mal feitos.

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Os ruins pontos são maioria, mas direi-os de forma resumida, como o café amargo, o cano sem água, os postes sem luz, o dia sem sorriso.

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A queda do caju tão desejado que se estragou no solo, que fede com os rejeitos intestinais das galinhas.  E assim fora o dia comum que não me abalou.

 

*Nailton da Silva Rodrigues é parnaibano, estudante do Ensino Médio da Unidade Escolar Edson da Paz Cunha, medalhista na Olimpíada Brasileira de Língua Portuguesa. 

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EU SOU ELA, ELA SOU EU

EU SOU ELA E ELA SOU EU
Wilton Porto

Tantas vezes, vi-te, ó mãe, assim:
Olhos pregados ao teto.
Pensamentos elevando-se aos céus –
Buscavas um encontro com Deus.

Ali – famintos –, esperávamos uma solução…
A barriga não pensava,
A ideia é única: quero comer!

Corre ali, corre acolá!
Expressão condoída no rosto,
Surge – como luz – numa noite escura.
Com vasilhame na mão,
Deixa-nos embriagar com o cheiro da carne em caldo grosso.
Em alvoroço, um a um – dez bocas –
Vamos saciando os desejos do corpo,
Que silente, se aquieta ante a face iluminada de minha mãe.

O perfume vem da cozinha.
Ele desperta-me como se fosse um beijo da amada.
Sem que eu perceba, a fila está montada:
Todos querem o tacho melado de doce de leite.

Minha mãe – doce administradora de doces –
Vai satisfazendo-nos a todos
E o brilho nos olhos dela é plena oração.

Agora, ela está à máquina de costura.
O som que esta emite,
Atravessa os sonhos dos meus antepassados.
Sinto vontade de ser Anjo
Para estar aos pés de Jesus.
Levanto-me determinado!
Pego de meu alforje e despeço-me entre lágrimas.

Barreiras tantas, estrelas muitas.

Hoje, volto. Quantas rugas na minha mãe!
Quanta serenidade e vibração de amor!
O tempo, as dificuldades, as doenças, as tempestades,
Não lhe roubaram o arroubo, o ritmo, a lucidez!…
Beijo-lhe os pés castigados pelo tempo,
Pelos 88 passos dados na trajetória de vida.

Choro de felicidade!

É que ao transformar-me em Anjo,
Num desses momentos de arrebatamento,
Ajoelhei-me aos Pés de Cristo.
Roguei-lhe a favor de Sebastiana Porto, minha mãe.
Contudo, Cristo fora incisivo:
“Por que pedes por ela, se Eu Sou ela e ela Sou eu?!