QUATRO POETAS DO PIAUÍ – Poemas – Parte 1

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Fonte: Google

FLAGRANTES

Elmar Carvalho

no céu azul

um urubu

 

sob o negror

do guarda-sol

o pelotão azul

de teus olhos

da sombra

me fuzilou

 

MINHA VOZ

Clóvis Moura

Minha mãe deu-me um cravo cristalino

quando nasci. Guardei-o na garganta.

Por isto a minha voz parece o eco

de todo sofrimento que não canta.

Com isto a minha voz se fez desejo

dos surdos-mudos, das mulheres mancas.

É o plenilúnio dos abortos tristes

e o gira-sol dos cegos que não andam.

Minha garganta já sentiu o travo

da palavra guardada e não ditada

por causa dos fonemas mutilados.

Há na voz desse cravo que não toca

um desfilar de mortos e de enterros

e gritos por silêncios soterrados.

 

ORAÇÃO PARA INVOCAR AS QUE NÃO VIERAM

H. Dobal

Venham a mim todas as que não me quiseram,

todas as que deixaram de conhecer, no sentido bíblico,

um homem competente não só na palavra amor

mas também nos carinhos mais fundos.

 

Venham todas:

as que morreram,

as que engordaram,

as que se enterraram

na rotina dos casamentos.

Venham todas as que o destino não quis.

 

O HOMEM QUE VOLTA

Da Costa e Silva

Quando fui, com o meu sonho ingênuo e lindo,

Pelas estradas amplas, luminosas,

Vinham as Graças desfolhando rosas.

 

Ergui os olhos para os céus, sorrindo,

A beleza da vida pressentindo…

 

Quando vim, com o meu tédio miserando,

Pelos estreitos e áridos caminhos,

Iam as Parcas espalhando espinhos…

 

Baixei os olhos para o chão, chorando,

E fiquei para sempre meditando.

Poemas extraídos de LB – Revista da Literatura Brasileira, nº 6.

 

Será nesta quinta-feira,  21,  em Teresina,  a posse do advogado,  empresário e escritor parnaibano Valdeci Cavalcante, na Academia Piauiense de Letras – APL.

Valdeci, eleito que fora em outubro passado,  ocupará a cadeira de nº 17 que tem como  patrono o médico, jornalista e político RAIMUNDO DE ARÊA LEÃO (1846-1904)  e que teve como último ocupante o também  parnaibano João Paulo dos Reis Velloso (1931-2019).

A solenidade de recepção e  posse deste novo imortal da APL acontecerá no Palácio da Justiça, no auditório do Tribunal de Justiça do Piauí.

O neo-acadêmico da APL também faz parte de  outras instituições do gênero no Estado, entre as quais a de sua terra natal,  a  Academia Parnaibana de Letras -APAL na qual ocupa a cadeira de n° 39  que tem como patrono  o seu genitor,  empresário, ex-vereador e ex-vice-prefeito de Parnaíba Gerardo Ponte Cavalcante.

SOBRE VALDECI CAVALCANTE

Nasceu em Parnaíba em 1952.   É advogado, formado pela Universidade Federal do Piauí. Possui Pós-Graduação em Direito do Trabalho, Administração de Recursos Humanos e Planejamento Educacional. É Professor Universitário, Empresário do Setor do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, 1º Vice-Presidente da Confederação Nacional do Comércio e Presidente do Sistema Fecomércio Sesc/Senac no Piauí. É Membro dos Conselhos Nacionais do SESC, SENAC e CNC; Presidente do Instituto Fecomércio de Pesquisa e Desenvolvimento – IFPD; Presidente do Conselho Consultivo da Junior Achievement; Presidente da Academia de Ciência do Estado do Piauí; Membro do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba; Membro da Academia Campomaiorense de Artes e Letras; Membro da Academia Parnaibana de Letras e Membro da Academia de Letras de Sete Cidades.

CONSIDERAÇÕES SOBRE A CADEIRA Nº 17

Valdeci Cavalcante será o quarto ocupante desta cadeira e o segundo parnaibano a ocupá-la. Os acadêmicos  que o antecederam na citada cadeira  foram os seguintes:

1º OCUPANTE: Odylo de Moura Costa (1873-1957). Posse na APL: 13.06.1921. Nasceu e faleceu em Teresina (PI). Escritor e jornalista, bacharel em Direito pela tradicional Faculdade de Direito do Recife (PE). Residiu no Maranhão, onde ocupou as funções de Secretário de Fazenda , Deputado Estadual e desembargador. Exerceu o Jornalismo em Teresina e em São Luís (MA). Foi juiz nos Termos de Santo Antônio e Flores, hoje Simões, no Maranhão, e também na Comarca de Loreto de São José dos Matões. Deputado Provincial. Escritor, ensaísta e conferencista. Redator do jornal A Cidade de Teresina.

2º OCUPANTE: Odylo Costa Filho (1914-1974). Posse na APL: 1969. Nasceu em São Luís (MA). Jornalista, contista, poeta, ensaísta e crítico literário. Bacharel em Direito pela Universidade do Rio de Janeiro. Secretário de Imprensa da Presidência da República no governo de Café Filho. Adido cultural da Embaixada do Brasil em Lisboa (Portugal). Como jornalista, era um articulista notável. Compositor de Jornais e revistas. Pertenceu a Academia Brasileira de Letras. Foi redator do Jornal do Comércio, fundador e editor do Políticas e Letras, diretor de A Noite e Tribuna da Imprensa e da Revista Senhor. Dirigiu a Rádio Nacional. Diretor de Redação de O Cruzeiro.

