HISTÓRIAS DE ÉVORA E A CONTINUIDADE DO ROMANCE DE FORMAÇÃO BRASILEIRO

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HISTÓRIAS DE ÉVORA E A CONTINUIDADE DO ROMANCE DE FORMAÇÃO BRASILEIRO

Maria do Socorro Rios Magalhães

Elmar Carvalho, poeta com vários livros publicados, apontado pela crítica como autor de poemas dos mais inventivos e inovadores da literatura   piauiense, surpreende os admiradores da sua obra poética, ao publicar sua primeira obra de ficção em prosa, o romance Histórias de Évora.

Embora não seja incomum escritores exercitarem-se em ambos os gêneros – lírico e narrativo – trata-se de diferentes posições de expressar uma visão de mundo, posto que, na poesia, o eu lírico envolve-se com aquilo que expressa, predominando, portanto a subjetividade, enquanto na narrativa, o sujeito narrador busca distanciar-se do objeto narrado, almejando apresentar com objetividade a sua visão de mundo. (STAIGER, 1975)

Nos seus estudos de estilística sociológica, Mikhail Bakthin (1990) aponta que o romance e a poesia têm estilos radicalmente opostos. O romance representa esteticamente o dialogismo da linguagem e arrasta para seu estilo características estilísticas de outros gêneros, enquanto a poesia prima pela pureza estilística, não permite que o dialogismo da linguagem se manifeste e só deixa falar uma única voz: a voz do eu lírico. Aristóteles, (1998) muito antes de Bakhtin, já dizia que na poesia lírica, o poeta fala em seu nome expressando a si mesmo, enquanto na narrativa, o autor se manifesta também através de personagens. Esta ligeira referência à teoria do romance de Bakhtin tem como justificativa apenas destacar que Histórias de Évora, de Elmar Carvalho atende àquilo que o teórico russo estabelece como uma obra romanesca, ou seja, para reconhecer que o poeta escreveu um romance.

Lendo a lúcida apresentação do livro, escrita pelo crítico e professor Cunha e Silva Filho, que faz uma análise muito pertinente do romance de Elmar, identificando, neste, características tipológicas do romance de formação, percebe-se que, de fato, o autor aproveitou-se da tradição alemã do Bildungsroman, transportando o modelo idealizado por Goethe para o seu Wilhelm Meister. González (1997, p.177) assim compreende a origem e propagação desse gênero:

[…] o romance alemão iria assumir o ideário da Ilustração na obra de Goethe, Wilhelm Meister. De imediato, a crítica iria fundir o conceito de Building à forma narrativa que exemplificava sua realização, para criar a noção de um novo gênero, o Bildungsroman ou romance de formação.

Essa modalidade de romance, com larga difusão na Europa, tem, no Brasil, também os seus seguidores, uns mais outros menos fiéis. O maior expoente é, sem dúvida, Raul Pompeia com o seu famoso O Ateneu. Contudo, José Lins do Rego, com Menino de engenho e Moleque Ricardo, Graciliano Ramos com Infância e até mesmo Angústia, que narra a trajetória do atormentado Luís da Silva incluem-se entre os romances brasileiros inspirados no Bildungsroman europeu. De autoria feminina, Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector, poderia ser classificado como romance de formação, assim como muitos outros que acompanham o ideário de Wilhelm Meister, com maior ou menor fidelidade ao original.

Já no caso da Literatura Piauiense, pelo menos dois romances de formação podem ser registrados: Ulisses entre o amor e a morte, de O.G Rego de Carvalho, e Caminho de perdição, de Castro Aguiar.

            Este tipo de romance tem como principal característica apresentar um protagonista em uma jornada de crescimento espiritual, político, social, psicológico, físico ou moral. É o que ocorre com o personagem Marcos Azevedo, de Histórias de Évora, como muito bem observou Cunha e Silva Filho na sua Apresentação, pois o enredo acompanha o período que vai da adolescência do protagonista até a entrada na maturidade. Paralelo ao aprendizado do amor, vai se dando o aprendizado da literatura, pelo jovem Marcos Azevedo. À medida que vai depurando sua forma de amar, o protagonista vai depurando também a sua forma literária, perseguindo o ideal de perfeição que sempre move o personagem do romance de formação.

