Poesia invisível: uma lição real. 

 

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Dia quente, manhã ensolarada. Caminhava a pé pelas ruas de minha cidade observando o movimento das pessoas e dos veículos enquanto me dirigia à Praça Santo Antônio, uma das mais conhecidas de Parnaíba.

Dobrando a esquina, logo a avistei. Fervilhando de pessoas tão envolvidas em seus afazeres que mal se davam conta da beleza do cenário que as rodeava. Quase não dava para ouvir o cantar dos pássaros por causa do barulho vindo do trânsito exaustivo de carros e das vans do transporte alternativo que bem ali ao lado recolhiam seus passageiros, muito ocupados em sua luta diária pela pontualidade.

De repente, meu olhar é atraído pela figura de um senhor de gestos simples, botas de couro esburacadas, trajando roupas que, mesmo rasgadas, ainda apresentavam um resquício de certa formalidade. Posso jurar, caro leitor, que pensei ser um mendigo. No entanto, ao me aproximar, constatei que era apenas um senhor pobre tentando vender seus livros de literatura de cordel para sustentar sua família.

Um estranho magnetismo presente naquela figura exótica me fez parar para observá-lo por alguns instantes. A poesia presente em suas palavras, pronunciadas quase em forma de canção, quebravam a rotina monótona das conversas e dos assuntos que normalmente frequentavam aquela praça.

Fazia um calor escaldante, apesar das sombras das árvores, impedindo-me de continuar apreciando o encanto daquele momento. É claro que diante de tão humilde vendedor, pensei em comprar alguns cordéis, porém estava sem dinheiro. Decidi continuar meu trajeto, decepcionado por não ter no bolso o suficiente para ajuda-lo e murmurando por causa do calor.

Para a minha surpresa, o homem riu ouvindo minhas palavras e respondeu:

– Ai, ai! Quem me dera um calor assim, nas terras de onde eu vim!

Confesso que a princípio não compreendi o sentido de suas palavras e logo perguntei-lhe o que queria dizer.

O Senhor respondeu entoando a voz solenemente:

– Ah, meu filho! Eu venho de onde o sol mais ardente queima, onde a dor mais forte dói, onde a chuva em não cair teima!

Fiquei impressionado com suas palavras. Como um senhor tão simples, vindo talvez do sertão, aprendeu a falar tão bonito? Não sei por quanto tempo continuei a ouvi-lo falar, contar histórias, parábolas e até piadas hilárias.

Subitamente um ruído vindo do estômago daquele homem me trouxe de volta às mazelas da realidade que se apresentava diante de toda a minha impotência. Ele sentiu o cheiro dos salgados estragados que um vendedor ambulante carregava a caminho de uma lata de lixo. Estava surpreso e ao mesmo tempo com muita pena, ao ver meu gênio do cordel, em uma luta nem um pouco poética pela sobrevivência.

Por fim, encontram-se e antes que o vendedor jogasse os salgados no lixo, entrega-lhe a repugnante refeição que rapidamente é devorada pelo pobre senhor.

Ouço alguém me chamar. Num piscar de olhos, percebo que estou em meu quarto, debaixo do lençol. Minha mãe bate forte na porta interrompendo o que mais parecia uma hipnose:

– Ainda está com raiva porque não gostou do jantar?

CRÔNICA

ALUNO: NAILTON DA SILVA RODRIGUES

ANO: 2016

PROFESSORA: MICHELE ALECSANDRA NASCIMENTO

ESCOLA; UNIDADE ESCOLAR EDSON DA PAZ CUNHA.

Na foto acima, Nailton da Silva Rodrigues com o escritor e secretário da Academia Parnaibana de Letras, Antonio Gallas Pimentel. 

 

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