3º  E ÚLTIMO OCUPANTE  João Paulo dos Reis Veloso (1931-2018). Nasceu em Parnaíba (PI), em 12.07.1931. Posse na APL: 30.04.1981. Economista e professor reconhecido no Brasil, na América Latina e em países do continente europeu. Dos estudos básicos no Ginásio São Luiz Gonzaga, em Parnaíba, tornou-se PhD pela Universidade Americana de Yale (EUA), granjeando o primeiro lugar. Ministro-chefe da Secretaria de Planejamento da Presidência da República, Presidente do Fórum Nacional. Autor de mais de uma dezena de estudos apontando alternativas para o desenvolvimento econômico do Brasil. Professor de Pós-Graduação da Faculdade Getúlio Vargas. Participou do projeto de criação do Instituto do Cinema e do Museu de Arte Moderna. Bibliografia: Brasil – Solução Positiva; O Último Trem em Paris; Dívida Externa tem Solução; As Opções do Novo Governo; A Solução do Corredor de Longa Distância.

Com a posse de Valdeci Cavalcante na cadeira que foi ocupada pelo ex-ministro João Paulo dos Reis Velloso, a Academia Piauiense de Letras continuará tendo três parnaibanos membros da Academia Parnaibana de Letras ocupando cadeiras naquele sodalício. São eles:  Alcenor Candeira Filho (cadeira 19) e Assis Brasil (cadeira nº 36).

Sobre o antecessor da cadeira 17,  Valdeci Cavalcante escreveu o livro João Paulo dos Reis Velloso – Sonhos, Virtudes e Realizações que foi  lançado aqui em Parnaíba no dia 16 de agosto, durante a inauguração do complexo Gerardo Ponte Cavalcante, bairro Aeroporto que abriga os prédios e instalações da Federação do Comércio, Bens, Serviços e Turismo do Estado do Piauí, – FECOMÉRCIO – PI.

Reis Velloso foi um parnaibano que muito honrou seus conterrâneos e a cadeira que por ele foi ocupada, será preenchida por outro parnaibano ilustre, o qual tem uma vida pautada em ajudar pessoas, principalmente sue conterrâneos e que  muitos benefícios tem trazido para sua terra natal, como por exemplo a criação de uma escola militar na cidade e a revitalização do prédio da União Caixeiral criando o Centro Cultural João Paulo dos Reis Velloso que muitos benefícios tem trazido à sociedade paranaibana no setores da educação e da cultura.

Uma caravana de parnaibanos, membros da Academia Parnaibana de Letras, membros da Maçonaria, de clubes de serviços e de pessoas da sociedade local estará   em Teresina prestigiando a posse deste conterrâneo do qual a cidade muito se orgulha.

Assim como Reis Velloso, Valdeci Cavalcante é também, reconhecido nacionalmente, tendo em vista ser o primeiro vice-presidente da Confederação Nacional do Comércio – CNC.

QUATRO POETAS DO PIAUÍ

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QUATRO POETAS DO PIAUÍ

Elmar Carvalho

No meu trabalho de reorganização do que restou de minha biblioteca, terminei encontrando um exemplar de LB – Revista da Literatura Brasileira. Trata-se do exemplar nº 6. A brochura, de apenas 45 páginas, consequentemente sem nome na lombada, encontrava-se perdida entre os meus livros, de maiores dimensão e volume. Não a via há vários anos. Pensava até que ela se extraviara, no meio de tantos papéis. Por uma circunstância que adiante será explicada, não lhe havia esquecido. O número que tenho em mãos contém crítica literária, resenha de publicações, contos, crônicas, uma novela e outras matérias.

Não há indicação sobre sua periodicidade. O exemplar em comento é referente ao ano de 1997. Seu conselho editorial é formado por Aluysio Mendonça Sampaio, poeta e contista, e Henrique L. Alves, crítico literário, secretário geral da Academia Paulistana de História. Gloria Rivers é o nome de sua secretária administrativa. Entre suas matérias constam Quatro Contistas do Brasil, em que figuram Aluysio Mendonça Sampaio, Caio Porfírio Carneiro, Dalton Trevisan e Moacir Sclyar, e Quatro Poetas do Piauí, cuja seleção recaiu sobre Da Costa e Silva, H. Dobal, Clóvis Moura e Elmar Carvalho. Considero o primeiro, o nosso poeta maior, o nosso poeta laureatus, o príncipe dos poetas piauienses. Dobal e Clóvis, estão entre os poetas piauienses de minha predileção, aos quais, entre os mortos, acrescentaria Mário Faustino, Celso Pinheiro, Martins Napoleão e Jonas Fontenele da Silva. A contracapa anunciava que a próxima edição traria os Quatro Poetas do Rio de Janeiro, sem lhes antecipar os nomes.

Meu primeiro contato com a poesia de Da Costa deu-se quando eu era garoto, quando ainda cursava o antigo ginásio, através de uma professora de Português e Literatura, não sei se dona Francisca Teresa Andrade ou se dona Eidene, filha do farmacêutico e comerciante Aquiles Brasil Rocha. O fato é que a mestra leu o soneto A Moenda, de nosso poeta maior, para mostrar a riqueza dessa composição, tanto pelo conteúdo como pelas figuras de estilo, sobretudo as aliterações começadas pela letra r. Eu já conhecia, na época, os grandes poetas nacionais, e fiquei orgulhoso de que o Piauí tivesse um poeta de tal magnitude, um bardo que se lhes podia ombrear.

Desse episódio, fiquei com a certeza de quão era importante o estudo de literatura em sala de aula. Por esse motivo, quando presidi a UBE-PI, gestão 1988/1990, lutei para que o ensino de Literatura Piauiense fosse posto no texto constitucional do estado como disciplina obrigatória, o que terminou acontecendo, graças ao esforço e obstinação do deputado Humberto Reis da Silveira, que homenageei com honrarias da entidade, cujos diplomas ele emoldurou e expunha em seu gabinete, porquanto sabia da sinceridade da outorga. Um pouco depois da declamação feita por Francisca Teresa ou Eidene, na Casa do Estudante do Piauí, em Teresina, vi o poema Saudade, estampado em um cartão postal, e mais uma vez constatei a grandeza do poema dacostiano.