Concordando com Bakthin ao afirmar que o romance é gênero que permite maior liberdade criativa, misturando vários gêneros na sua estrutura, constata-se em Histórias de Évora a representação de vários outros gêneros, como bilhetes, letras de canções, poemas, anedotas, folclore, entre outros. Esse recurso que alguns chamam de intertextualidade, Bakhtin (1990) denomina como hibridismo, ou seja, mistura de gêneros, fenômeno estilístico próprio do gênero romanesco.

Na ânsia de abarcar o maior território narrativo possível, Histórias de Évora não se contenta com apenas um narrador. A narração é feita por um narrador em terceira pessoa que acompanha a evolução do jovem protagonista até a idade adulta. Porém, ao chegar ao décimo primeiro capítulo, este narrador em terceira pessoa dá a palavra ao protagonista Marcos Azevedo, que passa também a exercer a função de narrador, utilizando a primeira pessoa, de modo que os dois narradores vão conduzindo o processo narrativo até o final do romance. Enquanto o narrador em terceira pessoa dá conta da trajetória de crescimento do protagonista, o narrador em primeira pessoa assume um tom memorialístico, anunciado, logo de início, pela citação de Marcel Proust. Assim, não deixa dúvida de que esse narrador recorre à memória para contar, em paralelo com a sua própria história de vida, a história da cidade onde vive, ou seja “as histórias de Évora”. Temos, portanto, justapostas, duas narrativas, que compõem a estrutura do romance de Elmar Carvalho.

O espaço do romance é a fictícia cidade de Évora, referência à histórica cidade lusitana, conhecida como a capital do Além Tejo, reconhecível, entretanto, para os leitores piauienses como a Princesa do Igaraçu, a também histórica cidade da Parnaíba do estado do Piauí. A cidade está toda lá, com seus casarões, o Porto das Barcas, o meretrício à beira do rio, as grandes casas comerciais de importação e exportação e muitos outros pormenores que identificam a Parnaíba dos anos 70 e 80 do século passado.

O discurso da história socioeconômica do Piauí se entrecruza com o discurso romanesco, seja na fala do narrador em terceira pessoa, seja na fala do outro narrador, em primeira pessoa. Desse modo, Histórias de Évora, se mostra como texto pluriestilístico, pluridiscursivo e plurilíngue, características, que, segundo Bakhtin, definem o gênero romance.

Concluindo esta breve notícia da publicação Histórias de Évora, só resta assinalar que o romance de Elmar Carvalho enriquece a literatura piauiense, ousando retomar a temática da formação de um jovem, apropriada da tradição europeia e ainda pouco desenvolvida por autores piauienses. Mas não só por isso, também pelo estilo, que rompe com a linearidade e inova o processo narrativo, recriando formas de contar histórias que prendem o leitor e deixam a impressão de ter vivido também a experiência existencial do jovem herói que narra e é também narrado nas Histórias de Évora.

REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES, HORÁCIO E LONGINO. A Poética. Clássica. São Paulo:  Cultrix, 1998

BAKHTIN, M. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. São Paulo: Hucitec, 1990

CARVALHO, Elmar. Histórias de Évora. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2017. Coleção Século XXI.

GONZÀLEZ, Mario M. Romance de formação e romance picaresco: uma questão de identidade. In: REIS, Lívida de Freiras (coord.) Estudos &Pesquisas: fronteiras do literário. Niterói-RJ: Universidade Federal Fluminense, 1997

STAIGER, Emil. Conceitos fundamentais da poética. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975

SONATA EM DOR MAIOR

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SONATA EM DOR MAIOR

Elmar Carvalho

A mesa está posta,

mas os pratos estão vazios.

O meu povo não tem

talheres, nem colheres,

por isso come com

as mãos o que não

existe nos pratos.

O meu povo vota em

eleições para presidente

da república (de estudantes),

mas sonha votar

na eleição para

Presidente da República

Federativa do Brasil.

