A entrada de Pádua Marques na Academia Parnaibana de Letras.

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“Tornei-me acaso vosso inimigo, porque vos disse a verdade?”

Carta de São Paulo aos Gálatas (Gl 4,16).

A recente entrada de Antonio de Pádua Marques e Silva na Academia Parnaibana de Letras é um feito que, no campo literário de Parnaíba (quiçá do Piauí), merece ser lembrado e reverenciado.

Não por ser o ingresso de um legítimo artífice das letras criativas, mas por quebrar certo regime de ingressos não literários que grassa nas academias desde que Joaquim Nabuco, em 1907, querendo justificar a eleição do almirante Artur Jaceguai, abrira as portas da Academia Brasileira de Letras a homens que não se notabilizaram na literatura, mas, tão somente, em atividades extraliterárias e não culturais, como foram também os abusivos casos de Santos Dumont e de Lauro Müller, então ministro do governo de Wenceslau Braz.

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Autor de importantes peças literárias que aguardam ocasião adequada para caírem nas graças da publicidade, Pádua Marques é, sem o prejuízo da comparação, o típico homem de letras que, ao se comportar como cronista, lembra-nos, de alguma maneira, o Graciliano Ramos de Linhas tortas (1962), e só não o é mais porque encerra em sua produção traços de uma identidade muito bem formada e definida – o que faz do mestre alagoano apenas um norte e não esteio.

Além disso, a sua escolha pelo gênero da prosa é outra marca, principalmente em um meio acostumado com poetas e, vez por outra, com cronistas. Contra essa corrente, Pádua é, antes de tudo, romancista fecundo, cujo tempero, em leves pitadas de humor e de ironia, ajuda a formatar textos simples e ao mesmo tempo ricos em imagem e crítica; é o que ocorre, por exemplo, em O libertador de Cuba, romance ainda inédito.

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As academias de letras, a bem da verdade, deixaram de ser no Brasil, ironicamente, reduto dos homens de letras. Um leve olhar, o mais superficial e sem apuro de pesquisa, constataria que as suas cadeiras são ocupadas, antes, por homens de poucas letras, embora de muitas influências (amigos, parentes…), advindos de outros campos: veem-se médicos, advogados, engenheiros, políticos, militares etc. com colaborações ao monte Hélicon ainda por vir, se é que um dia virão.

É claro que na América Latina, por questões socioeconômicas, raríssimos foram os escritores que se dedicaram unicamente à literatura, daí que esta não passasse – e ainda passe – de uma segunda ocupação, quando não para as horas livres. Quase todos os intelectuais brasileiros, a propósito, desde fins do século XIX e início do XX, eram profissionais liberais ou funcionários públicos, isso, porém, não impedia que legassem às letras pátrias obras que de alguma forma entraram para a história do país. E é dessas colaborações que falo.

No Brasil, ainda hoje, repete-se o triste e inolvidável episódio da eleição armada, para a ABL, de Mário de Alencar, então aspirante a escritor, que vencera Domingos Olímpio, prestigiado autor de Luzia-Homem (1903), justamente porque o estreante era tutelado por nada mais nada menos que Machado de Assis.

Quantos “meninos de letras” – quase ou totalmente desconhecidos! – são, ainda, tutelados e empossados por vínculos de parentesco? De reduto, de espaço sadio ao gozo das letras, as academias, assim, transmutam-se em verdadeiros feudos regidos por homens cordiais que hipertrofiam a esfera privada em detrimento da pública, para aqui lembrar a lúcida análise de Sérgio Buarque de Holanda acerca desse jeito malandro e tão brasileiro de ser.

É por razões congêneres que a vigência-instituição1 no Brasil, fortemente representada pela ABL, aos poucos tem mudado o seu centro de gravidade para as academias científicas, onde residem pesquisadores, estudiosos e mesmo escritores, cujas forças intelectivas muito têm contribuído para a literatura brasileira.

Aliás, a Academia Brasileira de Letras, há alguns anos, sabendo da importância de sua coirmã, tem se aproximado das principais universidades do Brasil, a começar as do Rio de Janeiro, e patrocinado ciclos de conferências em sua sede, um exemplo, sem dúvida, a ser seguido pelas demais, porque no seio científico é que residem, hoje, as verdadeiras pesquisas, os mais inusitados estudos e as fortuitas contribuições ao campo.

Pádua Marques, portanto, é uma injeção de ânimo para quem hoje assiste com certa desconfiança aos sodalícios de letras do país. Sem dúvidas o seu voto, em nome da literatura, como os de outros merecidos nomes que lá residem e fazem valer suas eleições, vale mais para a estrutura social das letras do que quaisquer outras vozes que reverberam uma existência amorfa e improdutiva.

Sua voz, reforço, é a voz de um romancista com histórias que localizam Parnaíba, sua terra, como espaço de excelência. Eis, por isso, a grande contribuição de Pádua Marques para as letras de Parnaíba: como escritor ajuda a formar o capital simbólico da cidade, assim também fizera século passado Assis Brasil, criando sobre e para ela histórias, mitos, universos e toda uma poesia, como os romancistas franceses de antanho acerca de Paris, a exemplo de Balzac, que dedicou uma vida a cantar e a louvar aquela que não tardou a ser considerada a própria República Mundial das Letras.

Vida longa ao imortal!

Daniel C. B. Ciarlini

1 Tomo emprestada aqui esta expressão tão cara a Luís Antonio Machado Neto, em sua referenciada pesquisa Estrutura social da república das letras (1973).

 

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