Desse soneto, meu pai extraiu o magnífico verso – Saudade ! Asa de dor do Pensamento! – e o depôs na lápide de minha irmã Josélia, falecida aos 15 ano de idade, vítima de desastre automobilístico, no esplendor de sua beleza e carisma. Estive presente a alguns dos eventos da comemoração de seu centenário de nascimento, ocorrido em 1985, inclusive a uma palestra proferida pelo poeta e embaixador Alberto da Costa e Silva, seu filho. Li o número da revista Presença, elaborado em sua homenagem, com matérias biográficas e críticas sobre ele. Não lhe pude adquirir o livro de suas Poesias Completas, editado na época. Comprei-as numa edição posterior, da Nova Fronteira, e as li todas, com prazer, enlevo e enternecimento.

Meu primeiro conhecimento dos versos de H. Dobal se deu quando eu tinha em torno de 19, 20 anos, quando conheci a avantajada biblioteca de João Nonon de Moura Fontes Ibiapina, quando fui visitá-lo, acompanhando uns parentes de meu pai, que eram seus amigos. O nobre magistrado e escritor morava em um sobrado, na rua Pedro II, em Parnaíba, e seu acervo ocupava um amplo salão do andar superior. Fontes Ibiapina era um homem simples, humilde, sem empáfia e sem afetação. Não era verborrágico e nem eloquente, de modo que não impressionava muito em sua conversa. Na verdade era muito contido, chegando quase, às vezes, a ser monossilábico. Entretanto, era um mestre na arte de escrever. Eu era leitor de sua coluna de resenhas literárias, publicada semanalmente no jornal Folha do Litoral, que ele manteve durante muitos anos. Magistrado íntegro, imparcial, foi um dos fundadores da Academia Parnaibana de Letras, e seu primeiro presidente.

Nessa visita ou em outra, já não tenho certeza, mostrou-me sua grande biblioteca. Admirou-se quando eu lhe pedi emprestado uns livros de sua autoria, pelo fato de que, entre tantos clássicos da literatura universal, eu fosse escolher os de sua lavra. Acontece que eu já lhe lera Brocotós, anos atrás, por empréstimo de uma prima, e gostara muito de suas estórias e forma de narrar. Nessa ocasião, sabendo que eu era de Campo Maior, perguntou-me se conhecia os poemas de H. Dobal. Ao lhe responder negativamente, mostrou-me alguns versos do poeta.

No início, estranhei aqueles versos personalíssimos, inusitados, sem preocupação com rimas, e somente em futuras e sucessivas leituras pude apreciar a sua beleza ímpar, sem derramamentos emocionais. Décadas após, sugeri seu nome ao vereador Luiz Carlos Martins Alves, para que ele recebesse o título de Cidadão Honorário de Campo Maior. O nobre edil conferiu-me a honra de proferir o discurso em sua homenagem, por ocasião da outorga da honraria. Quase três anos atrás tive a elevada honra de ocupar a cadeira nº 10 da Academia Piauiense de Letras, que fora ocupada por H. Dobal, sem a pretensão de que estaria a substituir esse aedo insubstituível.

Quanto a Clóvis Steiger de Assis Moura, tomei contato com sua arte poética através da revista Presença, então órgão da Secretaria de Cultura. Mais tarde me veio às mãos o valioso opúsculo Argila da Memória, em que as suas lembranças líricas e amarantinas ficam a pulsar e borbulhar por entre suas páginas, com gargarejos de gargalos, com golfadas de afogados, com rumorejos de redemoinhos, em que perpassam as elegias dos sinos e do cemitério, e as lembranças dos que se foram, tragados pelas águas traiçoeiras do Velho Monge. Quando ele veio lançar um pequeno livro de cordel, conheci-o pessoalmente. Soube depois, que ele, com o apoio de Cineas Santos, publicara o livro Duelos com o Infinito (2005), através da Secretaria da Educação. Tendo admirado Argila da Memória e Flauta de Argila, porfiei em conseguir esse livro. Procurei o poeta Cineas Santos, que só tinha um único exemplar. Disse-me ele que eu talvez conseguisse algum volume na Seduc.

Nesse órgão, procurei uma conhecida minha, que não conseguiu localizá-lo. Obstinado, dirigi-me ao gabinete do secretário, para ver se existia algum exemplar perdido em alguma gaveta ou prateleira. Não havia. Entretanto, uma servidora do gabinete, vendo o meu interesse e esforço, disse que iria tentar encontrar algum exemplar, em outros setores da Secretaria. Ficou de me ligar se a procura tivesse êxito. Ligou-me alguns dias depois, para me dizer que podia ir buscar o livro. Fui e o recebi de suas boas e abnegadas mãos. Mergulhei, então, na leitura desse grande poeta piauiense, que foi também notável sociólogo, com respeitáveis estudos sobre negritude, ele que era descendente de escravo e de barão do império prussiano. Pesquisador determinado e sério, ficou vários dias ou meses na comunidade dos Mimbós, estudando a história, a cultura e os costumes desses remanescentes de quilombolas. Tenho a honra de ser o primeiro ocupante de cadeira da Academia de Letras do Médio Parnaíba, sob seu patronato.

Voltando a falar da LB – Revista da Literatura Brasileira, nº 6, devo dizer que não sei quem me indicou para fazer parte da seção Quatro Poetas do Piauí. Quem o fez, nunca me alegou tal iniciativa, e nunca me apresentou fatura e nem cobrança. Na capa de meu exemplar, existe autógrafo da professora Clea Melo, chamando-me a atenção para a página 33, na qual começa minha participação. Foi ela quem me enviou a revista, o que demonstra ser ela uma verdadeira amiga, pois os falsos e dissimulados só gostam de se referir às notícias que não nos são favoráveis, ignorando, em ressentido silêncio, as que reconhecem as nossas vitórias e qualidades positivas. Cada poeta teve direito a três páginas. Foram publicados três poemas de cada autor, exceto de Clóvis Moura, que participou com quatro textos.

11 de novembro de 2011

VII Salão do Livro de Parnaíba será lançado sábado na Pousada dos Ventos.