O meu povo deseja bater

palmas para as estátuas dos

heróis libertários.

Mas como se as mãos

e os pés estão atados?

Em 1888 acabaram com a

escravidão no Brasil. Mas que escravidão?

Se antes os escravos eram pretos,

hoje são de todas as cores,

e cantam com raiva a “Esparrela do Brasil”.

Parnaíba,13.10.78

Academia é representada em concurso de literatura de cordel em São Bernardo.  

 

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O escritor e membro da Academia Parnaibana de Letras, Antonio de Pádua Marques Silva, participou na sexta-feira dia 27 como jurado de um concurso de poesias e literatura de cordel promovido pela Secretaria Municipal de Educação de São Bernardo, no Maranhão.

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Este concurso fez parte do programa Escola Aberta, Escola Viva, do projeto Integração Família e Escola. Na ocasião concorreram dez trabalhos de duas escolas, a Unidade Escolar Nilza Lima e o Instituto Cônego Nestor.

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A programação incluiu ainda exibições de teatro, gincanas, dança e desfiles. Pádua Marques disse na ocasião que a presença da Academia Parnaibana de Letras em eventos dessa natureza significa muito o alcance do nome da entidade para esta região do Baixo Parnaíba. Fonte: APAL. Fotos/ Edição: APM Notícias.

A quem renega a inspiração.

 

 

 

*Ivaldo Freitas Cardozo.

 

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Palavras caídas, carregam a vida

Uma euforia que logo o vence

Por essa mente extensa

E minha cabeça propensa

A vender o que inventa

Aos quatro ventos do poema.

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Nem ligo se acha falsidade

Que é mal da idade inventar algo

Que se diga verdade.

 

Só sei que tenho muito a contar

Mesmo que não lhe ocorra.

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Meus versos podem mostrar

E caso tenha tempo

Eu posso mesmo na memória resgatar

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Pois são dias de experiência

São esperas, são vivências.

 

*Estudante do ensino médio integrado no campus Parnaíba do Instituto Federal do Piauí.

Gansos.

 

 

Quando comecei a me interessar por poesia, certa vez me chegou às mãos um destes livros raros e maravilhosos, mas que hoje não lembro o título. E nele, perdida entre tantas e tantas estava, “Os cisnes”, de Júlio Salusse.

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Pra mim uma das mais lindas poesias. Toda vez que lembro fico profundamente comovido.

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Agora com a praça da Graça ornamentada com gansos me veio a lembrança da poesia refinada daquele filho de Nova Friburgo.

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As aves da praça da Graça são gansos, mas pra mim são e continuarão sendo como se fossem cisnes.

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Os cisnes

A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós constantemente
Um lago azul sem ondas, sem espumas,

Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
Matinais, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas.

Um dia um cisne morrerá, por certo:
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a água se tisne,

Que o cisne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado de outro cisne!

 

(Júlio Salusse)

 

Por Pádua Marques, cadeira 24 da APAL.

 

 

Na Toca do Velho Monge

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Na Toca do Velho Monge

Elmar Carvalho

Mais uma vez estive na Várzea do Simão, mais uma vez estive na Toca do Velho Monge, em companhia dos amigos Zé Francisco Marques, Carlos Eduardo Coutinho e Natim Freitas, para mais uma vez contemplarmos a lamentável degradação do Rio Parnaíba, nas proximidades dos Tabuleiros Litorâneos.

E mais uma vez não pude passear em meu pequeno barco Tremembé, de pequeno calado, tal a largura e pouca profundidade do rio, mesmo o período chuvoso tendo sido bom, como todo mundo sabe. Mas, pelo que notamos nesse trecho, a sua situação está pior do que a do ano passado.

Não custa relembrar: o Parnaíba é o mais importante patrimônio natural do Piauí e é o responsável pelo abastecimento d’água das mais populosas cidades do nosso estado, entre as quais Uruçuí, Floriano, Teresina e Parnaíba e várias outras menores em seu longo percurso.

