Socorrista

           Ela não tinha nome. Era Joaquina, Maria, Pedrina, Aparecida, Socorro, Lígia, Verônica, Madalena… Não tinha sobrenome. Era Silva, Conceição, Ribeiro, Borges, Brasileira…

            Aqui, vamos chamá-la de Socorrista, por ser o nome que mais se parece com a forma como se relacionava com as pessoas: dando apoio, contribuindo com palavras, com dinheiro, dando amor…

            Ela levantava quem estava na sarjeta, quem tinha poder, o da mesa farta e o que não tinha um pedaço de pão seco para se alimentar. Profundamente religiosa, não se importava em gastar o que fosse para dar o melhor a Cristo. Assim, levantou igreja, contribuiu com movimentos religiosos, deu sustentáculo a quem fazia obra ou local para àqueles que fazem ou fizeram algo em favor da Trindade Santa, dos que precisam da piedade divina.

            Viajou, curtiu a vida, conheceu os locais onde Cristo viveu, onde a Família Sagrada nos alimentou a confiança, onde a Virgem, juntamente com os Apóstolos se reuniam, logo após a Morte do Seu Filho Amado, dando força aos companheiros que se achavam derrotados com a partida do nosso Redentor.

            Como Nossa Senhora, era uma mulher de fibra, sem apego a bens materiais, usando-os para servir ao próximo e viver em plenitude. Foi Paulo, foi Agostinho, foi além do nosso entendimento, pois com tanta riqueza espiritual, não estávamos à altura de compreender a sua forma de ser e de agir.

            Para nós, ela foi mãe, foi filha, conselheira, loucura, ventura, paixão, compaixão, acima de tudo dádiva. Não tinha hora para ligar e nem para servir. Não queria saber se estávamos ou não precisando: ela ligava dizendo que algo estava nos correios ou na casa de alguém.

            Muito do que há em nossa casa, lembra-a.

            Agora, mais do que nunca, as lembranças se acendem em cada objeto que nos enviou, com a alegria de sempre, com afeto ilimitado, como se a vida lhe fosse breve e tivesse que fazer o máximo por aqueles que ela amava e, até, pelos que não a amavam, porque ela amava e amava e amava… O amor era o fruto doce, a alimentação mais rica, mais gostosa, mais saudável e constantemente com o preço mais amenos. Ela não olhava preço, via necessidade, necessitado – Cristo à sua frente, derramando desejo  de que ela fosse misericordiosa, plenitude de grandeza de alma, de solidariedade e, principalmente, de misericórdia.

            SOCORRISTA! – Que melhor nome, nós poderíamos dar-lhe?! Qual é a forma plausível de homenageá-la?! Quem está tão tocado pelo Espírito Santo, que pode traduzir em palavras palpáveis, tudo que ela fora como pessoa, como agente do bem, promovedora da paz?! Seu apego era a nada apegar-se. Estava a mil anos à nossa frente! Foi, sendo, e se sendo o fora, sendo, sempre será! Ninguém a limitava; nem todos os seus gestos eram compreendido, pois somos muita terra e ela apesar de estar sobre a terra, esta era apenas um espaço físico, a sua mente rodopiava além da nossa imaginação!

            Eliana estava entre Teresina e Parnaíba, quando Socorrista ligou para ela. O telefone estava fora de área. Foi a última oportunidade que ela teve de conversar, talvez explicar o que estava sentindo. Eliana não era apenas uma amiga, uma filha, uma mãe… Era a grande conselheira, aquela em quem ela confiava cem por cento. A quem ela contava os seus problemas, as suas loucuras, onde estava, o que fazendo… Atualmente, ela andava conhecendo os locais sagrados, locais onde pisou a Sagrada Família, Cristo e seus Apóstolos, o Cenáculo com a chamada dos presentes na reunião, escrita na parede, onde ainda se lê o nome da Virgem Mãe e dos Apóstolos. Ela que vinha enfrentando muitos problemas, estava se vendo realizada, tranquila, abençoada… Quem é que faz o bem, que tem um amor por Cristo incondicional, que não sofre?!

            Eliana tem chorado todos os dias. Socorrista era o sangue sem correr seu sangue em nossas veias. Adivinhava nossos pensamentos e, por ser pessoa de posse, desapegada, de quando em vez, agradava-nos com algo que ia além de um presente. Presente é, para muitos, algo material: um sofá, uma geladeira, um guarda-louça… Socorrista dava-se a si mesma. Assim, não é uma luminária no nosso Cantinho do Céu, que nos arranca saudades. Ela está além do tempo e do espaço! Além de qualquer tipo de algo tangível!

            Hoje, 16 de outubro de 2015, ela será sepultada às 15 horas. Ora da Misericórdia, hora em que Cristo Suspirou: “Tu expiraste, Jesus, mas a Fonte da Vida brotou imensamente para as almas e o oceano de Misericórdia abriu-se para o mundo”. “Ó Fonte de vida! Ó Misericórdia Infinita, envolve a nós e todo o mundo. Ó Sangue e Água que brotaste do Coração de Jesus como uma fonte de Misericórdia para nós, em Vós confio”(Santa Faustina).

            Parece que Deus quis privilegiá-la. Ela almoçou com parente e amigos, sorriu, se divertiu… Em seguida, passou mal e não deixou o SAMU chegar. As tentativas foram muitas, porém, em vão! Até parece que estava com pressa de chegar aos Braços de Cristo, da Família Sagrada, dos Apóstolos, dos que trabalharam para o Bem da Terra.

            Ah, amiga! Palavras são muito boas em várias ocasiões – inclusive para nos consolar! Entretanto, elas, neste momento, não servem de nada! O silêncio é o melhor tranquilizante, a mais bela das orações! Porém, elevamos a nossa voz silente aos Céus, e recomendamos a Cristo que desejamos, já que não pudemos fazê-lo pessoalmente, que Ele ou a Virgem, ou o bom José que derrame flores nos braços dessa amiga que aí chega, cheia de dor e saudades, porém certa de que ao lado de todos Vocês, dos familiares, ela encontrará a paz, o Amor tão escasso neste Mundo e tão repleto desse lado daí. Somos testemunhas visíveis do bem que ela fazia, da grandeza da alma dela, do quanto era desapegada de bem material e dada a ajudar àqueles que dela precisavam. E fazia-nos brilhar o sorriso com a formosura dos seus atos, ações diárias e benquerer, sem se preocupar com a cor, as vestes, a condição social, enfim.

 Cristo. Diga a ela que o espaço que ela tem em nossos corações não será preenchido por mais ninguém. Quando aí chegarmos, haveremos de acertar as contas: ela havia prometido vir a Parnaíba, contudo, partiu sem essa visita. Confirme que, tudo dói, quando nos machucamos. Saudade como a que estamos sentindo, não tem dor que a compare.

            Uns trilhões de beijo em seu coração, mãe, filha, amiga, tudo dentro do tudo!

            Wilton Porto e Eliana Porto.

                Parnaíba(PI), 16 de outubro de 2015.

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