 

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A Fundação Dom Quixote anunciou nesta terça-feira, dia 12, a realização do VII Salão do Livro de Parnaíba, o SALIPA, entre o dia 28 de novembro e 1º de dezembro, na Universidade Federal do Piauí, campus Reis Velloso, zona norte.

O lançamento será às 18h30 desse sábado dia 16 na Pousada dos Ventos, avenida São Sebastião. O SALIPA de 2019 homenageia o escritor e advogado Pádua Ramos, membro da Academia Parnaibana de Letras, que ocupava a cadeira 30 da Academia Parnaibana de Letras.

Valdeci Cavalcante toma posse na Academia Piauiense de Letras dia 21 de novembro.  

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Marcada para o dia 21 às 19h30 no auditório do Tribunal de Justiça do Piauí em Teresina, a posse do escritor, advogado e empresário Francisco Valdeci de Sousa Cavalcante na Academia Piauiense de Letras.

O anúncio da solenidade no Palácio da Justiça foi feito pelo presidente da APL, escritor Nelson Nery Costa. O discurso de recepção será feito pelo acadêmico Hugo Napoleão do Rego Neto.

Valdecir Cavalcante toma posse na cadeira 17, que tem como patrono Raimundo de Area Leão, primeiro ocupante Odylo de Moura Costa e terceiro e último ocupante João Paulo dos Reis Velloso.

Viçosa e o Arraial de Paris

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Viçosa e o Arraial de Paris

Elmar Carvalho

Recebi, na sede da Academia Piauiense de Letras, a obra O Arraial de Paris, devidamente autografada por seu autor, Vicente Miranda, meu amigo e conhecido há duas décadas.

Já lhe havia lido o volumoso livro Três Séculos de Caminhada, que é um misto muito bem feito e muito bem arrumado de sociologia, antropologia, história, geografia e genealogia da Serra da Ibiapaba e de parte do Piauí; ou seja, do território por onde se espalhou grande parte dos entrelaçamentos familiares do autor. Sobre ele escrevi uma espécie de crônica ensaística que se encontra publicada na internet.

Arraial de Paris foi o nome dado ao local onde se amontoavam homens, mulheres, velhos, adolescentes e crianças, os chamados retirantes, na verdade fugitivos da seca de 1877/1879, que grassou na caatinga cearense e em boa parte da Ibiapaba. Segundo Vicente Miranda, o nome Arraial de Paris para designar essa espécie de primeiro campo de concentração foi posto por um erudito da Vila Viçosa Real. Suponho que o “erudito” fosse na verdade um sarcasta ou ironista, para com essa denominação, que remete a uma urbe elegante e refinada, batizar um gueto de sofrimento e humilhação. E Miranda lhe pôs esse rótulo também por simples ironia.

Vicente Miranda em estilo elegante, fluido, contudo sempre revestido de clareza, objetividade e concisão, desnuda os sofrimentos e mazelas que permeavam essa concentração humana, onde, quase sempre, imperavam a fome, o alcoolismo e mesmo a prostituição, esta como forma de a mulher amealhar algum dinheiro para se sustentar, bem como a seus familiares – pais, irmãos, filhos e, às vezes, o próprio marido.

O Arraial foi a forma encontrada para que esse cortejo de miseráveis não ficassem incomodando as famílias tradicionais e mais bem aquinhoadas da bela Viçosa, seja através da mendicância ou mesmo de eventuais furtos. Como a Comissão de Socorro Público da vila não tinha condição de suprir com eficácia as necessidades dos flagelados da seca, os homens passaram a derrubar as palmeiras da cercania, em busca sobretudo do palmito e das amêndoas, para mitigar a fome da família.

Sobre o notável livro de Vicente, disse Sarah Miranda:

“O Arraial de Paris não é mais um livro sobre seca no Nordeste. É uma reflexão endógena e documental sobre o comportamento humano, suas potencialidades e suas fraquezas, seus limites e crueldades, até se desnudar por inteiro e descobrir de que matéria é feito, de como é possível sofrer e cantar ao mesmo tempo no sertão.

Nessa obra comprometida com a verdade real, retira-se o véu da ilusão sobre o papel estatal nas Comissões de Socorros Públicos nos tempos de ‘seca social’ e ‘Justiça’ diante de conflitos em tempos em que o retirante, se não morre de fome, encontra a morte na intolerância entre as famílias rivais.”

Para escrever esse livro, o autor, sempre comprometido com a verdade, que deve ser o desiderato maior de qualquer historiador, além de ter entrevistado parentes idosos, que conheciam a crônica oral e familiar dessa terrível seca, tendo tido acesso a alguns apontamentos escritos, consultou inúmeros documentos, fazendo, sem dúvida, o necessário cotejo e contextualização, inclusive com o que se encontra nos livros e jornais da época.

Fez um verdadeiro painel ou mural dessa tragédia climática, que ciclicamente ainda castiga o sertão do Ceará, embora hoje haja novas maneiras de se conviver ou de se mitigar o problema, através de novos manejos de solo, de equipamentos e insumos modernos, com a construção de açudes, barragens e aguadas, e também com a engenharia genética, na tentativa de se produzir plantas mais adequadas às caatingas e chapadões. Não se podendo mudar o clima, tenta-se transformar a convivência e a cultura, mediante o emprego de novos conhecimentos e tecnologias.

Para tornar mais atraente e melhor condimentada a saga e a via crúcis dos míseros retirantes, que pretendiam ter em Viçosa apenas o ponto de apoio para o descanso e a recuperação de suas forças para a continuação de seu percurso ao destino final, que era o Maranhão ou uma das cidades piauienses à beira do Parnaíba, entre elas União, Miranda relatou as vicissitudes de uma adoção e a chamada Tragédia da Tabatinga.

Sem almejar fazer um spoiler, traço uma apertada síntese da adoção. Uma família, depois de sofrer todas as misérias que a fome pode acarretar, até mesmo a prostituição, cedeu um menino para ser criado por uma família próspera, até que tivesse condição financeira para vir buscá-lo. Na luta de uma das irmãs para reaver o garoto “adotado” pelo fazendeiro Albino da Costa Portella, o autor do livro constatou a correção do juiz do feito, ajuizado em Barras. O magistrado se chamava Estêvão Lopes Castelo Branco, que já naquela época, quando a necessidade de fundamentação não era muito observada e exigida, pelo menos com o devido rigor, justificava bem as suas decisões.