Entra governo e sai governo, e nenhum faz nada para minorar a degradação do velho Rio Grande dos Tapuios. Talvez só adotem alguma providência quando o seu estado for quase irreversível e a sua recuperação for muito cara. E quando outros de seus afluentes forem rios mortos, rios extintos.

Após a contemplação da paisagem, tão bela quanto melancolicamente assoreada, voltamos à casa do Sítio Filomena, e fomos nos refugiar no Cantinho do Poeta, para a prática de sábia libação e degustação, em que ouvimos as melodias da trilha sonora de Histórias de Évora, que preparei, com as músicas e cantores citados nesse romance e mais as da trilha da despedida de solteiro, que Marcos Azevedo, protagonista do livro, supostamente havia preparado.

Por fim, ouvimos as lindas melodias interpretadas por Zé Francisco Marques, que se vem excedendo como cantor e violonista, com seu vasto e seleto repertório, que transita do brega clássico ao que há de mais sofisticado da Música Popular Brasileira, com ênfase agora nas músicas poemágicas imortalizadas pelo poeta, compositor e cantor Belchior.

HOMENAGEM AO PROFESSOR

GALLAS

Antônio Gallas

O professor é um bravo!

Acorda ao raiar do dia,

Vai pra escola ensinar,

Com a maior alegria.

Muitas vezes vai a pé,

Porque não tem condução!

O que ganha é muito pouco

Mal dá pra alimentação!

E quando chega na escola

Vai logo sendo cobrado:

Corra pra sala de aula,

Que você tá atrasado

Vê sua frequência cortada

E a falta desse dia

Do salário é descontada.

O professor não tem folga

Ele está sempre ocupado

Tem provas pra corrigir

No domingo ou feriado.

Tanta ficha e caderneta

Ele tem que preencher

E num quadro esburacado

Também vai ter que escrever.

As férias do professor

Essas nem mais se fala

Se ele não tá planejando

Está na sala de aula.

São tantas as disciplinas

Que ele tem de lecionar

E já foi advertido:

Que não pode reprovar.

Os alunos não estão

Nem aí pro Português

E dizem com tal desdém

Pra que aprender inglês?

O professor paciente

Tenta a todos explicar

Que o inglês está presente

Em tudo quanto é lugar.

Os alunos displicentes

Não procuram aprender

Mas o tal “I Love you!”

É só o que sabem dizer.

É uma árdua missão,

Essa de ser professor

Mas ele nunca se cansa

E ensina com amor.

Da educação infantil

Ao curso superior

Todos vão ter que passar

Pela mão do professor.

Parabéns ao professor,

Mestre da educação

Que ensina com amor

Carinho e dedicação.

Eis aqui minha homenagem

A esta classe sofrida

Que com responsabilidade

Não descuida da sua lida. 

DIA DO PROFESSOR

Parnaíba (PI), 15 de outubro de 2017.

Com estes versos (cordel) de minha autoria quero aqui homenagear todos os meus colegas professores, verdadeiros heróis da educação brasileira!

Histórias de Évora. Os novos voos do Poeta

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Hércules Amorim

Em novo rol de escritos, como sempre escancarados à crítica e imaginação de quem os lê, o escritor e poeta piauiense Elmar Carvalho nos leva agora a uma viagem de retorno a nossos primórdios, colocando em capítulos a forma, tonalidade e expressividade já demonstradas em outras obras de sua verve.

Trata-se de Histórias de Évora, a cidade imaginária onde personagens vivem intensamente os períodos mais belos e conflitantes –  ora felizes, ora tristes e mesmo hilários – das suas formações comportamentais e, principalmente, humanas. São histórias e estórias da pré até perto da pós-adolescência de jovens que não se contiveram em apenas ver a vida passar, mas colocaram nela molho apimentado, fatos e acontecimentos que, vivenciados, nos trarão à boca o licor da saudade.

