Se ninguém gosta de ler, imagine guardar livros

*Por Pádua Marques

       Estava aqui com meus pés fora dos chinelos de dedo observando esta medida tomada pelo governo do Piauí, mais precisamente sua Secretaria de Justiça, e que beneficia aqueles detentos que lendo terão uma redução da pena proporcional à quantidade de livros lidos. Eu não gosto de dar palpites em certas iniciativas de governos, principalmente quando são governos que não têm experiências em certos assuntos e acabam metendo os pés pelas mãos.

         Mas fugindo um pouco dessa discussão dos livros com detentos no Piauí me recordo de uma viagem pelo interior, aqui perto na região, em que numa propriedade onde estavam fazendo farinha, a mulher dona da casa me disse com certa tristeza sobre as dificuldades de guardar a mandioca fresca porque faltava espaço e além do mais, ninguém quase mais come farinha neste mundo. “Aqui, seu Padinha, muita coisa se perde porque ninguém tem mais aonde guardar”.

      Quantas e quantas toneladas de farinha branca, goma branca, farinha de puba, beijucica, grolado, tapiocas, papafina e beijus com gergelim deixam de ser produzidos porque não há mais mercado nas pequenas cidades e onde a cada dia os homens, mulheres e meninos do campo foram ficando urbanos, todos americanizados e relegando de onde vieram.

        Não comem mais macaxeira e nem bolo de milho no café. Não assam mais castanhas pra comer a paçoca porque têm medo de ficar com as roupas fedendo. Não tomam mais leite mugido porque meteram na cabeça deles que tem micróbios. Mas é assim mesmo, bocado comido é esquecido.

        Negócio deles agora é só andarem com o celular na frente dos olhos falando sabe láleitura3 com quem. Ficam parecendo bestas falando sozinhos pelo meio da rua e com as caras pra cima. E ainda tem mais esse negócio agora de redes sociais pelo meio que é pra falar com gente até do caixa-pregos. Quando não, ficam em frente da televisão só assistindo coisa que não presta.

      E transportando essa mágoa da robusta dona da casa de farinha, sobre quem não come e nem compra farinha e beijus, pra questão dos livros aos detentos do Piauí, me ocorre lembrar que o homem quando está numa situação de desespero, qualquer coisa serve pra se salvar. Até ler livros.

        Detentos leitores terão quatro dias de redução na pena depois de terem lido um livro e feito um resumo pra ser analisado por professores. Se muita gente pensava que o negócio era somente ler e ficar por isso mesmo, se enganou. A coisa não vai ser assim tão fácil não.

        Muita gente vai ficar pelo meio do caminho. Muita gente vai tentar a liberdade pelos leitura1meios tradicionais no código dos detentos, as fugas e as rebeliões. Imagine um sujeito dentro de uma prisão, sabendo que tem uns vinte e poucos anos pra cumprir pena e pelas condições oferecidas tem quatro dias de desconto, pegando pra ler uma Divina Comédia, de Dante Alighieri ou um Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes?

       E daqui desta posição em que me encontro fico observando as dificuldades de nós escritores alcançarmos público leitor. Alto custo de uma publicação, burocracia pra registrar a obra, falta de incentivos e finalmente ter mercado leitor. Mais precisamente entre essa nova geração que não gosta de ler.

    Outro dia em conversa com um grande amigo, Daniel Ciarlini, falei sobre a necessidade de, antes que o mundo acabe pelo avanço da comunicação eletrônica e que seja decretado o fim dos livros de papel com essa morte lenta e certa, gostaria de fazer um documentário sobre a literatura parnaibana neste início de século XXI, com suas várias correntes. E eu não tenha que acreditar que, pra ter público leitor o homem precise perder sua liberdade e passe a viver anos e anos dentro dos presídios do Piauí.

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