Pela coincidência de nome, pelas datas e pelo tipo e local da função exercida, eu o identifico como sendo Estêvão Lopes Castelo Branco Sobrinho, nascido na célebre Fazenda Ininga, em José de Freitas, formado em Direito no Recife, e irmão do patriota e benemérito Pacífico Castelo Branco, herói da Guerra do Paraguai e comandante por três anos dos Voluntários da Pátria oriundos do Piauí. Estêvão foi um dos fundadores e primeiro presidente da Sociedade Abolicionista e Libertadora Barrense, que teve o primeiro hino composto em terras piauienses.

Também o livro, como anunciado acima, narra a Tragédia da Tabatinga, com muito colorido, movimento e detalhes, quase como se fora um romance, mas baseado em documentos e na verdade histórica, que a tradição não esqueceu, conquanto lhe possa ter dado algumas pinceladas de quase lenda. Busca os antecedentes e a causa da inimizade antiga entre o major Inácio José Correia, o Macaxeira, e o índio/mameluco Francisco Gonçalves da Costa, o Juriti.

Com a sua reconhecida imparcialidade e rigor histórico, Vicente Miranda compulsou com vagar e atenção todo o processo investigativo e judicial em que os fatos foram apurados e levados a julgamento. O certo é que, em resumo, Juriti e seus familiares indígenas trucidaram quase toda a família do major Inácio e seus apaniguados, muitos dos quais lhe formavam uma espécie de força armada particular. O episódio, pela sanguinolência e dimensão que teve, bem se prestaria a um roteiro de filme de  “faroeste” ou bangue-bangue nordestino, cuja luta, com incêndios, explosões de líquidos inflamáveis, tiros, bordoadas e facadas, teve como cenário o espinhaço da Ibiapaba, nas proximidades da então Vila de Viçosa Real.

A obra, um legítimo estudo sociológico e histórico do flagelo da seca de 1877/1879, que registra o esforço do governo imperial e provincial em atenuar a miséria que assolava o sertão cearense, sobretudo com o repasse de alimentos e a construção de edifícios e ferrovias, também se reveste de beleza literária ao narrar as tragédias particulares e a miséria moral de alguns homens públicos, que tiravam proveito da chamada “seca social”, seja desviando recursos e produtos alimentícios ou satisfazendo a libido.

Desnecessário dizer que o esforço governamental ficou longe de solucionar as necessidades mínimas dos ditos esmolambados, que sofriam no confinamento do Arraial de Paris e nas ermas veredas das calcinadas caatingas e chapadões, onde apenas se viam as cores sépia e cinza, com exceção do raro verde das frondes dos juazeiros e dos espinhentos xiquexiques e macambiras, que lhes acenavam, talvez, um pouco de esperança.

HOMERO E A SAGA DOS CASTELO BRANCO

HOMERO E A SAGA DOS CASTELO BRANCO

Elmar Carvalho

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Como é fácil de se ver, este livro é um autêntico dois em um, inclusive com duas capas. O leitor poderá começar a leitura por qualquer uma delas; quando chegar ao fim do livro escolhido, é só fechar o volume, e virá-lo de ponta-cabeça, mantendo a lombada sempre à esquerda, e iniciar a leitura do outro. Seus títulos são: Fenelon Ferreira Castello Branco e Castello Branco – Ontem e Hoje.

Falarei um pouco de seu autor, imprimindo a este texto preambular um certo caráter de crônica, escrita ao “correr da pena”, melhor diria, da digitação. Homero é um sábio bem-humorado; e é bem-humorado exatamente porque é um sábio. Um sábio sem empáfia, discreto como convém, que disfarça a sua sabedoria nas anedotas que conta, quase as travestindo em parábolas de admoestação e exemplo.

Como o seu famoso xará grego, é um homérico contador de histórias e estórias, muitas delas verdadeiras anedotas verídicas. De algumas ele participou, senão como protagonista, ao menos como coadjuvante. Por isso mesmo, tenho insistido para que ele escreva um livro de memórias, as suas próprias, e as suas memórias dos outros. Ele sorri, mas negaceia, talvez por receio de magoar algumas pessoas de sua amizade.

Num dos livros conta a saga de Fenelon. Suas conquistas e perdas. Suas crises e alegrias. Narra a profunda tristeza em que ele mergulhou, após a morte da primeira esposa (Ana Fortes Castelo Branco), cujo consórcio durou apenas três meses, em virtude do prematuro falecimento de Nicota, seu apelido familiar e afetivo, pelo qual era mais conhecida. Por causa desse infortúnio, e da depressão que em consequência lhe adveio, escreveu 35 sonetos elegíacos, integrantes do livro Ano de Luto. Sobre essa obra, no livro “Academia Piauiense de Letras – Os fundadores”, disse o acadêmico Wilson Carvalho Gonçalves:

“Por ocasião do primeiro aniversário da morte de sua mulher, Ana Fortes Castelo Branco, ocorrido em 1902, o poeta publicou “Ano de Luto”, magoada elegia em que pranteou sua morte, em que lamentou “a mágoa sem remédio de perder-te”, como nos versos imortais do imensurável vate lusitano.”

O nosso poeta maior Da Costa e Silva também passou por semelhante calvário, ao perder a primeira esposa, Alice Salles Salomon, no quinquagésimo ano do casamento. Escreveu os versos elegíacos do livro Verônica sob o impacto desse infausto acontecimento. Fagundes Varela compôs uma das mais belas elegias da língua portuguesa – Cântico do Calvário – inspirado na morte de seu filho Emiliano, com apenas três meses de vida. Dessa forma, podemos dizer que esses três poetas contrariam os versos aforísticos de Fernando Pessoa, que afirmam: “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.” Eles realmente sentiram as dores que, em versos, afirmaram sentir. Mas isso apenas confirma a regra de que toda regra tem exceção.