Não dá para dispensar observação singular ao estilo. Constatar que Elmar alguma vez passou pelos bancos da escola Parnasiana, embora, modestamente, não se aprofunde ou guie-se pela construção fidelíssima de textos buscados e rebuscados. Por isso, a fazer aquilo que se torna pura expressão do antagonismo latente entre dois movimentos literários de peso: cai não só na linguagem bem apurada dos plenos sentidos, mas também no Romantismo, aliás bem apropriado à época em se desenrolam as histórias de sua fictícia – e tão concreta – Évora.

Elmar, à certa altura, nos deixa confusos sobre o personagem que ele próprio encarna. Mas no conjunto, fica evidente o que mais o retrata, especialmente para os que trafegam no seu cotidiano literário e no seu cotidiano de cidadão simples, mas, não raro, meticuloso. Os textos, com esmeradas narrações, deixam patente o simbolismo e sonoridade das palavras, como se cada uma represente uma imagem, uma foto. Não poderia ser diferente. Se em alguns parágrafos o leitor estranhar um possível exagero da forma, para melhor deduzir o conteúdo leia ou releia José de Alencar e veja se seria possível descrever a silhueta da Virgem dos Lábios de Mel sob a luz da lua cheia com apenas dois ou três adjetivos, e sem nenhum superlativo.

Os escritos, vezes eruditos, em Histórias de Évora, são colocados com o objetivismo ou a subjetividade necessários à narração dos eventos picantes, trágicos ou tragicômicos que vivenciaram seus protagonistas. São eles quase sempre sedimentados numa paixão efêmera ou naquele amor que de tão significativo tornou-se quase eterno, para eles e para nós, leitores. Podem se materializar à vontade no Marcos Mendes Azevedo, no Mário Cunha, no Fabrício e amigos, cada qual com sua personalidade e seu modo de se comportar nas histórias da cidade que, em determinado ponto, percebe-se, se compõe numa ampla faixa de terra sertaneja.

Como em toda obra de estrutura segmentada, alguns capítulos ou narrativas levam à preferência.  Como leitor, indico singular atenção ao “Dono do Céu” – com sua pernóstica lourinha, filha, pra variar, de um abastado comerciante -; o “Lendário Zé Lolô” – em sua indescritível feiura –; a “Balzaquiana”, de farta e bela memória –; e o impagável último “ Voo do Pardal”, se é que houve algum anterior.  Se houve ou não, fica para outra história, possivelmente em outra encarnação. Certo é que espocou manchete em “A Batalha”, periódico eborense, a despeito de que ainda hoje não se tenha notícia sobre a real situação e o quê de fato está por trás do mistério envolvendo o genial Eugênio, audaz criador de engenhocas que lhe carimbaram o apelido de “professor Pardal”, mais tarde somente Pardal.

Ademais, bebam, degustem e curtam o que de melhor nos revolve aos tempos da meninice e juventude por vezes sofridas, mas sadias, cheias de traquinagens, descobertas, namoros, flertes fortuitos, alegrias, saudades e gradual apuração da sexualidade. Tudo isso nos contando como eram diferentes os interesses dos jovens de há mais de três décadas, em particular a paixão pela leitura e o bom uso da palavra.

Que todos os leitores se instalem na sua própria Évora. E que Elmar Carvalho prossiga em suas viagens, sempre nos trazendo boas novidades.

* Hércules Amorim é jornalista

Mão Santa lança livro com reflexões sobre o amor, a vida e a família.

 

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O acadêmico Francisco de Assis Moraes Souza, o Mão Santa, lança às 17h dessa sexta-feira 13 na Federação das Indústrias do Estado do Piauí, região central de Parnaíba, seu mais novo livro, Para Daniela, após o seu Casamento, Carta do Pai Francisco.

Nesta obra, Mão Santa, que também é prefeito de Parnaíba, segundo o poeta Diego Mendes Sousa, trava exaltado um belo diálogo sobre o amor bem como sobre a família. O livro traz ainda ensinamentos preciosos, além da vasta visão de mundo do seu criador.

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“É uma missiva expressiva, tão valorativa quanto a dicção do jurista Rui Barbosa em Oração aos Moços, conclui Diego Souza. Mão Santa ocupa a cadeira número 10 que tem como patrono Francisco Ayres. Fonte: APAL. Fotos: web, APAL. Edição: APM Notícias.

