Memórias do vaqueiro Beca Amaro

         manelao Tive a sorte e a felicidade de conhecer e de ter perto de mim um dos homens mais extraordinários desta região, desde que cheguei ao Piauí no final de 1993. Digo isso hoje aos seus familiares pra que sirva de consolo e homenagem pelo fato de Manoel Antonio Araújo, o Beca Amaro, não estar mais vivo. Mas se tornou imortal, como fala esse pessoal de academias de letras, porque antes de morrer deixou gravado um CD e publicado um livro de memórias.

         Conheci “seu” Manel, como era tratado pelos filhos e os poucos amigos, na casa de uma filha em Buriti dos Lopes, no Piauí. Era sogro de meu grande amigo e companheiro de jornal, José Luiz de Carvalho. Pai de Liz Paula, Patrícia, Renata, Amaro, Erika e Renato, hoje todos adultos e donos de suas ventas, o vaqueiro nascido na região de Chaval, no Ceará em 1931, deixou pras gerações futuras um legado difícil de equiparar em conhecimentos de vida e de sua profissão.

         Este livro, Memórias do Vaqueiro Manoel Antonio, o Beca Amaro, que tive a satisfação de fazer a revisão ortográfica me foi presenteado e autografado por sua filha, a professora Renata Machado, atualmente trabalhando na 1ª Regional de Educação. Falar de como foi feito este livro, que bem merece nossa reverência, merece uma explicação. Manoel Antonio era analfabeto. Com a ajuda das filhas gravou suas memórias, que depois foram redigidas, corrigidas e finalmente publicadas.

           Não se espere quem ler Memórias do Vaqueiro Manoel Antonio, o Beca Amaro, uma linguagem rebuscada e pra quem entende de literatura, longe da realidade. O autor trata a vida que teve conforme ela o tratou, com muita crueza. Sobre determinadas passagens bem que merece aquela da sala de aula quando aos onze anos, junto com os irmãos Francisco, Zé e Ana, quando diz: “… o seu Martins inventou uma escola à noite. Eu fui alguns dias. Num desses dias, quando ele fez uma pergunta e eu não respondi direito, todos mangaram de mim. Cheguei em casa falei do acontecido pro papai e que não ia mais. Escola não era mais pra mim”.

Manoel Antonio Araújo, o Beca Amaro, teve uma infância difícil e a de adulto também. Órfão de mãe aos treze anos, analfabeto, sendo criado por um e por outro, passou por muitas e muitas dificuldades, mesmo casado e pai de filhos. Viveu como vaqueiro, capataz de fazenda, salineiro. Noutro trecho, ao lembrar muitas e muitas coisas, já aposentado e vivendo na companhia de uma filha casada, diz que gosta de gente, mas morou muito só durante muitos anos. “Hoje moro numa casa cheia de gente, mas vivo a maior parte do tempo só, pois ninguém para em casa.”

           De certa forma o livro de Manoel Beca Amaro é de uma singeleza de linguagem e ao mesmo tempo cruel, duro com as narrativas. Porque a vida que ele recebeu pra tocar foi muito dura com ele. Porque a vida de homens e mulheres, principalmente quando crianças, daquele início de século XX, principalmente os pobres, era um rosário de sofrimento. No pequeno livro de setenta e duas páginas, mandado publicar pelos seus filhos, há uma grandeza difícil de explicar numa página de jornal. Há uma riqueza antropológica e sociológica que precisa ser pesquisada com muito cuidado. Quantos outros homens iguais a Manoel Antonio, o Beca Amaro, existem ou existiram e nós deixamos escapar? Quantas histórias deixaram de ser contadas por homens e mulheres experientes porque nós, arvorados como donos das ciências não deixamos que eles se mostrassem?

           E é sobre esse tipo de obra que ora me debruço que acho que deve ser focada a atenção dos estudiosos. Uma literatura de raiz, feita a partir de elementos e situações rudimentares. Somente dessa forma as gerações futuras vão entender como nasce e como se solidifica uma cultura de costumes. Precisamos dar mais valor às coisas simples. Aquelas pessoas e situações que estão próximas de nós. É o conjunto dessas expressões que faz com que nossa cultura permaneça mais viva. Ainda tenho muito que falar desse homem extraordinário, de seu CD de cantorias do Pavão Misterioso. Fica pra depois.

padua* Por Antônio de Pádua Marques – ocupante da cadeira nº 24 da Academia Parnaibana de Letras

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