Contudo, na narração da vida de Fenelon, Homero não foi um simples biógrafo, o que já seria muito, mas traquejado em narrativas verídicas e fictícias, soube lhe imprimir certo tom de romance, ao contar determinadas nuanças, ao descrever a ambientação de alguns fatos, bem como ao lhe perquirir os estados da alma. Procurou encontrar a motivação psicológica para algumas tomadas de decisões na vida e para os vários textos de Fenelon que transcreve, e que ilustram, ornamentam e esclarecem a biografia. Portanto, nesse livro perpassa o ideário, o pensamento e a personalidade complexa do biografado.

No livro, além de o autor ter feito constar o manuscrito de um poema do biografado, dirigido a sua mãe, também fez a transcrição fac-similada de uma genealogia feita por ele, de seu próprio punho, que abarca várias gerações da família Castelo Branco no Piauí, desde o patriarca Dom Francisco da Cunha Castelo Branco, mostrando as suas ramificações em diferentes municípios, bem como os vários entrelaçamentos familiares, através de casamentos, com velhas e tradicionais estirpes piauienses.

Esse documento tem servido de base às mais importantes genealogias referentes ao nosso estado, vez que é bastante preciso, ao referir vários casais e respectivos filhos dessa linhagem. Dada a sua alta importância genealógica e histórica, Homero teve o cuidado de mandar digitá-lo e o transcreveu na íntegra, o que facilita a sua leitura, por qualquer consulente, genealogista ou historiador.

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No livro Castello Branco – Ontem e Hoje, dividido em várias partes, podemos constatar que Homero dá uma grande contribuição para a história e a genealogia piauienses, sendo o seu livro um repositório de dados e informações, que se encontravam dispersos, ou mesmo ainda sem a luz da publicidade.

Na primeira dessas partes, foi transcrito o Apontamento feito por Homero Ferreira Castelo Branco (1889 – 1946), o primeiro desse nome, filho de Manuel Thomaz Ferreira (1826 – 1907), o segundo do nome, que revela a origem desse apelido familiar, em que ele com muita verve e bom-humor diz que a “genealogia sempre esbarra, via de regra, na cozinha, no mato ou na sacristia”.

No Piauí mesmo temos vários casos de padres ilustres e abnegados, mas que também foram grandes reprodutores. Quanto ao mato e à cozinha, todos sabemos que o Brasil é um país de ampla miscigenação, por sinal bem estudada na Casa-Grande e Senzala do mestre Gilberto Freyre e nos livros de outros sociólogos, a qual tem dado à pátria belas mulatas e lindas caboclas, que pululam em nossos principais romances.

Por falar em romance, o velho Homero, avô de nosso genealogista, parece ser um cultor da melhor literatura, e poderia ter escrito belas páginas se o desejasse, conforme se pode inferir dessa pequena amostra em comento. No breve trecho que a seguir transcrevo, referto de belas imagens e metáforas, bem como de elegante e irônica verve, a par de notável habilidade descritiva, podemos observar o seu talento para uma prosa fluida, rítmica e mesmo poética:

“Manuel Thomaz Ferreira, meu pai, tinha um irmão que temperou seu sangue com uma negra nascida em Benin, um país estreito entre Tongo e Nigéria, na África. Coração do mundo, seios fartos, comoventes, o dorso formava uma imperecível topografia. O tio tremia com as carícias que desenvolvia. Ergueu seu membro viril ao encontro do sexo, placidamente acertou entre as coxas, venceu a superfície vã do desejo, conhecendo o prazer que habitava no fundo de seus corpos.”

Com certeza o enxerto acima trai o talentoso poeta e exímio prosador que ele poderia ter sido. E foi, não obstante as poucas laudas que produziu. Poderia ter escrito um belo livro de memórias, ou mesmo um grande romance, ou ainda fulgurantes poemas. O velho Homero poderia ser a prefiguração do outro Homero, neto que viria, o nosso estimado Homero, mestre de uma boa prosa sem prosápias e de não menos boas histórias e vasto repertório de anedotas, que bem dariam um magnífico livro.

Sem embargo de seu diletantismo e do que poderia ter alcançado nas letras, se a estas tivesse se dedicado com afinco, produziu no Apontamento de sua autoria três importantes biografias de seus ilustres ancestrais: Miguel de Sousa Borges Leal Castelo Branco (1778 – 1844), campomaiorense, magistrado, deputado da Corte Constituinte de Lisboa, o primeiro piauiense a se formar na Universidade de Coimbra; Lívio Lopes Castelo Branco (1813 – 1869), seu avô, que ele descreve como sendo um rebelde, de temperamento impulsivo e de espírito acentuadamente liberal, pelo que lhe repugnava “toda injustiça, principalmente se cometida contra  os mais desfavorecidos da sociedade”; Lívio aderiu à revolta dos Balaios, na qual gastou vastos cabedais e Manuel Thomaz Ferreira (1826 – 1907), segundo do nome, seu pai, que teve 21 filhos (11 do primeiro casamento e 10 do segundo), dos quais descendem boa parte dos Castelo Branco piauienses.

Em seguida (parte II), vem o Apontamento feito por Herbert Marathaoan Castelo Branco (1916 – 2006), no período de 1950 a 2006. Herbert é neto de Manuel Thomaz Ferreira (2º do nome) e pai do nosso bravo Homero Ferreira Castelo Branco Neto, que nasceu na aprazível, bela e bucólica Amarante, quando seu pai ali exercia o cargo de promotor de Justiça. Depois, foi ser magistrado no Ceará, onde se aposentou no cargo de desembargador do Tribunal cearense.

Herbert, após reconhecer, que “nos aproximamos de nossos ancestrais quando vamos obtendo informações sobre cada um deles”, e que eles gostam disso, afirma que esse “elo com os antepassados representa a perpetuidade desses parentes”, passa a escrever, em linguagem elegante e escorreita, um misto de crônicas memorialísticas e biográficas de seu pai, de si mesmo e de seus irmãos, além de alguns textos sobre acontecimentos importantes ou curiosos do seu tempo.