 

De José de Freitas ao Arco-Íris

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De José de Freitas ao Arco-Íris

Elmar Carvalho

Atendendo convite do amigo Raimundo Lima, escritor e juiz aposentado, fui, em companhia de Fátima e minha irmã Maria José, visitar o seu sítio, localizado a 20 quilômetros da cidade de José de Freitas. Procurei sair cedo, para ter tempo de dar uma volta em seus diferentes logradouros, praças e ruas, a fim de recordar os tempos ditosos em que nela morei, quando tinha 14 anos de idade, e tudo me sorria, e a esperança habitava meu jovem peito. Como no dizer do poeta, as graças me iam à frente espalhando rosas e a estrada era verdejante e florida.

Primeiro revi o morro, no centro da cidade, que na época não tinha nome. Era simplesmente o morro, em cujo cimo se erguia um pequeno Cristo Redentor, de acolhedores braços abertos. Muitos anos depois, passaram a chama-lo de “do Fidié”, herói português; eu prefiro chamá-lo de Morro do Livramento, em homenagem ao antigo nome da cidade e às nossas lutas libertárias.

Não era poluído, como hoje, por várias antenas de telecomunicações. Eu o escalava por quase todos os lados, em companhia do Carlos, do Itamar e outros colegas de traquinagens. Quase nunca usávamos a escadaria. Quando precisei usá-la, aos 50 anos, o fiz de forma açodada, estugando os passos; mas logo senti o impacto da idade, e tive de me conter, para recuperar o fôlego. Era o prelúdio da velhice que já me acenava.

A santa – Nossa Senhora do Carmo, que eu pensava ser a do Livramento, padroeira da pequena e aprazível urbe – em seu imaculado manto branco nos acolhia. Ficávamos a seus pés, a conversar, enquanto olhávamos a paisagem ao longe e o movimento da cidade, então ainda pequena, pacata, mimosa e bucólica. Consternado, observei que a bela escultura apresentava uma crosta escura, não sei se apenas sujeira, ou se moradas de insetos, como cupins ou marimbondos, de fogo ou não. Urge que o poder público municipal ou a paróquia faça alguma coisa, para que esse belo patrimônio artístico não se arruíne de forma definitiva e irreparável. Ainda mais que é uma obra do grande escultor Murilo Couto.

Indo em direção à casa em que morei, perto da de dona Irá, mãe do Carlos, do Chico, do Nando e do Nonato, passei pelo teatro, que foi restaurado. Não sei a frequência com que é utilizado em apresentações artísticas e teatrais. Mas em 1970 ali cantaram Valdick Soriano e o piracuruquense Roberto Müller. Na frente havia o clube social e dançante, que já não existe.

Perto, mais precisamente na frente do cemitério velho, dito dos ricos, havia um campo de futebol, que ajudei a fazer, com o apoio do padre Deusdete Craveiro de Melo e o auxílio de garotos, meus colegas e vizinhos. Invadido pelas casas, não mais existe. Existe ainda a igreja de São Francisco, então inativa, e hoje restaurada e em pleno funcionamento. Foi construída por Cândida Cunha, uma das habitantes do pequenino campo santo, consoante li, menino, em sua lápide.

Para minha consternação, a casa em que morei, abandonada pelos proprietários, talvez em face de interminável inventário, já começa a se transformar em escombro. Perto dela ficava outro campinho de futebol, onde joguei diariamente, na posição de goleiro, que era favorecida pela areia fofa que então existia. Ali, garoto franzino, eu me esticava em ornamentais “voadas”, a imitar o Félix Miéli Venerando, o Beroso e o Coló. Era cercado por grandes e frondosas fruteiras. Também não mais existe, tomado que foi por residências e cercados. A casa e oficina de Zezé Barros, o melhor marceneiro de José de Freitas, lhe ficava defronte. Era ele um dos peladeiros, conquanto fosse bem mais velho que nós outros, moleques dos arredores.