Na parte III, nos deparamos com o Apontamento de Moysés Ferreira Castelo Branco Filho (1905 – 1980), neto de Manuel Thomaz Ferreira, segundo do nome. O autor desse apontamento foi general de Exército, professor de História, engenheiro e geógrafo militar. Autêntica vocação para a historiografia, escreveu notáveis livros sobre a História do Piauí, conforme pode ser conferido na nota de pé de página. Nessa divisão, foi acolhido importante texto de sua lavra sobre a Balaiada (1838 – 1840), cujo estopim foi o campomaiorense Raimundo Gomes Vieira Jutaí, um de seus principais líderes, assim como Manuel Francisco dos Anjos Ferreira, alcunhado o Balaio. Como já disse acima, também participou dessa revolta Lívio Lopes Castelo Branco e Silva, fazendeiro e político de Campo Maior, sobretudo com o objetivo, segundo Moysés, “de afastar do poder o brigadeiro Manuel de Sousa Martins, havia 15 anos na governança do Piauí”.

Moysés, apesar de sua formação militar, tendo chegado ao posto de general de Exército, e de ter falecido em 1980, quando a ditadura militar ainda estava a pleno vapor, não teve uma visão retrógrada, conservadora dos Balaios, pois no texto coligido observa que “a Balaiada não deve ser vista como rebeldia de um bando de assaltadores e facínoras, assim julgada na época”, e assinala que seus chefes populares “não eram bandidos afeitos ao crime”, aduzindo que Raimundo Gomes era um boiadeiro de confiança do padre Inácio Mendes de Morais e Silva, e Manuel Francisco dos Anjos Ferreira, o Balaio, era um “caboclo pacífico e chefe de família”, que vivia do trabalho honesto de confeccionar e vender balaios de guarimã.

Afinal chegamos à IV e última parte, a mais volumosa, um verdadeiro livro dentro do monumental livro, também denominada Apontamento, todo da autoria de Homero Ferreira Castelo Branco Neto (1943), bisneto de Manuel Thomaz Ferreira (1826 – 1907), o segundo desse nome. Não tomei o vocábulo monumental em vão, nem tampouco de forma meramente laudatória, mas porque este livro, em seu todo, é realmente monumental, tanto por ser volumoso em laudas, como pela sua notável contribuição à historiografia e à genealogia de nosso estado.

No Apontamento, ora comentado, o autor, em suas páginas vestibulares, discorre sobre sua afetividade familiar, sobre suas preocupações existenciais e perquire os grandes segredos e as recorrentes dúvidas metafísicas, a respeito das quais, creio, nunca teremos certeza nesta etapa existencial, nesta atual dimensão de nossa vida. E seguindo o mandamento socrático, dialoga consigo mesmo, procurando conhecer-se um pouco mais, na tentativa de decifrar os seus próprios enigmas e mistérios, que todos os temos.

O autor traça a descendência de Manuel Thomaz Ferreira (1º do nome), a partir de Joaquim José do Rego (n. 1792, em Portugal, e f. na Fazenda Peixão, atual cidade de Nossa Senhora dos Remédios) até dias recentes. Com relação a alguns dos patriarcas e figuras mais proeminentes elabora breves biografias, contudo recheadas de fatos notáveis ou curiosos, sendo alguns revestidos de certo caráter jocoso e mesmo anedótico. Com referência a Manuel Thomaz Ferreira, o segundo do nome, anota que numa lápide do cemitério velho de José de Freitas (antiga Livramento) está escrito: “Aqui repousam os restos mortais de Manuel Thomaz Ferreira, pai de uma legião de filhos; dedicou sua vida de trabalho e canseiras à família”. Aos 14 anos de idade, quando residi nessa cidade por um pouco mais de um ano, joguei bola quase todo dia ao lado desse antigo campo-santo, chamado de cemitério dos ricos, no qual entrei muitas vezes, para “pesquisar” nas lápides de alguns mausoléus.

Perlongando seu Apontamento, verificamos que Homero discorre sobre as vetustas casas-grandes das fazendas agropecuárias piauienses, sobre os casarões, as casas solarengas e sobrados de nossas mais antigas cidades, situando-as, descrevendo-as, pelo que ficamos conhecendo os seus alpendres, os seus pátios, as suas capelas, os seus oratórios e mobílias. Com essas leituras, nos lembramos de velhas porcelanas, guardadas em antiquíssimas cristaleiras, de velhos potes e bilhas, sobre maciças bilheiras, de que ninguém mais ouve falar. Fala ainda de velhos costumes, festas e folguedos. Refere alguns dos principais sobrados, casarões e solares pertencentes a membros da família Castelo Branco, situados em diferentes rincões piauienses.

Ao fazer breve estudo sociológico de nossa genealogia e dos entrelaçamentos familiares, produz um conciso relato histórico dos Dias da Silva, das emblemáticas e patriarcais figuras de Domingos e Simplício. Fala da importância histórica deste, de sua influência política, da orquestra de escravos, que ele custeou, ele que foi um potentado, de vida nababesca, faustosa. Narra episódios pouco conhecidos de sua saga cheia de aventuras, venturas e desventuras. Com efeito, sua vida foi mesmo romanesca.

São apresentadas no Apontamento de Homero as biografias de inúmeros membros da família Castelo Branco que se destacaram nos mais diferentes campos das atividades humanas, mormente nos da política, do empreendedorismo, das artes, do jornalismo, do magistério, da historiografia e da literatura.

Deu realce a Antônio Sant’ Anna Castelo Branco (18.08.1879 – 1953), barrense, mais conhecido como Dondon. Jornalista de pena desabrida e ousada, bastando que se diga que o seu jornal tinha o nome de O Denunciante. E ele denunciava sem temor as mazelas da sociedade e da política, vergastando sem pena os maus governantes. Por causa de seu destemor em suas catilinárias e verrinas, seus desafetos jogaram a impressora de seu jornal nas águas barrentas do Parnaíba.