Resolvi dar uma olhada no cemitério e no estádio, que tantas vezes vi em minha infância. São contíguos. Para minha profunda tristeza e decepção, a praça esportiva, que pensei ter passado por melhoramentos, está em situação deplorável, com o muro bastante deteriorado. O cemitério, ao menos no momento em que o contornei, tinha o aspecto de que fora esquecido pelo próprio esquecimento, como nos versos de Jorge de Lima. Abandonado talvez mesmo pela morte, a quem deve servir.

Retornando ao centro da cidade, vi o prédio onde outrora funcionou a famosa Casa Almendra, fundada pelo patriarca José de (Almendra) Freitas. Tinha várias filiais, e era uma das maiores firmas do Piauí em seu ramo de atividade. Algumas vezes vi o senhor Ferdinand Freitas em seu interior, em seus afazeres. Nessa época, idos de 1970, ela só possuía uma sucursal, em Teresina, se não incorro em equívoco. Para aumentar a minha nostalgia o Bar Glória, orgulho dos freitenses, esvaiu-se no tempo, e já não ostenta a sua glória passada, o moderno balcão frigorífico e seus saborosos picolés.

Emocionado com tantas lembranças, me pareceu enxergar o vulto do padre Deusdete, vestido em sua batina, entre as naves da velha matriz. E como arremate dessas lembranças contemplei o Ginásio Moderno Estadual Antônio Freitas, onde fiz o segundo ano ginasial na época em que o Brasil ganhou o tricampeonato mundial de futebol.

Recordei meus colegas e mestres. Nomeio alguns de meus velhos professores: Pe. Deusdete, Sebastião (colega de meu pai nos Correios), José Acélio Correia (gerente do BEP) e a professora Durvalina Pereira dos Santos, que apesar de promotora de Justiça e de lecionar matemática, que sempre foi um bicho papão, jamais intimidava ou amedrontava seus alunos, como era um vezo dos professores de matemática da época.

Entre os alunos (e contando, confesso, com a ajuda do amigo Francisco Costa, radialista e fiscal da SEFAZ, de elefantina memória) cito: Zé Bacharel (da família Chaves, vereador em várias legislaturas), Farias, Edmilson e Carlos Leite, João Rocha, Paulo Paiva e José Nascimento (Zé Rosinha), recentemente falecido, que veio a se formar em medicina. Sem dúvida, cada um seguiu o caminho que lhe coube percorrer, embora eu os tenha perdido de vista nas muitas esquinas e desvãos da vida e do tempo.

Feita esta última e sacra estação em busca do tempo perdido nos esconderijos de um passado de mais de quatro décadas, fui à procura do pote de ouro no Arco-Íris, sítio dos amigos Raimundo Lima e Benedita, juízes aposentados.

Quando Raimundo adquiriu essa fazenda, pediu algumas sugestões para lhe mudar a designação. Por ser poeta e admirador de Manuel Bandeira, sugeri-lhe “Pasárgada”, título de um belo poema do velho bardo e nome da velha cidade persa de Ciro, e “Vale do Marataoã”, por ficar à margem esquerda do histórico rio, outrora integrante do topônimo da ancestral cidade de Barras.

Ao chegar, foi que fiquei sabendo: ia ser comemorado o aniversário do bravo Raimundo. Não irei revelar de quantos anos. Foi uma linda festa, sem som volumoso e estridente, e sem cachaçada. Os irmãos, primos, sobrinhos, tios, genros e noras se estimavam, mas não houve necessidade de selfie. À sombra do alpendre e de um pé de mama-cachorro, personagem do livro infanto-juvenil do dono da casa, mantive uma agradável palestra com este, com o irmão Josué Bonfim e José Pedro Araújo.

Antes do almoço o Lívio Bonfim, casado com Lara Larissa, romancista e cronista, filha dos donos da casa, proferiu uma bela oração de agradecimento a Deus, por todas as dádivas recebidas, inclusive o alimento, que, por sinal, foi um manjar digno de deuses da gastronomia. E que me fez pecar, tal a gula de que fui justamente acometido.