Dondon, que era ao mesmo tempo o seu proprietário, redator, repórter, e “compositor” tipográfico, teve ainda que ser um pescador, para retirar seu equipamento das águas turvas do Velho Monge. Conta-se que ele, por simples irreverência, ou talvez para agredir a empáfia de alguns familiares, pedia no Karnak, então uma espécie de chácara de ricos parentes, o seu almoço, mas exigia que ele fosse posto numa lata de doce vazia, que apresentava. Veraz e imparcial, escreveu sobre sua postura jornalística: “Tenho um veículo de comunicação com posicionamento necessário diante dos problemas sociais, políticos e econômicos. Não existe apenas um lado de um fato. O Denunciante não dissemina informação inverídica que só atende o interesse dos patrocinadores. Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique.”

Propagandista e figura emblemática das Lutas pela Independência do Brasil em plagas piauienses foi Leonardo de Carvalho Castelo Branco, que inclusive, por isso mesmo, chegou a amargar prisão. Dedicou parte de sua vida a tentar inventar o chamado moto contínuo, conquanto sem sucesso. Escreveu importantes livros de poemas; alguns, a exemplo dos de Sousândrade, maranhense, pareciam se destinar a um tempo futuro, que melhor lhes compreendesse o fundo e a forma. Adotou, depois, o nome de Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco.

Vários Castelo Branco participaram da Guerra do Paraguai, entre os quais cito: Pacífico da Silva Castelo Branco, dono de vastas glebas de terra e inúmeras fazendas de gado, que por três anos comandou o Batalhão de Voluntários do Piauí; Teodoro de Carvalho e Silva Castelo Branco, cognominado o “poeta caçador”, por gostar de caçadas e haver escrito a Harpa do Caçador; e Hermínio de Carvalho Castelo Branco, autor de Lira Sertaneja, que contém belos poemas de sabor popular. Todos nasceram em território que, então, pertencia a Barras. Também foram combatentes da Guerra do Paraguai: Eudoro Emiliano de Carvalho Castelo Branco, que depois, no início da República, se rebelou contra Floriano Peixoto, seu amigo, e foi por este mandado fuzilar (a contraordem chegou tardiamente); e os irmãos Antônio Lopes Castelo Branco (1º do nome) e Pórcio Lopes Castelo Branco, mortos em combate. Brilharam nas batalhas de Tuiuti e Lomas Valentinas.

Pacífico da Silva Castelo Branco, apesar de possuir vastas fazendas e escravos, tinha o costume de libertar alguns escravos, por ocasião de seu aniversário. Ao retornar da Guerra do Paraguai, emancipou todos eles. Homero nos informa que ele foi “fundador e militante da Sociedade Abolicionista Libertadora Barrense, presidida por seu irmão, Estêvão Lopes Castelo Branco Júnior, n. 18.07.1836, na Fazenda Ininga, advogado formado no Recife – PE”. Essa sociedade foi fundada em 01.06.1884, e na oportunidade foram entregues 37 cartas de alforria, 12 das quais conferidas pelo presidente dessa entidade libertadora. Na solenidade de sua criação, foi cantado o Hino à Libertadora Barrense, composto por Leovigildo Belmonte de Carvalho, que se tornou um grande defensor da causa abolicionista. O seu estatuto foi aprovado pelo presidente da província, Dr. Raimundo Teodoro de Castro e Silva, em 08.11.1884. Este livro contém a partitura do hino dessa sociedade libertadora.

Pacífico, por problemas de saúde, passou a morar em Parnaíba, no edifício onde hoje fica a Santa Casa de Misericórdia.

No discurso com que recebeu o autor na Academia Piauiense de Letras, disse o acadêmico e notável historiador Reginaldo Miranda, na noite memoranda do dia 20 de junho de 2013:

“Meu caro Homero, esta Casa é sua, seus familiares ajudaram a construí-la. A família Castelo Branco tem profunda ligação com a assim cognominada Casa de Lucídio Freitas, ele próprio aparentado aos Castelo Branco. Sua família deu uma enorme contribuição à literatura piauiense.”

Carlos Castelo Branco, escritor e jornalista, titular da famosa Coluna do Castelo, no Jornal do Brasil, membro da Academia Brasileira de Letras, quando tomou posse em nossa Academia Piauiense, em 26 de setembro de 1984, reconheceu a forte presença de sua família nessa agremiação literária:

“A identificação da Academia com minha família salta aos olhos de qualquer um que conheça sua história e sua composição, mesmo a atual. Seis Castelo Branco figuram entre os patronos: Hermínio, o poeta de Lira Sertaneja, o padre Joaquim Sampaio, Teodoro, que lutou na guerra do Paraguai, onde morreram 11 membros da família. Antônio Borges Leal, Miguel de Sousa Borges Leal, meu tetravô e o primeiro piauiense a formar-se em Direito na Faculdade de Coimbra e Heitor. Entre os titulares serei a partir de hoje o oitavo. Os outros chamam-se Fenelon, Cristino, Arimathéa Tito, pai e filho, que amputaram o sobrenome por desavença familiar de seus avós, Maria Nerina, Emília e Emília Leite Castelo Branco, filha e mãe.”

Por conseguinte, Homero houve por bem estampar a biografia de todos os patronos e acadêmicos da Academia Piauiense de Letras oriundos dessa velha estirpe, tenham ou não o sobrenome Castelo Branco incorporado ao seu nome completo.

Com essa notável obra genealógica, memorialística, biográfica e historiográfica, Homero Ferreira Castelo Branco Neto passa a se ombrear com os maiores genealogistas do nosso Piauí, quais sejam, Edgardo Pires Ferreira, Abimael Ferreira de Carvalho, Reginaldo Miranda, Vicente Miranda e Valdemir Miranda.

É uma obra homérica, no melhor sentido da palavra, feita por um Homero e digna de um Homero, seja grego ou não.